segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Só aconteceu se foi publicado!

Não há vontade que escape aos deuses. Não há opção, pois oniscientes, sabem antes sua escolha, portanto, não há escolha de verdade.

Sabedores de todos os males e senhores de toda a planície.

Ajoelhemos, e repitamos a oração que Drumond nos ensinou:


AO DEUS KOM UNIK ASSÃO
(Carlos Drumond de Andrade)

EIS-ME prostrado a vossos peses
que sendo tantos todo plural é pouco.
Deglutindo gratamente vossas fezes
vai-se tornando são quem era louco.
Nem precisa cabeça pois a boca
nasce diretamente do pescoço
e em vosso esplendor de auriquilate
faz sol o que era osso.

Genucircunflexado vos adouro
VOS arnouro, a vós sonouro
deus da buzina & da morfina
que me esvaziais enchendo-me de flato
e flauta e fanopéia e fone e feno.
Vossa pá lavra o chão de minha carne
e planta beterrabos balouçantes
de intenso cameiral belibalentes
em que disperso espremo e desexprimo
o que em mim aspirava a ser eumano.

Salve, deus compacto
cinturão da Terra
calça circular
unissex, rex
do lugarfalar
comum.

Salve, meio-fim
de finrinfinfim
plurimelodia
distriburrida no planeta.

Nossa goela sempre sempre sempre escãocarada
engole elefantes
engole catástrofes
tão naturalmente como se.
E PEDE MAIS.

A carne pisoteada de cavalos reclama
pisaduras mais.
A vontade sem vontade encrespa-se exige
contravontades mais.
E se consome no consumo.

Senhor dos lares
e lupanares
Senhor dos projetos
e do pré-alfabeto
Senhor do ópio
e do cor-no-copo
Senhor! Senhor!
De nosso poema fazei uma dor
que nos irmane, Manaus e Birmânia
pavão e Pavone
pavio e povo
pangaré e Pan
e Ré Dó Mi Fá Sol-
apante salmoura
n' alma, cação podrido.
Tão naturalmente como se
como ni
ou niente.

(...)

E quando não restar
o mínimo ponto
a ser detectado
a ser invadido
a ser consumido
e todos os seres
se atornizarem na supermensagem
do supervácuo
e todas as coisas
se apagarem no circuito global
e o Meio
deixar de ser Fim e chegar ao fim,
Senhor! Senhor!
quem vos salvará
de vossa própria, de vossa terrííil
estremendona
inkomunikhassão?

2 comentários:

Anônimo disse...

O problema do mundo é que o jornalismo (que é aparelho ideológico criado e mantido para uniformizar as opiniões e constituir mercados homogêneos, seja para o consumo uniforme de sabão em pó e remédio antipeido, seja para o consumo uniforme de ideias sobre ética e democracia e justiça) é o único dono da palavra social.

Se se inventar mídia que não seja única dona, feudatária, da palavra social, acaba-se o jornalismo-que-há.

Anônimo disse...

Onda alta

O mais popular poeta brasileiro de todos os tempos(Carlos Drummond de Andrade) nasceu em 31 de outubro de 1902, na pequena Itabira, de proporções tão recatadas como o comportamento de seu filho mais ilustre. Cidade de ouro extinto e ferro abundante, de fazendeiros e mineradores.

Drummond foi desses poetas que aparecem de tempos em tempos e conseguem apreender e refletir poeticamente as inquietações de sua época, tal qual um Camões(Classicismo português) ou um Fernando Pessoa(Modernismo português).

Drummond faleceu no dia 17 de agosto de 1987. Entretanto, a sua obra é infinita, pois o mineiro conseguiu com graça, naturalidade, espontaneidade e franqueza atingir as camadas mais profundas da alma.
Sinceridade e elegância. Qualidades pertinentes à sua vasta obra poética. Por isso, a sua poesia é insuperável. Drumm= alta. Ond=onda.

Sua morte, por insuficiência respiratória, provocada por um infarto, chegou(17 de agosto de 1987), segunda-feira, às 20h45min.

Quando nasceu, um arcanjo o abençoou: -Vai, Carlos! Ser eterno na vida.
Moisés Pereira da Silva