terça-feira, 15 de novembro de 2011

O Monitor de Dogville.

Respeito muito a memória coletiva dos que trabalharam no Monitor Campista, mas alguns fatos precisam ser esclarecidos nesse dia que se lembra os dois anos de sua extinção, sob pena de continuarmos a esquecer ou a menosprezar a nossa História.

De todos os textos que li sobre o tema, o que mais me chamou a atenção foi o do Vítor Menezes, que você pode ler aqui.

Não se pode duvidar da comoção de suas palavras, é verdade, mas eu reajo a tentativa de imputar uma culpa coletiva, dentre tantas outras que carregamos, pela "morte" do jornal.

A afetividade que está evocada na análise contrasta com a sobriedade perene do Vítor, e é compreensível, mas de fato, é preciso dizer:

01- O Monitor, na época, era o estranho "centro" de uma disputa editorial-política: De um lado, o jornal vinculado ao governo mocaiber, que agregava o verbo pela verba, e de outro, o jornal da oposição, que hoje funciona como pasquim oficial do governo. O Monitor se pretendia "neutro", na ingenuidade (nunca má fé) de alguns de seus profissionais, que reivindicavam uma (inexistente e impossível)imparcialidade, ainda mais se considerarmos o afluxo oficial de verbas sem licitação para bancar as publicações do DO. Esse era um estranho calcanhar de Aquiles na "reserva moral" do Monitor.

02- Então, se a História e os fatos se desdobram e se precipitam como materialização de nossos atos e escolhas, o Monitor não foi apenas uma vítima coitada do assédio dos barões locais, ou da sanha política que nos assola, mas de tudo isso, e das escolhas de seus profissionais e gestores. Escolhas sistematizadas como acontecem em empresas, com hierarquia, ordens e tarefas. O jornal não era só um grupo de afinidades, embora esse sentimento fosse presente, era uma arena de disputas, e da busca por lucro e ganho pessoal.
Nesse sentido, cabe um parêntese: O Monitor mantinha, sabe-se lá deus porque, um dos mais obtusos editores-chefes, isso dito por vários dos seus colegas, que no entanto, por sentimentos pessoais ou solidariedade(pena)nada diziam. Como se vê, uma mistura estranha de sentimentos pessoais e corporativos em permanente "crise de identidade": Um jornal privado, mantido por um condomínio de herdeiros, e bancado pela publicação oficial e dinheiro público.

03- Outro traço das corporações, e os jornalistas não escapam à regra, é se imaginarem mais relevantes que são, e desse modo, perdem a referência do que representam. Esse delírio é comum entre blogueiros, e precisamos enxergar nosso limite e alcance curtíssimo, para não nos despregarmos da realidade e da organicidade da realidade. Sempre nos seduzimos a nos encararmos com mais peso que temos, como se o que disséssemos repercutisse como verdades inquebrantáveis a desmoronar inimigos e desafetos. Não é bem assim.
A simbologia, a fantasia coletiva que ergueram em torno de si, construída com a mesada oficial e com o esteio do espólio do Diários Associados, impediram-lhes de enxergar essa obviedade descrita acima, e quando tentaram uma repaginada, modernização ou uma re-conexão, foi tarde.

04- A afetividade obscureceu a percepção do Vítor de que se Campos dos Goytacazes é o que é, e  se o seu povo se comporta como moradores de Dogville, e se o Monitor faz parte de um enorme tempo dessa nossa cultura, podemos dizer que nossa indiferença pode ser fruto do que o Monitor "ajudou" a formar como consciência pública.
Ou será que a redação do jornal era uma ilha de excelência e boas intenções esteve isolada e cercada por iniquidade e mesquinharia por todos os lados? Se assim foi, não seria uma escolha arrogante? Ou suicida? Então, se foi escolha, porque dividir o ônus com Dogville?

05- Em uma cidade que pouco mais de 6 ou 7% leem jornais todos os dias, é um pouco demais imaginar que pessoas ou entidades fossem se mobilizar para salvar um fracasso comercial, ou para custear os devaneios editoriais de um grupo de jornalistas, que, pelo que soube, boa parte deles (jornalistas e funcionários) recebeu indenizações que se somadas, mesmo que contribuíssem com a metade do que receberam, daria de sobra para tornarem-se patrões de si mesmos, então: Se nem eles acreditaram, por que deveríamos acreditar?


Enfim, a "morte" do Monitor mistura questões estruturais da imprensa escrita, aspectos políticos locais, culturais, é verdade, mas acima de tudo, indiferença do público a quem ele imaginava se dirigir. Simples assim, por mais cruel que pareça.

O Monitor precisava antes de gente que o comprasse nas bancas, antes de parceiros, colaboradores, ou financiadores-cooperativados.

E como em um castigo para os que se imaginavam "imparciais" ou passíveis de ficar ao largo da polarização que vive a cidade, o leitor foi "imparcial" com a "morte do jornal".


Nota: O Monitor Campista, embora pouco se diga sobre isso, era uma empresa, com donos e que, por escolha destes, foi abandonado. Uma escolha gerencial, que pode ter outras causas, ainda não apuradas, e se apuradas, não reveladas pelo instinto investigativo de seus indignados "herdeiros", sabe-se lá porquê. 

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