domingo, 11 de setembro de 2011

De volta ao 11 de setembro...de 1601...1701...1811...1901...1971...1991...2001...e 2011.

Após uma semana pelo Caminho Real, Tiradentes, São João de El-Rey, Ouro Preto, Mariana e por fim, Belo Horizonte, eis que estamos de volta.

Quase dez horas ao volante, entre a BR 040 até a cidade maravilhosa, e de lá para a nossa planície lamacenta, me pouparam da overdose midiática de 11 de setembro.

Datas redondas sempre possibilitam novos olhares sobre fatos que delimitaram épocas, mas a nossa mídia insiste com a visão torta, tacanha, idiotizada e espetaculosa. Tanto faz se é a globo, a record ou um jornaleco qualquer da planície de lama.

Foi pelas terras mineiras que percebi como o "ocidente" (sabe-se lá o que seja, ou o quê delimite esse rótulo) aprendeu pouco, desde que os símbolos do Império foram maculados irremediavelmente há dez anos.

Dentro do museu à céu aberto, que são os conjuntos arquitetônicos das cidades históricas, e os interiores assombrosos e fantásticos das igrejas moldadas, principalmente, pelo barroco, pude constatar o peso da ideologia em sua concretude.

Avançando sobre riquezas minerais, colonizando e catequizando uma massa tão heterogênea de pessoas, a espada deveria ser a mais afiada, e a cruz, o mais alto e ornamentado símbolo de obediência e fé. Mais ou menos como as cruzadas modernas pelo petróleo.

Naquele universo, no século XVIII, nas Minas Geraes de Vossa Majestade, era quase impossível não ser católico. A beleza, o requinte, o rebuscamento das imagens, altares, retábulos, paramentos, etc, eram de tamanha grandeza que o fiel espantava-se, e quedava-se sufocado pela sugestão. Esse é o efeito: Um reflexo genuflexório, de prostração.
Na ausência da mídia como a vemos hoje, eram os padres os comunicadores e repetidores dos costumes e do senso comum, se hoje os jornalistas de coleira e seus patrões, os barões do PIG são os "donos da verdade", cabia a Igreja de Pedro a tarefa de massificar o pensamento.

A riqueza barroca era a ode a grandeza divina e da corte colonizadora.

E o que as cidades do ciclo do ouro têm a ver com os EEUU e os atentados? Ora, tudo! A primeira "globalização" que o mundo experimentou esteve à cargo da Igreja Católica, inciada nas Cruzadas, levada ao extremo nas expansões luso-espanhola de ultra-marinas.

Para termos uma ideia, no Museu do Aleijadinho, em Ouro Preto, há uma sala chamada Encenação da Morte, onde diversas imagens, gravuras, esculturas e outros símbolos litúrgicos resgatam a valorização,à época, dos ritos fúnebres, a exaltação do ato de passagem, como perspectiva de vida eterna, e da sinalização de nossa efemeridade e finitude frente as coisas do céu. Essa encenação alcança seu êxtase com uma trilha sonora fantástica de cânticos. Desconcertante, ainda que para um ateu.

Mas o singular são as gravuras dos projetos e plantas das exéquias de morte (monumentos) construídas por ocasião do passamento de reis católicos (Manoel I, senão me engano).
Havia a repetição da construção em várias cidades do mundo, como Paris, Roma, Lisboa e em Ouro Preto, como símbolo da unidade da Igreja, sendo que essas plantas e modelos viajavam o mundo nas caravelas, o que revela um cuidado em uniformizar os parâmetros e o pensamento (como aconteceu com a estadunidização do mundo, via globalização).

É nessa empreitada de conquista e evangelização que se construiu e se afirmou a identidade do que conhecemos por Ocidente, e por outro lado, se fixou no imaginário a ideia do "outro" a ser combatido e repelido, com mais ou menos ênfase de acordo com conjunturas e interesses específicos. Judeus, mouros, negros, mulheres, hereges, etc.

Passados centenas de anos desde as Cruzadas, e a Inquisição, e desde 2001, mais dez anos, ainda não aprendemos que o pior inimigo que temos está entre nós: A intolerância e a incapacidade evitarmos gestos de ocupação e violência que fomentam o ódio que se volta contra nós mesmos.

Não é à toa que os conflitos mais sangrentos da Humanidade misturaram temas geopolíticos e geoeconômicos aos temas étnicos-religiosos. Como não é coincidência que o período mais agressivo da política externa estadunidense, e por tabela, dos seus aliados-lacaios europeus tenha se dado com a mistura de fundamentalismo liberal-econômico com fanatismo cristão evangélico-católico, e justamente seja essa mistura que carrega o mundo ocidental para a derrocada e a barbárie.

Esse veneno, que eclodiu em 11 de setembro, foi manipulado e inoculado pelos EEUU e pelo "ocidente" durante anos e anos, séculos e séculos, no Oriente Médio, África e outros endereços do mundo periférico.

Lógico que essa premissa não justifica a violência extremista talibã ou qualquer outra, mas se olharmos os países que foram escolhidos como alvo da fúria vingativa do 11 de setembro, e o "remédio" ao qual foram submetidos para gozar dos "valores democráticos ocidentais", veremos que não há nada que nos autorize a imaginar um mundo melhor ou mais seguro para se viver.

Podemos dizer que o 11 de setembro não é nada comparado aos dias que se seguiram desde então, e muito menos se olharmos para os outros tantos dias onze de setembro que aconteceram antes.

Quer um exemplo? Quase todas as cidades históricas contam com uma igreja só para negros e pardos, que tinham a concessão de erguê-las, a fim de que se ajoelhassem para o mesmo deus e santos brancos, mas em casas separadas pela cor e pela escravidão.


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