sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Só o Liceu?

Antes de tudo:

Sou um ex-liceísta, da safra de 1980, pois aos nove anos entrei para a antiga 5ª série do desejado colégio estadual.
Sobravam mangas e barras no uniforme cinza, tão pouco tamanho de gente ia dentro dele. Mas o orgulho ficava apertado, tão grande que era.

Coincidentemente, os ventos da democracia começavam a soprar, e até uma diretora como Magdala tivemos a sorte de ter. Um timaço com Marluce, Heloísa, Carmem Lúcia, Dona Maria de Lourdes, Dona Yves, Seu Jorge, Seu Tacinho, etc, etc, etc.
Ali estavam os professores que não despencavam às quatro da manhã pela estrada, de carona, ou um ônibus velhos empoeirados para dar aula lá em Espírito Santinho, ou um Imburi de Barra, Sabonete, ou Ponta da Lama.

Elas(eles)eram os melhores porque tinham as melhores condições, e amavam o que faziam, porque o LHC é uma escola fácil de se amar, com todos os problemas. Difícil é amar uma escola a 23 Km de qualquer coisa, esquecida por tudo e por todos.

Assim como naquela época, o Liceu de Humanidades de Campos é uma exceção na educação pública.

Como em todos os outros setores do Estado, há uma disputa entre as classes sociais para que recebam atendimento às suas demandas.

E como vivemos em um Estado patrimonialista, segregador, o melhor desse Estado sempre foi para as elites e seu acessório, a classe média.
Justamente esse pessoal que, proporcionalmente em relação às suas rendas e possibilidades, menos pagam tributos, e mais reclamam de fazê-lo, quando não fraudam e sonegam.

Com raríssimas exceções, o LHC sempre atendeu aos filhos da classe média e de alguns da elite, que, às vezes, por convicção ou por castigo, pois queriam dar um "choque de realidade" em rebentos rebeldes ao rigor das melhores escolas particulares, matriculavam seus filhos na importante ilha de de eficiência educacional, e mais uma vez, embora pudessem pagar, ocupavam as vagas de quem não podia.

Como tudo converge para o "centro", ali estavam os melhores mestres, os melhores funcionários, as melhores atenções e polêmicas. Hoje, a situação mudou pouco, mas ainda assim, a assimetria na Educação continua a desafiar gestores e a prejudicar contribuintes.

Recentemente, no episódio do uniforme, o Liceu e sua clientela mostraram um pouco desse ethos: Têm tradição que carregam como distinção em uniforme, portanto, não são como outras escolas. Ninguém se queixou dessa cota simbólica, ou de segregação positiva.

Como outsider do Liceu, pois venho de origem de classe média que de tão baixa podia ser considerada, na época, classe pobre alta, convivi com o que há de melhor e pior na Educação Pública: O melhor ensino pontuado pelo pior exemplo.
Nos ensinavam que éramos melhores, superiores, dignos de uma corporação centenária.
Por ironia, instalada em um dos símbolos de nossa (con)tradição local que se confunde com vocação: Riqueza na Casa Grande e suplício nas senzalas.

Então, antes de pedir que as autoridades deem um pouquinho de atenção ao patrimônio FÍSICO do Liceu, eu peço, em nome de tudo aquilo que me foi ali ensinado:

Salvem os professores e funcionários, com seus salários carcomidos, infiltrados pela desonra, muito mais que qualquer lustre ou teto em art-noveau, rococó, barroco, ou seja lá qual a tendência ali representada.

Salvem todas as outras escolas, que se encontram sem condições, e façam da Educação uma coisa só, respeitadas as diferenças, mas sem privilégios para uns e castigo para outros.

Se o LHC cair, ou seu patrimônio se esvair pelo tempo, será uma tristeza, mas restarão as fotos e outras imagens na memória, ou ainda um arroubo de restauração, quem sabe financiada pela consciência de algum abastado ex-aluno, ou por uma associação deles, já que dizem dever e amar tanto aquele local.
Por que não copiam o exemplo de filantropia estadunidense, já que nossa elite macaqueia tudo que se faz por lá e na Europa?
Tantos médicos, empresários, colonistas sociais, prefeitos, prefeitas, etc, tantas fortunas construídas a partir do saber que auferiram ali, e onde está a retribuição?

Deixemos ao Estado a responsabilidade com o principal patrimônio do Liceu é o que deveria estar dentro dele e fora dele: A EDUCAÇÃO PÚBLICA E DE QUALIDADE.

Prédios e casas grandes vão e vêm.



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