quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Por que tanto desleixo?

Há muito tempo a atividade jornalística junto às delegacias de polícia se resumem a ligar para o atendimento, em horários pré-estabelecidos ,função considerada "menor", destinada a "estagiários" e "focas", em expediente denominado "ronda". Nas equipes mais enxutas, às vezes é a própria responsável pela matéria que se "rebaixa" para ligar. É comum nas franquias de TV que rondam por aqui.

Salvo uma ou outra matéria de interesse, o dia a dia é tratado com preguiça e pouquíssima apuração. Não é raro que alguns contratempos aconteçam. E a pergunta que fazem já denota como tratam a notícia: "Aconteceu algo no plantão?". Ora, esse julgamento nunca pode ser delegado a um terceiro, nesse caso um policial, que inclusive não está ali para auxiliar ou privatizar sua função pública a empresas (jornalísticas)que auferem lucro com sua atividade.
Mas alguns policiais, tentados pela ideia de que precisam da divulgação para que seu trabalho seja visto, lido e reconhecido, já que governantes e a própria sociedade nunca os valorizam, ficam reféns dessa relação ruim, e até promíscua.

Mas, enfim, por que os jornais, que têm especial e marrom predileção pela área da segurança pública, tratam o tema com tanto desleixo?

Na verdade, não é só desleixo. É um filtro ideológico destinado a corroborar o corte de classe no trato do combate a criminalidade, e porque não dizer, a noção de segurança pública e convívio social.

Os exemplos clássicos são os discursos destinados aos homicídios:
"Fulano" tinha "passagem", e o melhor de todos: 80% dos crimes são ligados ao tráfico. Ué, se apenas de 3 ou 4% desses eventos restam solucionados, como dizer a causa com tanta certeza?.
Temos também a fala que criminaliza movimentos sociais: Incêndio perto de terra de usina com acampado é prato cheio.
Por fim, a mídia local e nacional adora a chantagem e pressão quando se tratam de envolvidos da elite, ora para absolvê-los, previamente, ora para colocar a apuração dos crimes os quais foram vítimas como primeira prioridade das autoridades.

Lógico, essas práticas encontram eco e legitimação no resto da sociedade, inclusive nas classes que são vítimas dessa hierarquização e abordagens ruins.

Mas a verdade que a mistura desses hábitos populares com uma cultura jornalística que não prima pelo cuidado e ética no seu trabalho, acaba por refletir na matéria-prima, ou seja nas reportagens.

Desde o incêndio dos canaviais da Sapucaia, certa parte da mídia tem procurado investir na tese do incêndio criminoso, sem considerar a precocidade e a dificuldade de uma investigação desse tipo.

É claro que repórteres não são experts em tudo(embora alguns acreditem que sim), nem chefes de redação sejam obrigados a entenderem de investigações policiais(embora alguns tenham certeza de que entendam), mas é por isso que essas pessoas deveriam ter mais zelo com o que colocam à venda nas bancas.

Primeiro, esse veículo, do qual falamos, aventou a possibilidade de que o fato (incêndio) estaria ligado a questão da desapropriação, e da alteração do decreto de improdutividade das terras, que ficariam fora do alcance da reforma agrária.
Jogou no ar, como cinzas ao vento, sem uma evidência que fosse, a possibilidade de uma retaliação ou sabotagem.

Depois, dada a impossibilidade de sustentar tal suposição, centram "fogo"(desculpe o trocadilho infame)na questão do incêndio criminoso.

Pode ser, afinal como dissemos, TODO incêndio em CANAVIAL é criminoso, e a sociedade local tem lutado contra esses crimes que jornais, coronéis e outros políticos procuram justificar e abafar pela ótica da sobrevivência econômica de um setor decadente e esgotado, mas que viveu à sombra de dinheiro público por séculos, sem mencionar a violação secular e consentida de direitos de seres humanos, tratados com menos respeito que os animais.

Tudo indica que o incêndio no local tenha sido provocado pela falta de cuidado dos donos das terras, que foram incapazes de controlar o fogo que atearam em parte da gleba, sendo que esse se espalhou e causou o desastre, tendo vitimado dezenas de animais.

Os técnicos do INEA estiveram no local, realizaram a vistoria e medição da área atingida, e devem, em poucos dias, emitir um parecer que será juntado ao laudo da perícia do Instituto de Criminalística Carlo(sem o "s" mesmo) Éboli, o nosso valoroso, porém sempre precário ICCE.

Todas essas informações estão disponíveis aos repórteres, mas as matérias não esclarecem nada. De um lado, não sabem o que perguntar, de outro,as perguntas que já trazem prontas já direcionam conclusões. Como a realidade é, quase sempre, outra, restam os malabarismos e manipulações, pontuado pelo relaxamento com os fatos.

O cúmulo do desleixo pode ser representado no erro de grafia de trecho da matéria. Mais uma vez dizemos, esse blog não pretende que a língua e o seu uso sejam fossilizados em normas criadas para excluir ou hierarquizar saberes.

Mas o termo que mostraremos, ainda mais se tratando de expressão de língua estrangeira, deveria ser pesquisado, pois pior que não ter cuidado na revisão com a nossa língua, é usar, sem cuidado algum os neologismos estrangeiros. Parece (e é)coisa de jornal de "jeca", de gente provinciana tirada a cosmopolita.

Leia o trecho da página eletrônica de um jornaleco local:

"(...)Enquanto isso, os representantes da Usina Cana Brava (responsável pela colheita) e da COIMEX (training responsável pela exportação do açúcar(...)" (grifo nosso).


A palavra não é training, é trading, derivado de trade, verbo associado a comércio, nos países de língua inglesa. Menos arriscado usar intermediário ou agenciador, pois na verdade, é isso que são.

Aqui o endereço da empresa citada, para a conferência que poderia ter sido feita, se houvesse cuidado com você: leitor e anunciante.

De toda forma, dirão as más línguas que a qualidade do produto(jornalismo)é ruim porque o conteúdo já está previamente vendido para a "verba", logo, nem interessa tanto o leitor final ou o anunciante, que não se prendem a detalhes.
E o círculo vicioso e depreciativo se fecha: Jornal de qualidade ruim, leitores desatentos e com pouca capacidade de reflexão, manipuláveis, mas pouco capazes de entenderem mensagens e apelos de consumo mais complexos, relacionados a uma faixa econômica de valor agregado mais alto.
Como já é percebido pelos anunciantes de programas televisivos como pânico, faustão e ratinho. Ou de jornais-tablóides sensacionalóides como extra e meia-hora.

Um veículo ruim dá a ideia de que anuncia coisa ruim.

Mas tem gente que pensa diferente, e salvem a Democracia, a liberdade de imprensa e de empre$a.

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