terça-feira, 15 de novembro de 2011

A hipocrisia: O inimigo íntimo nº 1

Nesses tempos de espetáculo pirotécnico na Rocinha, com a velha história contada e requentada do "inimigo nº 1", eu demorei a engolir e digerir minhas reflexões. Como uma comida velha, que "cresce" na boca a cada mastigada.
Alguém se lembra quem foi o antecessor desse novo nº 1, o nem?
professor, escadinha, elias maluco, matemático, meio-quilo, gordo, uê, tuchinha, polegar, roupinol, celsinho da vila vintém, polegar, beira-mar, etc, etc?

Que se diga: São fascínoras, sanguinários, e todos os outros adjetivos que lhes imputam, mas nem de longe, podem ser considerados os maiores tubarões dessa piscina.


Bem, se todos esses "números 1" estão presos ou mortos, por que o tráfico permanece cada vez mais forte, cada vez mais armas, cada vez mais drogas e dinheiro?

Essa não é uma pergunta de resposta fácil, eu sei, e várias sociedades ao redor do mundo, das mais ricas as mais pobres, enfrentam a questão.

O problema, imagino, é que não se trata de obter respostas, mas fazer as perguntas certas:

Afinal, é possível um sociedade sem drogas (legais ou ilegais)?

Se, ingenuamente, respondermos que sim é possível, então é o caso de continuarmos a combater e tornar ilegal a venda de drogas, eu concordo. Mais repressão, mais cadeias e polícia.

Mas aí eu pergunto de novo: Por que podem algumas drogas e outras não?
Dirão que se trata de um problema de saúde. Sim, eu sei, mas e os cânceres de pulmão, esôfago, laringe e outros, bronquites, efisemas, cânceres de fígado, cirrose, etc, todos relacionados (cientificamente) ao uso e abuso de o álcool e cigarro?
E o custo público dessas doenças, que sobrecarregam o sistema público de saúde, e retiram as vagas para tratamentos de pessoas que NUNCA usaram essas drogas?
Ah, os impostos compensam esse custo.
Eu pergunto de novo: Essa lógica tributária compensadora não serve para as demais?

Não, mas existe o risco social do uso, pelo comportamento violento e outros eventos relacionados.

Sei, mas eu pergunto de novo:

Comprovadamente, o que mais mata no país, tanto na violência doméstica, quanto no trânsito e por fim, nos conflitos de convivência(bares, eventos, ajuntamentos sociais) não é o álcool?

Então, é possível que cheguemos a conclusão que uma sociedade sem drogas não seja possível.
E cheguemos a outra conclusão mais assustadora:
Que todo uso de drogas (legais ou não) traga prejuízos ou impactos sócio-econômicos, pois quem decide usar álcool, seja no show de rock, axé, sertanejo, no carnaval, ou no aniversário inocente de um ano da filhinha amada, e quem sobe o morro para cheirar ou fumar, vão fazê-lo, e não se importam, ou se importam pouco com esses impactos.
Assim não adianta reprimir ou tentar convencer o usuário com slogans cretinos: Beba com moderação ou se beber não dirija. Quem bebe, o faz para perder a moderação, e não será capaz de julgar o que vai fazer.

Então, se não há erradicação, como tratar o tema: Confronto ou convivência controlada. Saúde pública ou polícia? Nem uma coisa só, nem outra: É preciso deslocar o foco para os resultados do uso, e responsabilizar DURAMENTE quem causa estragos sob efeitos de drogas, e por outro lado, aumentar a carga tributária desses produtos, bem como restringir ao máximo os locais de uso(como já fazemos nos estádios, depois de anos e anos de violência e selvageria).

Como toda encenação social, o tráfico e seu combate militarizado serve a vários propósitos e desses propósitos retiramos nossas valorações morais.
Toda sociedade necessita arbitrar (lei)o que é legal ou ilegal, ou melhor, legítimo ou ilegítimo.
E se uma sociedade escolhe essa droga para ilegalizar e outras para legalizar, ótimo. Esse é um pilar do estado democrático de direito.

