quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Velho oeste do norte fluminense.

A nossa versão farwest no norte fluminense de concentração fundiária, de terras nem tão virgens assim, não guarda proporção histórica com a mítica expansão do branco estadunidense em direção a outra ponta de seu pais. Mítica porque simbolizada e estetizada em heroísmo, que deu caldo cultural e justificativa ideológica para o massacre dos indígenas e de outros pobres, mas nem por isso, menos épica.
A nossa história local nada tem de grandeza. É só lamento e infâmia que não dão bons Western no cinema.

A brincadeira do título faz, na verdade, uma alusão a um traço que existe em comum entre essa "colonização" do farwest e nossa situação: Lá nos idos do século XIX, nos EEUU,  como no processo de estruturação da atividade agrícola local, majoritariamente ligada a cana-de-açúcar, não existe lei, ou só existe a lei do cão.

Um "citável" local, como diria uma colonista que vive a adular a casa grande, à espera de que alguma migalha escape pelas beiradas da mesa, acaba de ser denunciado pelo crime de submissão de trabalhadores a condição análoga a escravidão.
Estranho é que nenhuma notinha tenha escorrido na seção do jornal ordinário onde se hospeda a famosa parasita social(aqui metaforicamente entendida como profissional que sobrevive de contar e futricar a vida e os costumes alheios, e a adular uns e detratar outros, ou traficar pequenas inconfidência com ares de premonição ou informação preciosa).

Bom, mas essa é nossa história no campo brasileiro, e seus lacaios da mídia, e por aqui só restam criminalizados como um todo os movimentos que lutam para acabar com essas desigualdades e aberrações.

Que se diga: Todos os envolvidos nos conflitos no campo devem ser punidos nas medidas de seus crimes, mas quando olhamos os rigores da Lei e da Justiça, percebemos, como sempre, que são seletivos, onde a propriedade sempre prevalece sobre a vida. Não é à toa que nessa disputa sangrenta, de cada 50 mortos, 50 são trabalhadores e integrantes de outros movimentos pela terra.
Quer dizer, a violência tem nome(e sobrenome colunável), classe social(patrão) e endereço(latifúndio), mas a punição só chega para quem morre  e, pior, duplamente. Mata-se o homem, e depois, mata-se a memória do que ele lutava, com a celebração da impunidade de seus algozes.

Mas o Procurador Federal acaba de nos dar um soluço de esperança.

Uma pena que seu ato de coragem não seja digno de notas no jornal. Acho que ele não vai ser convidado em certas festas de fim de ano nos bares da moda.


Para nossa reflexão, aí vai um texto que retirei da Carta Capital sobre o tema, lá em Mato Grosso do Sul, com a comitiva de um secretário da Presidência:



Fernando Vives

Violência no campo

30.11.2011 12:00

Vem aí a versão rural das UPP’s

Os morros urbanos do Rio de Janeiro não são os únicos lugares do Brasil que precisam ser ocupados pelo poder público. O Mato Grosso do Sul acaba de nos dar um exemplo claríssimo de que, em várias regiões do País, quem manda não é o governo. Faz a lei quem tem mais dinheiro. E jagunços.

Índios protestam por direito ao uso de terra em áreas de conflito em Mato Grosso do Sul. Foto: Cimi

No último domingo 27, o secretário de Articulação Nacional da Secretária-Geral da Presidência da República, Paulo Maldos, visitou um acampamento indígena das comunidades guarani  kaiowá. A região foi palco de sangrentas disputas entre os produtores rurais da região e os indígenas, com baixas e intimidação sobre estes últimos – ao menos três seguem desaparecidos. Em jogo, os processos de demarcação de terras indígenas em disputa na região de Amambaí, cobiçadas pelos fazendeiros, que estão na Justiça.
Ao sair das comunidades, Paulo Maldos e sua equipe foram cercados por jagunços, que pediram o documento de todos os que estavam na comitiva (e repare aqui a inversão de valores: homens armados pediram os documentos a uma autoridade pública nacional). Segundo a Presidência declarou ao jornal Folha de S. Paulo, os jagunços fotografaram, filmaram e xingaram os índios que acompanhavam Paulo Maldos.
“Tinha gente protegida sendo filmada. Eles demoraram para entender que a Presidência da República e a Força Nacional de Segurança estavam presentes no local. Eu saio daqui preocupado com a segurança dos indígenas e adverti a ele (o jagunço) que, se algo ocorresse com as pessoas filmadas, ele seria investigado”, disse Maldos, ao O Globo.

O cacique Nísio Gome, morto em ação de jagunços em fazenda sul-mato-grossense. Foto: Conselho da Aty Guasu

Integrantes da Força Nacional de Segurança foram chamados à região para escoltar a comitiva do governo. Após vários atos de intimidação, o enviado da Presidência conseguiu seguir viagem para Dourados, maior cidade da região.
É claro que o Mato Grosso do Sul não é um estado totalmente dominado por milícias de fazendeiros que se consideram acima da lei. Mas lá, sobretudo na região de Amambaí, o poder público, quando chega, é intimidado. A região, como outros lugares do território nacional, transformou-se ao longo dos anos em grandes zona de exclusão judiciária e da autoridade pública. Se o poder público é ameaçado, imagine os índios que lutam pelo direito de viver em suas terras ancestrais. Daqui a pouco vão precisar instalar UPPs, as unidades de polícia pacificadora, entre uma fazenda e outra para o poder público poder visitar as localidades.
O caso da comitiva de Paulo Maldos é só mais um, e certamente não será o último. Ou o Estado traça um plano para se fixar, de vez, no local e se colocar à frente dos interesses particulares locais, ou noticiaremos eternamente casos obtusos como esse. E sem índios para contar a história.

Um comentário:

Anônimo disse...

A primeira deve ser nas bandas do "papinha"?