terça-feira, 15 de novembro de 2011

Carta aberta ao companheiro Félix.

Caro companheiro,

Permita-me dirigir-me a você, nessa hora em que tenta externar a todos, e principalmente, aos petistas dessa cidade, que a hora é propícia.

Dirijo-me a você, porque o partido nessa cidade não é mais um espaço para se discutir política. Não sou saudosista, sou pragmático ao extremo.
A presidência, a executiva e o diretório local, são o que há de pior em termos de construção, discussão e formulação de política em todos os tempos do PT nessa cidade.
Um mandato medíocre, que sequer consegue capitalizar um espaço destinado à oposição a esse modelo local de gestão, e anda à reboque de outros nomes duvidosos.

Estamos diluídos, amorfos, estagnados.

Nem mocaiber hoje é tão identificado com o que passou como alguns militantes de nosso partido. Ou seja, aconteceu o que dizíamos à época: Nos uniríamos a um governo enlameado, afundaríamos com ele, e depois, ficaríamos com o ônus.

E até hoje, nenhum dos próceres daquela nefasta tática de "adesismo" prestou contas, ou fez as devidas ressalvas.
Mais ou menos, mal comparando, como no caso da tortura no Brasil, quando os militares torturadores culpados fingem que nada aconteceu, nossos dirigentes partidários fingem que nada fizeram, e que não contas a acertar pelos erros, e com isso impedem que o processo evolutivo político continue, pois ficamos atados ao passado que nos pesa como uma âncora moral.

Sei que política se faz com votos, e para angariar votos, cada vez mais precisamos de dinheiro. Esse é o dilema que contamina nossa democracia, e nessa cidade, com o advento da benção-maldição dos royalties, o problema assume contornos bilionários. Já disse, não sou ingênuo.

Mas o PT de Campos parece um grupo de crianças que se une a outras para pular o muro a retirar algumas frutas no pomar, com uma estranha divisão de tarefas: Enquanto as primeiras crianças saboreiam, no alto das árvores, as mais maduras, mais doces e suculentas frutas, o PT fica lá embaixo distraindo os cachorros, e nem as frutas apodrecidas caídas ao chão conseguem comer.

Reconheço seu esforço e respeito o apreço pessoal que tens ao candidato, ops, ao pré-candidato médico, que foi, aparentemente, ungido por todas as tendências do partido. Mas é só até aqui que posso lhe hipotecar algum apoio.

Aprendi que muita coisa muda, quase todo o tempo. Mas de todo modo, só conseguimos elaborar expectativas pelo que conhecemos do passado. Então, é possível entender o PT de Campos de hoje pelo que ele acumulou ao longo de sua História nessa cidade.

Não é preciso relembrar, pois conheces tanto como eu. Repito: Não sou saudosista, do tipo que fala: Ah, bons tempos aqueles...

Ainda assim, se alguma coisa ficou desses tempos, para o bem ou para o mal, nada nos autoriza a dizer que o PT de Campos vai fazer boa figura nas eleições que se avizinham.

Nunca separo eleições da ação política, e nem posso, mas bem sabes que não confundo uma com outra, ou seja, toda eleição é parte da ação política como um todo, mas voto nem sempre revela ou significa legitimidade.

Mesmo que fosse, a esperança que o pré-candidato reúna a clareza e possibilidade de ampliar o debate para além de sua visão tosca de mundo é um exagero. Não o fez quando foi candidato, não o fez quando esteve no partido, e não o fará por ter voltado, sem ao menos esclarecer que motivos ou cicatrizar as feridas de seu afastamento. Aliás, um estranho processo que sugere que nada aconteceu, e tudo está como antes.

Não, não, caro Félix, sabes tão bem quanto esse parvo escriba que laços de solidariedade política são como porcelanas raras, uma vez quebradas não se colam ou refazem, sem que deixem as marcas indeléveis de seu fracionamento e trauma.

Em suma: Um partido que vai para a campanha tendo à frente alguém com passado recente tão tortuoso pouca ou nulas chances terá. Capitaneado por quem até bem pouco tempo oscilava e leiloava seu "passe", como se estivesse em um brechó político-eleitoral, para não fazer menção a outras práticas de "venda e compra" suspeitas, que não é o caso.

É preciso dizer que só um partido com o grau de debilidade e morbidade política como o PT de Campos aceitaria em seus quadros uma personagem como o médico.

O PT de Campos tem uma cabeça de chapa, em um corpo político vazio, oco.

Você dirá: "É o que temos". Eu sei, eu sei, mas a pergunta é: Temos, por quanto tempo?

De todo modo, boa sorte Felix, pois vocês vão precisar de uma boa dose de sorte, e quem sabe um milagre, para o caso daqueles que acreditam, que fique claro.





2 comentários:

felixmanhaes disse...

Meu nobre escriba, sua pena não treme dem derrama tinta do tinteiro. A tua lucidez é de cegar com tamanha precisão. A tua capacidade de fazer um diagnóstico desse ser enfermo se compara aos melhores clínicos gerais. A figura do pomar se encaixa como uma luva sobre a atual situação.

No entanto, meu caro Douglas, continuo a entender que companheiros como você, com a sua visão tridimensional, e a experiência de outros companheiros como o Roberto, o Luciano, o Adilson Sarmet, a Aninha, o Zé Luiz e outros, deveriam estar dentro do atual contexto partidário, para tentar recuperar o tempo perdido. Isso eu tentei fazer em 2006 e conseguimos levá-los até o casarão em ruinas da Alberto Torres, mas a direção da época não teve, como falta à atual sensibilidade e humildade para entender da mesma forma e produzir um bom acolhimento.
E é com a prata da casa que devemos contar para reverter esse quadro desanimador que se arrasta há mais de 30 anos. Se contarmos com a estadual ou a nacional, corremos o risco de, a exemplo de 2004, fruto das "alianças", mandarem seus ministros deixarem se fotografar ao lado dos adversários. Eu ainda não abri mão de companheiros qualificados como vocês. Quando tentamos a presidência do PT era para se montar um projeto a longo prazo, que retornasse aos movimentos sociais e as periferias e para isso era necessário todas as cabeças pensantes. No entanto, contentaram-se com a surra que me deram nas urnas e ao longo da atual gestão se isolaram preferindo aparecer nas páginas compondo um frente democrática que sabemos a maioria dos partidos tinha planos diferentes do PT.E isso só contribuiu para esmaecer cada vez mais nossa Estrela. Você é por essência e excelência uma ser político e eu não consigo enxergar um PT sem sua presença.

Um respeitoso abraço.

douglas da mata disse...

Um afetuoso abraço, companheiro Félix, e grato por tamanha generosidade.