domingo, 1 de janeiro de 2012

2012, mais um ano de muita riqueza e nenhuma prosperidade.

Eu também gostaria de dizer que o ano que começa hoje será melhor do que o ano que passou.
Mas não será, pelo menos para nós, que moramos nessa parte rica do mapa do Brasil, soterrados por uma montanha de dinheiro, que engessou qualquer possibilidade de alternância democrática, que aqui se confunde com a simples troca de mandatários.

Se ao redor do mundo, está mais que provado que o capitalismo nem sempre rima com Democracia, onde soluços xenofóbicos e um panorama sombrio pairem sobre as instituições europeias, reféns que estão da agenda dos financistas, que sacrificam milhões e milhões de empregos e aposentados, para manter de pé os totens do deus-mercado, na nossa planície lamacenta de desperdício e opulência, o clima é o da anti-política.

O que seria anti-política, se por aqui, parecemos respirar em ambiente de permanente disputa?

É anti-política o cenário onde as instâncias estejam contaminadas e paralisadas, com o comprometimento do Judiciário, corrosão da interação fiscalizadora do Legislativo, submissão vergonhosa da mídia, e por fim, mas não menos importante, a captura total e completa da ação executiva municipal pela cartilha dos grandes grupos econômicos, que submetem a pauta pública da política às suas necessidades de investimentos privados, de onde retiram os recursos para manterem suas apostas eleitorais, fechando o ciclo: empresa-obra-dinheiro-voto-obra-dinheiro-empresa.

Mas aprofundemos as dúvidas, até porque se trata de um tema complicado:

Ué, mas por aqui não tem voto, não tem campanha livre, não tem tudo o que tem em uma Democracia, não se exerce a ação política partidária, enfim, não está tudo aí?

Sim e não.

É inegável que o governo municipal represente uma escolha da maioria da população, mas a outra pergunta fundamental é:

Com a quantidade de recursos empregados, o total aprisionamento da mídia e dos veículos de produção de informação, que permitiria o conhecimento sobre a ação dos administradores, a apatia e falta de criatividade e coragem dos partidos políticos em nomear e abdicar das estruturas que viciam o jogo eleitoral(empreiteiros-mídia-caixa dois-votos), será que temos eleições que reflitam o que deveria ser o pleno exercício cidadão?

Será que as pessoas que votam nessa cidade têm a plena consciência do que está em jogo? Que raios é esse tal de cidadão? Como ele expressa suas necessidades sob forma de apoio ou rejeição à plataformas políticas? É uma questão material? Simbólica? Reúne as duas, tem mais alguma?

Em nossa cidade, qualquer que seja a resposta, o resultado é ruim, pois, se acreditarmos na tese simplista de que os eleitores são pobres vítimas enganadas(tese que eu repilo, veementemente), está claro que as eleições não são mais do que uma fraude.
Mas se, por outro lado, aceitarmos que os eleitores têm certa noção da promiscuidade que contamina as relações políticas na cidade, e realizam suas decisões pela simples satisfação de demandas imediatas e de curto espectro, sem se preocupar com o conteúdo público e de bem estar coletivo que deveria nortear a administração pública, poderíamos dizer que o quadro é tão ou mais triste.

Vamos trocar todas essas teorizações de botequim, e perguntemos mais:

Será que o eleitor decidiria manter seu apoio se pudesse discutir o absurdo que é gastar mais de 20 milhões para tratamento cosmético de um valão de esgoto à céu aberto?

E a rede oficial de propaganda que ceva a mídia local para comprar e espalhar consentimentos? Será que o eleitor gosta de saber que seu dinheiro serve para que ele adquira mentiras, ao invés de informação?

Ao eleitor-contribuinte-usuário basta apenas pagar um real pela passagem? E os subterrâneos sombrios dessa relação quase-criminosa do poder público com empresários, que na ausência de licitação das linhas, funcionam como piratas do transporte coletivo?

Qual é o real custo da merenda escolar, do leite em pó?

Quantas consultorias, quantos contratos superpostos, quanto de dinheiro alimenta o caixa de empresários que serão revertidos em apoio financeiro?

Por que será que em nossa cidade, e é bem verdade, em tantas outras por aí, a simples ideia de debater as ações e propostas de intervenção dos governos nessas cidades, definindo prioridades e escolhendo o essencial para o ordenamento das demandas, em locais como câmaras municipais, associações e outros fóruns públicos parece tão estranha e ofensiva?

Por que a busca é SEMPRE pela aceitação pura e simples, a concordância e o pensamento único, ou pela passividade cúmplice?

Por que nossa noção de "democracia" privilegia a noção de que basta impor a vontade da maioria, ainda que nem sempre essa vontade seja clara, ou se deturpe os mandatos conferidos por ela?

Enfim, por que nessa planície tudo se resume a contabilidade: de votos e de dinheiro para obtê-los?

Quem quiser patrocinar qualquer projeto de mudança ou criação de modelos alternativos de competição, financiamento e exercício dos mandatos, vai ter que começar a responder tais e outras perguntas, sob pena de só ganhar para fazer o mesmo.
E se for para ganhar para não mudar nada, a população escolhe ficar com "os profissionais", e não está de todo errada.

Essa é uma reflexão para a oposição que pode ser resumida como "as viúvas do coração".





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