sábado, 19 de novembro de 2011

Bois de piranha.

Dias desses ouvia o programa chapa-branca, que se diz jornalístico, na faculdade que pouco ou quase nada ensina nessa matéria, e na rádio que de educativa nada tem, a fala do secretário de cultura desse município.

Fiquei a imaginar: O que faz uma pessoa, com a referência social e intelectual que acumulou, ou diz ter acumulado, destruir tudo isso para se manter atado a uma condição funcional que expressa total ausência de políticas públicas para o setor que é de sua atribuição?

Que não haja política pública de cultura não é novidade, e eu reconheço que esse tema não mereça a atenção devida por nenhuma grupo ou partido que ocupe qualquer esfera de poder: Nacional, estadual ou regional.

Há uma enorme dificuldade em:
Mesclar a presença do Estado, escapar da tentação do dirigismo, respeitar o tempo histórico das manifestações e seus ciclos(nascimento, vida e morte), conter o avanço do mercado, utilizar esse mesmo mercado e suas competências para aumentar o acesso e a disponibilidade da maior gama de bens culturais, e não só o que parecer rentável, afastar os cacoetes patrimonialistas da gestão pública e as manifestações oportunistas, preservar sem fossilizar ou artificializar(como fazia o oráculo e sua ridícula caricatura de Jongo para enganar turista), expor, tornar as tradições visíveis, mas sem perder de vista a necessidade de universalizar costumes, produzir conhecimento científico-acadêmico, e ufa: fomentar um mercado cultural que dê prazer estético, conhecimento, e retorno financeiro a quem o produz.

Eu sei que existem barreiras para elaborar, discutir e executar isso tudo, mas nada justifica o assassinato cultural que a prefeitura, através de seus órgãos diretos(secretaria de cultura) e os indiretos(as fundações) tem promovido com a cultura local.

Mas diagnosticar não basta, e governos existem para proporem soluções, ainda mais quando seus integrantes se arvoram os "reis-da-cocada-preta", desfilando pompa e circunstância, sem nenhum efeito prático.

Voltando as palavras do secretário, oráculo da cultura local, ele disse aos seus interlocutores do programa de rádio, na semana passada, que o esvaziamento do carnaval, o despedaçamento das apresentações dos tradicionais bois, que por muito tempo foram o que havia de mais organizado e esteticamente mais "bonito" e contextualizado nos pavorosos desfiles, é proposital.

Disse o oráculo que o Carnaval e seus desfiles devem ser mantidos com um calendário exótico e extemporâneo porque a classe média, público-alvo pretendido(nas palavras do oráculo), preferia os balneários litorâneos a cidade.

Santo deus, pelas franjas de Iemanjá.

Só quem desconhece totalmente, ou finge desconhecer, a história do Carnaval local pode falar uma asneira dessas.

Ora, nessa cidade, o Carnaval sempre foi um espetáculo feito pelas periferias, e frequentado por elas, e justamente por isso, sempre foi tratado pelo poder público com total falta de profissionalismo, precariedade e pior: como espaço para manipulação e disputa eleitoral, recheada de irregularidades no trato com as verbas públicas ali alocadas.

Não mudou muita coisa, quer dizer, mudou sim, para pior.

Desde que o grupo local (que depois se dividiu em duas facções) começou a manobrar bilionárias verbas, aquilo que era uma manifestação popular de gosto duvidoso, mas organização autônoma, virou um monstrengo sugador de verbas, ainda mais desorganizado e feio, e pior, controlado pela agenda do governo de plantão.

Então, a desculpa de que essas mudanças de calendário servem para aumentar a visibilidade e o interesse de outros estratos sociais, ou tornar as festas atrativas, viáveis e sustentáveis, economicamente falando, é uma mentira tão absurda que nem o oráculo acredita nela.

Se nem uma prestação de contas decente sobre o dinheiro concedido é possível, diante da incompetência(ou será cumplicidade)oficial, como imaginar que algo mais possa ser feito em benefício da população envolvida?

O que houve foi um esquartejamento do Carnaval, dos bois, e de tudo que essa cidade poderia ter como manifestação cultural que a representasse.

