sábado, 12 de novembro de 2011

O picadeiro.

Naquela pequena cidade, não havia muito do que se reclamar, mas por outro lado, nada para se inspirar também. Uma vida morna, dias mornos, noites mornas.

Como todo ajuntamento de gente, ali estavam as classes sociais, diluídas em laços de compadrio, mas que realçavam suas linhas divisórias quando algo importante estava em jogo: Eleições, conflitos de terra e outros momentos que aguçam a cobiça humana, e mais: nos cruzamentos afetivos, quase impossíveis.

No entanto, um ou outro caso acontecia, e na sua totalidade, eram mocinhas recrutadas para casar com velhos patróns, e naqueles dias de decadência econômica, se pareciam mais com caricaturas de um tempo de fortuna. Mas o traços e a crueldade do poder que hierarquizam vidas e sentimentos estavam lá, intactos.

Foi assim que se construiu o casamento de Lourdinha e don Francisco de la Roya.

Ele, sexagenário, herdeiro de herdeiros de herdeiros, espoliado em sua fortuna, mas considerado um dos grandes pela tradição, e de fato, pelos poucos, mas valiosos bens que lhe sobraram pelos anos de ociosidade, opulência e arrogância.

Ela, uma das filhas de dona Maria de Lourdes, quituteira e cozinheira local, lavadeira, passadeira de mão cheia, que servia na casa dos la Roya desde que se entendia por gente. Era como se sua ascendência viesse junto com os bens herdados, como a mobília da casa.

Dona Maria de Lourdes casou com seu Antônio, que também servia a casa como motorista e jardineiro, e ali pariram seus filhos, e dentre alguns sobrava a desconfiança de quem eram todos eram filhos da "senzala", mas obras da "casa grande". Ninguém ousava tocar no assunto, embora os traços genéticos ousassem em revelar o segredo de polichinelo.
O ciclo de diluição da dominação estava aí, e Lourdinha veio completá-lo. Quanto completou quinze anos, viçosa, e com aquela inocência maldosa no olhar, passou a despertar a cobiça do don Francisco, que passou a investir.

Nesses tempo, o poder era poder, como sempre, mas as relações enfraquecidas de riqueza davam a dona Maria e seu Antônio um certo capital para negociar a filha em um casamento vantajoso. Ainda que não tão rico quanto antes, desposar um patrón era uma das únicas chances de romper o ciclo da miséria e das humilhações.
E don Francisco sabia que não havia mais tanto que prendesse aquela gente ali pela servidão, então, um casamento renovaria as relações de submissão pelo parentesco.

É certo que se casaram, don Francisco e Lourdinha, em festa de arromba, pois ainda que pouco restasse, ainda restava a necessidade de aumentar a força do símbolo que o poder traz.

Ele com 65 anos, e ela com 17 anos incompletos.

Anos se passaram, e entre enfermeira, empregada, e esposa, Lourdinha tocava sua vida como se faz com uma parelha de bois de engenho, os mesmos ruídos monocórdios e "circulares", o mesmo ritmo, os mesmos resultados.

Eis que certo dia, chega a cidade o circo. Um desses circos pobres, maltrapilhos, como a própria sociedade local, mas trazia intacta sua mística e significados, embora decaísse a olhos vistos. Uma representação cruel da vida real.

O único terreno disponível para montar o circo e suas traquitanas, com água próxima, e luz elétrica, era de don Francisco, e lá foi o dono do circo, que também era o mágico, mestre de cerimônias, e de quando em vez, domador de um leão velho e desdentado.

A pequena cidade ferveu pela novidade.

O don Francisco, em um arroubo ancestral de mando, negou a permissão para que o circo se instalasse. Não havia porquê, era só sua vontade ranzinza e só. Como se resgatasse no ato o peso de decidir o destino e felicidade alheia.

Dona Lourdinha, agora com 24 anos completos, corpo perfeito revestido em pele morena, rosto de traços finos e lábios grossos, emoldurado por cabelos pretos com a noite e liso como fios de seda, cuidadosamente presos em penteado senhoril, soluçava dentro de si a vontade de pedir a don Francisco que reconsiderasse, e não sabia o porquê da chegada daqueles forasteiros lhe encantava tanto.

O circo apeou na beira da estrada, bem na entrada do pequena cidade, que era mais um povoado de uma rua.
Como não tinham água por perto, e outras facilidades do povoado, ficaram ali, amontoados, como se o passar dos dias trouxesse no vento alguma solução, ou quem sabe, apenas para descansarem um pouco, e arrefecerem a resistência de anos na estrada, agora que alguém lhes interrompeu a rotina de chega-monta-apresenta-desmonta-e vai embora.

Um dia desses, quando voltava de uma viagem a capital, don Francisco chamou por Lourdinha, que não respondeu.

Chamou novamente, e nada.

Foi até o quarto do casal, e sobre a cama lá estava.


Um buquê de flores, dessas de plástico que os mágicos usam em seu truques.

Como que por encanto, o circo se fora, e com ele, Lourdinha.




Nenhum comentário: