quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Porto do AÇU e Sprite: como dizer a verdade para manipular a realidade.



Essa propaganda do Sprite era uma derivação daqueles filmes onde se dizia: "sede não é nada, imagem é tudo".

A ideia central da campanha, ou das campanhas, se consideradas como separadas, era fazer chacota dos chavões e recursos da propaganda.
Lógico, tudo isso para dizer(sempre de forma subliminar) que uma vez sendo sinceros sobre si mesmos(e claro, com ênfase nos demais), ninguém duvidaria da afirmação de que Sprite era o melhor para matar a sede.

A verdade confere autoridade para quem a reivindica.

Se eu fosse marqueteiro do pessoal do senhor X, o mega-hiper-super-ultra-plus-empresário, que não dispensa(como todos os demais)uma bolsa-bilhão de isenções e subsídios fiscais, eu utilizaria esse conceito para falar a população sobre os benefícios do porto do Açu, a partir de imagens negativas:

CENA 01/filme 01:

O ator que poderia ser o Wagner Moura, o Luigi não convenceria, vestido de capitão Nascimento, à bordo de um super-helicóptero do BOPE, fala ao rádio, e sobrevoa um pequeno acampamento, em uma zona rural, onde manifestantes, camponeses, etc, estão prestes a entrar em confronto com a tropa que cerca o perímetro.

CLOSE: A câmera aproxima, e na fuselagem do caveirão voador lê-se: doado pelas empresa X, que comprou financiado com recursos do BNDES e isento de ICMS.

Corta para o capitão, que berra no rádio:

- Mathias, eu já falei, é para invadir, descer a porrada nesse monte de morto de fome, e varrer o lugar. Quem esses merdas pensam que são para atrapalhar o lucr...(gagueja)...quer dizer, o desenvolvimento e desafiar a autoridade do...do...?!(pausa, hesitando)...do...?!(volta-se para o piloto e pergunta):

-Tenente, nos estamos sob ordens de quem mesmo?

Corta para o chão.

Sobrepõe cena de bombardeio de napalm no Vietnã.

Volta para o local, já arrasado e vazio, corpos fumegantes, pessoas feridas, agonizantes, em meio enevoado.

Fecha com recurso fade (escurecendo aos poucos a imagem), caracteres lidos pela voz em off:

Empresas X, sacrifício à serviço do progresso!


Essa sinceridade poria um fim nos salamaleques e tentativas cínicas de cooptar alguns setores para algum tipo de interlocução sobre os impactos da imposição dos interesses do bilionário sobre a população local.
E de quebra, economizaria um bocado na conta de publicidade, uma vez que não precisariam mais gastar milhares(ou milhões de reais)para comparar jornais, revistas, rádios e TV para tentar vender uma imagem tipo sorriso de creme dental, ou de família de margarina.

E quem sabe, arrumar alguns trocados para pagar os camponeses como figurantes de sua própria tragédia: Sairia barato e verossímil.
Para a PM nem precisa, o governador manda "de grátis" mesmo.


Ah, é claro, Luigi Baricelli ficaria sem essa boquinha, como alguns editores e jornalistas de coleiras. Mas esse é o preço da guerra pelo lucro e pelo slogan: Sacrifícios à serviço do progresso!




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