terça-feira, 15 de novembro de 2011

O Palhaço.

Diversão garantida, respeitável público.

O filme dirigido por Selton Melo, O Palhaço, estrelado por ele e pelo magistral Paulo José é um belo filme.

Se tem condições de disputar esse ou aquele prêmio, isso é outra história, e nem me atrevo a debater isso. São insondáveis os mistérios dos critérios e parâmetros do "julgamento" do trabalho dos outros: Há questões de mercado(sempre ele), políticas, ranços culturais(e principalmente linguísticos), etc, etc.

Fiquemos então com as sensações pessoais. Aquilo que faz você deixar a sala de cinema satisfeito, com a nítida impressão que tudo aquilo que foi dito lhe diz respeito, e você saiu um pouco melhor do que entrou, nem que seja por alguns longos minutos, ainda que o ar condicionado seja precário e quase faça o espectador "colar" o na poltrona, ou o som da projeção emita estalos, como se a cópia exibida rodasse o som a partir de um disco 78 rpm.
Apesar de tudo isso, como em um circo pobre, o encanto permanece.  É desse encanto que falamos.

À primeira vista, o filme também trata desse encanto, uma vez que o tema, o circo, evoca essa lembrança de fantasia proporcionada por gente de carne e osso, que encena ali, na sua frente.
Algo bem próximo do teatro, mas sem o peso e o compromisso de contar nenhuma história. Circo é isso: Diversão em estado puro.
Tanto no circo como no teatro não há outra mediação entre público e artista. Não há meio, senão a palavra, o corpo, a expressão.
Outro truque narrativo, o nome do circo: Esperança, como se a dizer que a vida, como aquele circo, não é glamourizada, cheia de efeitos especiais, artistas esbeltos em roupas sensuais, e sucesso permanente, como o circo Du Soleil, por exemplo, mas retira graça e desejo de um futuro melhor daquele universo, digamos, vulgar, entre carros velhos e imagem de são nepomuceno.

Mas o filme, embora use o circo como argumento, e extrai, na minha opinião de espectador, boas possibilidades dessas alegorias narrativas, é sobre uma questão muitíssimo mais simples, e ao mesmo tempo complexa:
O que somos (palhaços), quem somos (a busca da identidade e dos outras "documentações" de si mesmo) e o que queremos (o objeto de desejo: ventilador).

O drama dos palhaços tristes, à moda de Chaplin, as personagens da trupe que se entrelaçam e se misturam as suas vidas e demandas pessoais e reais, sucesso, fracasso, a decadência, a generosidade, a mesquinharia, mesmo que na forma de caricaturas, traição, dinheiro, enfim, toda gama de sentimento, tragédias e comédias humanas.
Tudo isso se reúne sob um roteiro simples, belas tomadas do interior paulista, uma escolha feliz dos filtros de câmera, que proporciona uma textura de fotografia que dá cores interessantes a narrativa.

No entanto, este acerto técnico e todas as qualidades se resumem a uma frase, na boca do ótimo Jackson Antunes: "Gato bebe leite, rato come queijo, e cada um é o que é."


Um belíssimo filme.
Beleza sob forma da estética da simplicidade, que aqui, não pode ser confundida com a precariedade e pobreza.

Outro ponto alto é a homenagem que rende a todos os atores que usam a comédia como ferramenta, e provam que fazer rir é coisa séria. Ali estão, atemporais: Ferrugem, Jorge Loredo (Zé Bonitinho), Tonico Pereira, Emilio Orciollo Neto, Fabiana Carla e Moacir Franco.

A presença deles não é uma concessão, ou "migalha" de atenção, mas uma prova de que, a despeito, ou apesar da indústria do entretenimento e sua cultura da obsolescência, o talento não morre, e tem espaço em qualquer história bem contada, ou seja: Precisamos aprender a contar boas histórias para aproveitarmos cada ator de talento que temos, e não são poucos.

Um belíssimo filme. Bravíssimo.










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