segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Digerindo o economês.

Uma das ciladas prediletas das "ciências semi-religiosas" é falar aos leigos com verbo intransponível.
Claro que ninguém duvida da necessidade de que os textos acadêmicos, e para consumo entre especialistas, se afastem do vulgar.
Mas codificar os temas para informar presta-se a duplo estelionato, praticado com gosto pela mídia nacional e local: Deformar opiniões e induzir comportamentos de manada.

Como sabemos, esse esporte praticado pela mídia PIG não é apenas um hobby, ele é antes uma tarefa necessária a criação do ambiente político para que as "profecias" se realizem, uma vez que boa parte da economia e sua execução enquanto política econômica dependem de sentimentos voláteis como confiança, perspectiva de futuro, etc.

Por isso o debate sobre juros sempre está interditado e aprisionado pelos colonistas de sempre. Lá é aqui, tanto faz.

Eu trago para nosso reflexão dois textos, de dois economistas que nem de longe podem ser considerados petistas ou de esquerda. São pensamentos anti-ortodoxos, ou melhor: anti-PIG.
Essa não-classificação de Delfim Netto e L.G Beluzzo não serve para muita coisa, a não ser desarmar os argumentos cretinos dos que reproduzem a tese do "aparelhamento" da economia pela política, como se fosse possível um BC ou uma gestão econômica livre de decisões políticas. É justamente o que tentam empurrar pela sua goela: A submissão da política a economia. Vejam só o que essa imposição fez com o nosso processo político. É só olhar no preço do voto.


Arrogantes injuriados


O “mercado” sente-se injuriado! Os arrogantes analistas que tão bem defendem os interesses dos clientes rentistas não perdoam a ousadia do Banco Central de ignorar suas avaliações “científicas” e fazer a baixaria de cortar em meio por cento a taxa básica de juro, contrariando o consenso pacientemente costurado de manter a Selic onde estava, aqueles confortáveis 12,5%.
As afirmações de que o BC abriu mão de sua “independência” ou abandonou o sistema de metas de inflação para atender o governo, além de irresponsáveis ofendem a memória alheia.
É interessante como se proclama a independência quando sobem os juros; por que a sensação de perda apenas quando os juros baixaram? A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de cortar a taxa básica de juro talvez tenha sido a primeira demonstração em muitos anos de um BC independente perante o sistema financeiro privado, quer dizer, voltar a ser um organismo do Estado brasileiro.
Isso revela que ele observou com cuidado os problemas da economia internacional, foi profundo no exame da deterioração financeira dos países-problema para tomar uma decisão autônoma, diante da convicção que adquiriu sobre os riscos que temos pela frente. A realidade é que a economia mundial está se despedaçando a olhos vistos e o melhor que o BC tem a fazer é procurar se antecipar às consequências de uma dramática redução do crescimento na grande maioria dos países.
Essa percepção de que é melhor não esperar acontecer parece ter sido a grande mudança de postura entre o que aconteceu com o BC em 2008 e o que está se processando agora. Naquela ocasião tivemos a oportunidade de fazer um corte radical nos juros, o que teria evitado uma boa parte da queda de crescimento do nosso PIB em 2009. Não o fizemos por um excesso de prudência e também porque não tínhamos as informações que talvez orientassem melhor o BC, como está acontecendo hoje.
A surpresa que tomou conta do tal mercado e produziu a raivosa reação que estamos -vendo hoje foi simplesmente porque muitos autores das análises pretensamente científicas não imaginaram que o BC poderia não obedecer às suas conclusões. Estavam viciados em conduzir o Copom pela coleira, convencidos de que era sua a visão privilegiada do mundo e não tinha probabilidade de erro.
O BC agiu certo em não esperar mais para iniciar a redução da taxa básica de juro. As medidas de natureza fiscal e de política monetária adotadas recentemente pelo governo Dilma estão reduzindo a taxa de crescimento do PIB mais depressa do que se esperava. Que efeito se poderia tirar, então, das taxas de juro, ainda? Que controlem a inflação ou derrubem mais o crescimento? Que contenham o consumo e produzam desemprego?
Todos os bancos centrais têm obrigação de observar o nível da atividade e sabem que mudanças na política monetária têm efeitos com defasagens variáveis. Devem olhar, então, não apenas a taxa de inflação futura, mas também para o ritmo de crescimento futuro da economia. E não podem perder de vista a realidade das condições físicas objetivas, que levam ao altíssimo custo social da tentativa de correção de desajustes estruturais, reduzindo o crescimento do PIB à custa do aumento da taxa de juro real, com o que se destrói, por tabela, o equilíbrio fiscal.
Com a piora dos números externos, constatada na última semana de agosto, o Brasil precisa se concentrar em: 1. Reforçar o equilíbrio fiscal de longo prazo, buscando inclusive a aprovação no Congresso das medidas que podem ser votadas já. 2. Manter sob controle as despesas de custeio e melhorar a qualidade do financiamento da dívida pública. 3. Adotar medidas microeconômicas para corrigir os desequilíbrios do mercado de trabalho, o que obviamente não pode ser obtido com manobras de juros.
Isso possibilitará ao BC pros-seguir com persistência a necessária redução da nossa taxa de juro real, abrindo espaço para o investimento público e para a aceleração dos investimentos privados. •



O outro texto você pode acessar aqui.

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