sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Uma historinha de merda.

Imagine um senhor do interior, todo engalanado em dia de missa de domingo, charrete limpinha, e o pangaré a trotar pelo caminho de terra, à caminho do arraial que se espraia ao redor da igrejinha.
Junto vai a patroa e a petizada em escadinha. Zézo e família.

O sol escaldante não derreta a felicidade do passeio semanal.

Do outro lado do mundo, um elegante e bem vestido senhor vai com a família, mulher e dois filhos, planejados e com destino garantido, todos dentro de um Jaguar XK8, conversível, bancos de couro de gado Jersey, criado em fazendas onde o arame é todo liso, para nunca arranhar o couro do animal. Todo o acabamento em mogno. Vão ao Country Club. Dr Agenor e família.

O clima temperado, do arvoredo daquele bairro chique e planejado, sopra uma brisa leve que acaricia a pele de gente bem nascida.

De repente, por uma coincidência do destino, tanto o matuto pobre, quanto o cosmopolita endinheirado, sentem uma dor aguda no fim da barriga, como se fosse um aviso de se trata de uma série, como contrações. Com intervalos menores, cada vez mais fortes. Quem já teve uma dor de barriga dessas sabe o que digo.

É o clássico caso: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Se correr, o esforço pode precipitar o desastre. Se andar devagar, pode não haver tempo para evitá-lo.

Os dois seguiam, cada qual em seu veículo, cada qual em sua condição social, mas os dois com um único pensamento que une toda a raça humana nessas horas: Meu deus, vai dar tempo...e uiii, lá vem outra cólica, e um barulho estranho, como se as tripas revirassem por dentro.

Um acelerou o cavalo, e como se trata do patriarca, não poderia declinar porque suava mais que os todos, e porque parecia lívido, esvaecido, tanto que a mulher pergunta:
-Tá sintino arguma coisa, Zézo?

Como resposta rumina um muxoxo:
-Ááára.
E estala o chicote.

Do outro lado da vida, a pressa repentina pelo trânsito, quase a sugerir uma imprudência juvenil, misturada a impaciência deram o tom a dúvida:

-Que houve papai?
Pergunta o mais novo herdeiro.
-Nada, nada não meu filho.

Sofriam em silêncio. Afinal, como um pai diria aos filhos que estavam com uma baita caganeira.

Pois bem, eis que avistam ao longe a miragem da salvação.
Lá de longe a igrejinha do Zézo.
O Jaguar dobra a esquina e lá está o Country.

A penúltima cólica vem misturada dos estranhos sons que sugerem gases em ebulição, mas há de todo o jeito o medo, o pavor que todos conhecemos: E se aquele peidinho melar a cueca?

Desce da carroça o Zézo.
-Amarra o bicho aí zé osvaldo. Grita para o filho, enquanto pula em desabalada carreira.

Desce do Jaguar, saudado pelo valet:
-Boa tarde Dr Agenor!

A corrida de passo contido dos dois, que juntam os joelhos para conterem a lei da gravidade.

Mas nada disso deu jeito.

Ambos surpreendidos pela natureza, bem a caminho do banheiro.

Sujaram-se todos os dois.

Uma cagada colossal, com direito a barulho onomatopeico, gritos de nojo e surpresa, e um misto de suspiro de alívio e vergonha.


Moral da história: Seja rico, ou seja pobre, somos todos a mesma BOSTA.




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