segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A praça não é mais do povo!

Há várias interpretações sobre o fiasco de público no evento chapa-branca, promovido pela administração local, supostamente em defesa da manutenção dos pagamentos de royalties para os chamados municípios produtores.

Cada adversário ou aliado político escolherá a que melhor convém a sua tática, mas o fato persistirá intacto: pouquíssimas pessoas, se considerarmos todo o aparato de mídia, e do esquema de liberação de servidores (contratados ou efetivos, com a decretação de ponto facultativo).

E por que?

Será que as pessoas não se importam mais com o futuro da região? Será que acham injusta a forma de partilha dos royalties? Será apenas preguiça e desmobilização?

Mas como explicar a ausência dos 20 ou 30 mil contratados e terceirizados e seus familiares, dependentes diretos desses recursos?

Tudo o que podemos apresentar são palpites, vamos a eles:

O atual estágio de dominação das estruturas sócio-econômicas da cidade, o vicioso círculo instalado nas instâncias tradicionais de representação e interlocução política reduziram toda a capacidade de mobilização da sociedade, em torno de qualquer tema, a um nível vegetativo. De tanto posarem como solução "divina", como "guia genial dos povos", os "chefes da lapa" subtraíram toda a inciativa dos cidadãos, que agora devolvem com indiferença os apelos, como se dissessem: "vocês não mandam e resolvem tudo, agora se virem".

É claro que esse sentimento não é linear, e nem atinge todos da mesma forma. Mas não estão imunes a esse sentimento inclusive aqueles que persistem à sombra dos chefes, e que têm seu sustento como resultado da boa vontade desses senhores.

Se Marx dizia que o operário se alienava do próprio produto do seu trabalho, como (d)efeito ideológico perverso da mais-valia, o terceirizado, o contratado, ou bucha de canhão do mandarinato garotista acaba por ser alienar do processo político, haja vista sua redução a condição de um "quase-nada"  político, um servo quantitativo, um figurante tangido como massa para desequilibrar pleitos eleitorais, e que apenas se move por algum suborno.

No início do capitalismo industrial, à medida que crescia a produção, aumentava o pleito econômico dos trabalhadores, mas sem que enxergassem todo o quadro, o que reduzia sua luta ao sindicalismo economicista.
Mais ou menos como acontece aqui, em nossa planície: Aumenta a necessidade de mais e mais gastos para manter em funcionamento a "indústria do voto", e cada setor quer mais e mais remuneração. Não há uma "vontade política", a não ser por mais e mais recursos.

A apatia da população que engrossa o esquema clientelista da lapa, é a alienação pela "mais-valia do voto", no processo de "industrialização das campanhas eleitorais". Cada camada pede um quinhão maior: empresários querem mais subsídios, empreiteiros mais obras, a população mais pobre, mais empregos e vantagens. No entanto, a instância que resolve esses conflitos não existe mais, ou pior: A política deixa de ser o eixo central de decisão. Resta apenas a contabilidade financista. Quem tem mais recursos, mobiliza mais, e cada vez, para mobilizar, são necessários mais recursos.

Os setores de oposição, e até alguns setores religiosos bem intencionados(que lotam os infernos), diagnosticam apenas parte do fenômeno, e dão prognósticos ineficazes, se auto-condenando a uma crítica udenista moralóide vazia.

O cabo eleitoral, o barnabé terceirizado só sai de casa se houver vantagem no horizonte. Não responde mais aos apelos dos seus chefes, ainda que a FONTE desse esquema esteja em perigo. Como também não responderá aos apelos dos portadores da fé inabalável na moral e bons costumes.

É o estado da arte da sociedade antropofágica.

Outro aspecto relevante, e se entrelaça com o primeiro, foram as figuras escolhidas para "conclamar" os cidadãos a participar do evento. Coronéis de eito, presidentes de associações comerciais, representantes das oligarquias enfim.
Todos aqueles que estão pendurados nos recursos públicos(aliás, como sempre), e que nada fizeram para que as riquezas destinadas as suas corporações transformassem as perspectivas de algum futuro virtuoso para essa planície. Foi como colocar tubarões chamando sardinhas para nadar em um aquário.

Logo, a sociedade não se enxergou na luta, pois os "pontas de lança" são estranhos a sua realidade. Não havia ali sindicatos, associações, líderes comunitários, etc, simplesmente porque todo o movimento social desta cidade foi tragado, e a pouca vanguarda que resta se recusa a se associar ao grupo político, ou qualquer movimento(por mais justo que pareça), com medo justificado de ser manipulado e massacrado.

Desse modo, não é maluquice concluir que os campistas oscilam entre a vergonha de terem mantido gestões que dilapidaram um patrimônio considerável, a culpa de terem participado de um esquema predatório, a impossibilidade de enxergar alternativa, e pior: o medo de se olhar no espelho e fitar o monstrengo horrível que nos tornamos.



Um comentário:

Anônimo disse...

Suas conjecturas são apocalípticas, não nos esqueçamos que o pré-sal é a panacéia de todos os males futuros, salvará a educação etc etc. Aqueles que viverem vão presenciar a repetição dos fatos presentes.