sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Dona Esperança.

Parecia brincadeira ou mentira, mas esse era o seu nome de batismo. E se dizem que certos nomes nos dão um destino, como um emblema ou uma marca que nos revela, esse era o caso.

Dona Esperança já estava disputando corrida com o tempo, mas mantinha-se de pé, firme, e muito lúcida.

Naquele dia especial, vestia o melhor vestido, feito por sua mãe quando ainda era uma mocinha. Um verde claro, que sugeriria um desbotado, mas ainda assim verde, cor predileta da Esperança, e cabia-lhe feito uma luva, pois Dona Esperança às vezes engordava um pouco, mas nos dias de hoje estava magra, com o peso de quando era ainda uma menina.

Mas não se engane, apesar da aparência frágil, era mulher elegante, de coluna e postura eretas

Arrumou o cabelo prateado, cor de nuvem, que combinavam perfeitamente com aqueles olhinhos espertos, azuis-cor-de-céu.

Embarcou no ônibus a Dona Esperança, não sem aguardar pacientemente e com sorriso nos lábios pelo coletivo que demorou 1 hora e meia, e veio cheio. Nada que a abalasse, afinal, esse era o preço de pagar menos pela passagem.

Dona Esperança votara naquela prefeita, pois a palavra de ordem daquele pessoal era o que mais rimava com esperança: Mudança.

Mudou muito pouco, é verdade, mas Dona Esperança nunca desistiu, nem quando os comentários de seus netos, que liam e escreviam em blogs(que ela nem sabia o que era, nem onde encontrar esse troço), que o governo era uma decepção. Do alto de seus incontáveis anos de vida, Dona Esperança não se dava ao luxo de  desacreditar. Acreditava, sempre.

Não perdia o viço nem quando soube dos escândalos das passagens: "bobagem", pensou ela. Nem com as obras superfaturadas: "erros acontecem". Muito menos com o leite em pó das crianças a preço de ouro em pó: "qual nada, tudo intriga dos pessimistas".

Dona Esperança manteve-se firme até quando foi até a farmácia do município, e lá faltava seu remédio de controle da pressão: "um dia a mais, dois dias a menos, não tem problema, quando sobrar dinheiro, eu compro, mas o remédio chega logo, e nem vai ser ser o caso", retrucou para si e para o menino do balcão do centro de saúde, com um largo sorriso nos lábios.


Então, no dia de ontem, Dona Esperança espremia-se no ônibus, e foi até a beira do valão em frente a rodoviária da cidade. Foi ver a inauguração das obras do valão: "lindo que ficou, você não acha?", dizia ela a passageira do lado, esbaforida entre pacotes e sacolas.
Queria ver a prefeita cantar, e quem sabe, apertar a mão do deputado, seu marido, que Dona Esperança acompanhava desde muito moço, nos programas de rádio.
Trazia na mão uma rosa que colhera naquela tarde do seu jardim, e tinha fé entregaria o mimo a prefeita.

No meio do caminho, um enorme engarrafamento prendia o ônibus, o calor insuportável. Dona Esperança sentiu uma pontada, leve é verdade, na cabeça, uma palpitação estranha, mas nunca pensava no pior: "é o calor", abanava-se, enquanto na outra mão segurava a rosa.

De repente, em frente ao Serviço de Assistência Médica de Urgência, o ônibus fervia, e Dona Esperança, sem o remédio que faltara na farmácia da prefeitura, acometida pelo aumento da pressão, teve um AVC.

Os passageiros, em pânico, correram com ela até o Posto Médico. Nada. Não havia médico, trânsito parado pela inauguração logo mais à frente, e Dona Esperança se esvaindo no corredor do Posto de Urgência.

Antes apertada no ônibus, que ficou apertado no trânsito caótico, e com a rosa apertada entre as mãos, Dona Esperança morreu sem socorro no Posto de Urgência, e no seu último suspiro, como um testamento aos que presenciaram sua morte, uma lágrima escorreu pela sua face.


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