No entanto, será que o preço que estamos pagando não é alto demais, ou por outro lado: Será que não estamos gastando dinheiro à toa?

Helicópteros, armas, carros, forças armadas, panfletos, mídia, um amplo consenso nacional (e eu concordo), de que o Estado não pode permitir homens armados delimitando territórios, etc.
Mas você acredita que tanta mobilização corresponde aos efeitos desejados, ou seja, é no morro que se resolve ou se controla o tráfico de drogas?

Pensando nisso, e ao ver a ODE a honestidade(outro valor moral encenado na "ocupação", onde precisamos valorar quem é mocinho(policial pobre, mas honesto) e quem é bandido(policial corrupto), eu li esse texto no Blog do Pedlowski, e me pergunto:

É grave que metade do faturamento do tráfico na Rocinha esteja vinculado ao "arrego", e muito mais grave: Policiais militares e CIVIS na escolta de bandidos. Isso é muito grave.

Mas e juízes superiores "bancados" por seguradoras e bancos, que têm nos tribunais superiores ações bilionárias, que também dizem respeito ao seu futuro e direitos como cidadão? O que dizer dessa promiscuidade? Não é "arrego"?

O que você responderia se um grupo de policiais fosse flagrado em uma festa patrocinada por distribuidoras de combustíveis, advogados, ou qualquer outra classe ou entidade que dependesse ou tivesse suas ações investigadas por esses agentes?

Leia o texto e reflita se não estamos fazendo as perguntas erradas, ou se não estamos escolhendo apenas as respostas que não incomodam nossa hipocrisia:


terça-feira, 15 de novembro de 2011


Seguradoras bancam evento para cúpula da Justiça em resort
Ministros do STF, STJ e TST participaram de seminário em hotel de luxo com diária de até R$ 8 mil, no Guarujá

Associação de juízes diz que o encontro ajudou a aperfeiçoar a 'administração do Judiciário no país'


FREDERICO VASCONCELOS
GIULIANA VALLONE
INARA CHAYAMITI
DE SÃO PAULO

A convite da Confederação Nacional de Seguros, instituição privada, ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), do STJ (Superior Tribunal de Justiça) e do TST (Tribunal Superior do Trabalho) participaram de seminário em hotel de luxo no Guarujá (SP), no início de outubro.

O evento, que aconteceu num hotel cinco estrelas, o Sofitel Jequitimar Guarujá, começou numa quinta-feira e prolongou-se até domingo.

No período, as diárias variavam de R$ 688 a R$ 8.668. Além dos ministros, desembargadores e juízes de tribunais estaduais participaram do seminário.

O congresso teve o apoio da AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros) e da Apamagis (Associação Paulista de Magistrados), mas não foi divulgado nos sites dessas entidades.

Foram discutidos assuntos de interesse dos anfitriões, como o julgamento de processos sobre previdência complementar e a boa-fé nos contratos de seguros.

O presidente da AMB, Henrique Nelson Calandra, diz que o seminário promovido pelas seguradoras "colaborou para o aperfeiçoamento da administração da Justiça do país" e que contou com o "debate de temas polêmicos".

Mas o diretor-executivo da Transparência Brasil, Claudio Weber Abramo, vê conflito de interesses na presença de juízes nesses eventos.

"No Executivo federal, ninguém pode receber presentes acima de R$ 100. Os magistrados também deveriam adotar esse critério", defende Abramo.

HISTÓRICO

Em 2009, a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) pagou as despesas de magistrados do Trabalho acompanhados de suas mulheres em congresso em resort na Bahia.

Na ocasião, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) foi questionado sobre a falta de normas para juízes aceitarem convites desse tipo.

O tema viria novamente à tona no início deste mês, quando 320 juízes do Trabalho disputaram provas esportivas em Porto de Galinhas (PE). O luxuoso encontro foi patrocinado por empresas públicas e privadas.

Foi anunciado, então, que a corregedora nacional de Justiça, ministra Eliana Calmon, pretendia apresentar no CNJ uma proposta para regulamentar a participação de juízes nesse tipo de evento.

A Folha apurou que se trata de uma ideia ainda não colocada no papel.




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