terça-feira, 16 de agosto de 2011

Fisiologismo, poder, mídia e ideologia.

Ninguém tem dúvidas dos males do fisiologismo sobre a política, a dúvida reside em definir o que seria fisiologismo, ou pior: há sempre uma definição que empurra a denominação para prática política alheia, enquanto nos convencemos que não a praticamos. O diabo são os outros.

A ideia de trocar favores por benesses bancadas pelo Erário, ou algum outro tipo de serviço e vantagem que não esteja disponível a todos, de forma pública e universal, é antiga.
O desafio da política é tornar os procedimentos de atendimento às demandas o mais próximo da formalidade e impessoalidade possíveis, para que todos possam fiscalizar e combater o favorecimento injusto, ou conquistar seus direitos sem ter que apelar para favores de quem detém o poder de decidir, mas só o tem para atender a quem lhe conferiu(outorgou)tal poder.

O termo fisiologismo associa a satisfação das necessidades físicas imediatas, ou seja, comer, ter uma casa(abrigo), e modernamente, conseguir um emprego, que em última instância satisfaria as primeiras necessidades. Fisiologismo é uma espécie de clientelismo, mas não a única.

Também é clientelismo a forma com a qual a mídia local e nacional se relacionam com as contas de propaganda e publicidade. Como também o é a forma como grupos de empresários (empreiteiros) e outros segmentos vinculam suas atividades ao Erário, e não raro, retribuem essas vantagens com o repasse de dinheiro desviado em licitações fraudulentas, retroalimentando a roda da clientela, garantindo dinheiro e condições para a compra de votos dos mais pobres, ou a cessão de outras vantagens, mantendo o establishment político intocável.

Mas se sabem de tudo isso, por que a mídia, alguns setores intelectuais e agora, até setores da Igreja, falam apenas do clientelismo do tipo fisiológico, justamente a forma praticada pelos mais pobres?

Ora, aqui o viés permanente de classe para desconsiderar as formas dos menos favorecidos de fazer suas escolhas e auferir suas vantagens, enquanto doura a pilula para esconder a adoção do mesmo comportamento nas classes ditas superiores.

Assim, um emprego é tão prejudicial para a Democracia quanto um subsídio, isenção ou favor fiscal para usinas de cana decadentes ou ambientalmente inviáveis.

O patrocínio de uma festa religiosa com o dinheiro de TODOS os contribuintes(e não somente os fiéis) é um pecado fisiológico.

Um caminhão de tijolo é tão nefasto quanto o patrocínio de shows, e feiras comerciais com o nosso dinheiro.

Uma casa, ou um cheque-cidadão é tão danoso para a disputa eleitoral quanto uma obra superfaturada ou uma conta publicitária em agências que "vendem" um serviço que nunca poderá ser, de verdade, aquilatado ou auferido, e talvez pior:

Como dissemos lá em cima: Se o eleitor agraciado responde com voto, que nem sempre poderá ser confirmado,  o empreiteiro, dono de jornal, ou de hospital fornecem o "combustível" para essa máquina eleitoral, quando devolvem parte dos lucros gigantescos em apoios financeiros de campanha ou manipulação e deformação da opinião pública.

Mas na mídia oficial e na paraoficial só veremos a cretinice das lamúrias contra o fisiologismo de pobre. O fisiologismo das elites é vendido com incentivo à produção, geração de emprego ou de forma diluída: Progresso.

E nas palavras de Chico Science: "a cidade só cresce, o de cima sobe, e o de baixo, desce."

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