Ao menos nos contentemos com um túmulo de 70 milhões de reais, o CEPOP.

2 comentários:

Anônimo disse...

Saiu na Carta Capital que chega neste fim de semana às bancas, na página 18, análise de Maurício Dias sobre Beltrame, Cabral e o Pai de todos, a Globo:


“A estrela sobe o morro”

José mariano Beltrame, secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, é um ás na manga do governador Sérgio Cabral. É uma carta que pode ser deitada à mesa das eleições de 2014 para o governo do estado. Basta Beltrame querer.

Ele tem ganhado a luta contra os traficantes e retoma o controle das favelas, como na Rocinha, na zona sul carioca. Com isso, adquiriu uma virtude e, com ela, uma vantagem sobre a soma de seus defeitos, considerados eleitoralmente inadequados.

Quais seriam os obstáculos a esse projeto político-eleitoral?

Inicialmente, a própria resistência dele, gerada pela timidez e insegurança. Delegado da Polícia Federal, Beltrame tem um perfil pessoal inadequado para os marqueteiros. O discurso dele é monótono e tocado em uma nota só: a segurança.

De alguns pontos de vista, relacionados com a exposição ele pode ser comparado a Dilma Rousseff. E até leva vantagens. Já teria, na partida, mais intimidade com os holofotes e não dependeria de transferência de votos de Sérgio Cabral, como Dilma de Lula. Teria, por fim, o apoio forte das Organizações Globo.

Império no setor de comunicações, a Globo não se dá bem quando pretende “fazer reis” na contramão da opinião pública. No caso de Beltrame, no entanto, nadaria a favor da correnteza.

Após a batalha sem sangue na Rocinha, Beltrame frequentou assiduamente as telas da TV Globo. Deu entrevistas ao Jornal Nacional e ao Bom Dia Brasil. Foi filmado passando a tropa em revista e, ainda, na cerimônia na qual fez elogios, merecidos, aos dois policiais militares que não cederam à tentativa de suborno do traficante Nem.

Por que a Globo prefere Beltrame sem mesmo saber se o secretário aceitaria a investidura de candidato?

Ele tem notória incompatibilidade com a esquerda e a esquerda do PT com ele. Atraiu atenção e crítica por essa declaração infeliz, em 2008: “Os bandidos trazem a cultura da violência do ventre da mãe”.

Em princípio, o governador está amarrado a uma aliança com o PT ou, antes, com Lula. Esse acordo elegeu Cabral em 2006 e o reelegeu em 2010. Foi, em contrapartida, um palanque importante para a eleição de Dilma e poderá ainda mais em 2014. Para a oposição e, consequentemente, para a Globo, o fim desse acordo seria fundamental. E pode ocorrer.

Além das discordâncias com o governo petista em torno dos royalties do petróleo, o PT constrói candidatura própria ao governo estadual: o senador Lindberg Farias, renovação política do partido no Rio.

Sérgio Cabral tem no vice-governador, Luiz Fernando, o Pezão, um candidato inviável. Não dá muita corda a essa candidatura, mas, com ela, mantém o controle do espaço político-eleitoral para negociação. O PT vai apoiar a reeleição do prefeito do PMDB, Eduardo Paes, confiante que haverá reciprocidade à candidatura em 2014.

Aécio Neves, aspirante à Presidência, cultiva a simpatia de Cabral. É a única possibilidade que o tucano tem de montar um palanque forte no Rio. Candidato, o secretário de Segurança seria um dos suportes nesse caso.

Na terça-feira 15, Beltrame apareceu “de surpresa” no front. Foi aplaudido pelos moradores da Favela do Vidigal, contígua à Rocinha, também liberada. Um morador gritou para ele: “O senhor vai ser governador do Rio”. Beltrame sorriu simpaticamente e disse que não tinha interesse pelo cargo. O morador não recuou: “Na hora H, eu sei que o senhor vai aceitar”.

Esse diálogo desaparecerá ou entrará nessa história.

Maurício Dias

douglas da mata disse...

Que cacete essas assessorias de imprensa que espalham esses comentários padronizados, para empurrar nossa goela a pauta que lhes interessa.

Deseducação a serviço do marketing.