quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Esperança de araque.

O voluntariado, essa expressão retirada dos "manuais estadunidenses" de convívio social, e mimetizada em nossa sociedade como "cura para todos os males", junto com uma filantropia de sinal invertido, que joga no campo do sentimento de culpa das pessoas (a maioria pobre também), e não no reconhecimento dos mais ricos de seu dever social de retribuir as enormes oportunidades que tiveram a custa da falta de chances para outros tantos, em uma sociedade desigual como a nossa, assumiu contornos sempre dramáticos na campanha global "criança esperança".

Arvorando-se em especialistas em educação e tratamento de pessoas(na maioria crianças) em situação de risco social, trouxeram o espetáculo para dentro da miséria, misturando a falsa noção de que basta intervenções "culturais" para suprir a falta de políticas públicas de valorização dos profissionais da Educação, do planejamento pedagógico adequado, do fornecimento de condições favoráveis de exercício das funções de todos envolvidos, e em suma, investimento em larga escala, que NUNCA pode ser substituído por iniciativas privadas, nem mediado por elas.

Como uma resposta a um sentimento, que talvez possa ser definido como "culpa" por ter patrocinado teses que desregulamentaram e sucatearam a educação pública nacional, com o esvaziamento da noção pública e universal desse bem inestimável que é devido ao cidadão pelo Estado, a globo fantasiou-se de solidária, junto com a chancela da Unesco.

Era como se dissessem, "Viram? Nós temos a fórmula, conosco funciona, e o mandato público e democrático para determinar políticas públicas mais atrapalha que ajuda", ou: "Para quê debater com professores, sindicatos, comunidades, partidos e governos se já podemos implantar tudo de cima para baixo, trocando amor próprio e coesão política por uma aparição televisiva ao lado de seu ídolo?"

Pois bem, eis que agora, aos poucos, a verdade vai aparecendo. Leia aqui o texto do site IG, onde a secretária de educação municipal do Rio de Janeiro descobriu que uma das escolas consideradas a "menina dos olhos" do "programa criança esperança", a do CIEP da comunidade do Cantagalo é um fracasso nos resultados do IDEB.

É óbvio que um resultado, per si, é pouco. Mas não deixa de ser uma tentação utilizar o mesmo simplismo e reducionismo que a mídia PIG utiliza para achincalhar a educação pública como instrumento para emparedar governos inimigos, enquanto esconde a situação dos aliados.

De qualquer forma, cai mais um mito que o PIG cantava aos quatro ventos.

Se já é difícil a sociedade controlar os gastos públicos realizados com os impostos, como aceitar(ou confiar) que empresas possam controlar e fiscalizar o bom uso das doações? Como garantir resultados, e pior, se deu errado, cobrar de quem?

Caso semelhante vem acontecendo com os planos de saúde, e aos poucos a sociedade, e principalmente a classe média, vai descobrindo a falácia da falência do setor público, e a historinha furada da "competência privada", porque sem dinheiro, a conta não fecha. Planos que rejeitam idosos, demoras nos procedimentos, campeões de restrições e reclamações, sem controle ou Judiciário que dê jeito.

Mas isso tudo você não vai ler, ouvir ou assistir na mídia. Será por que?


Em tempo: A solução que você lerá no texto é a de conhecimento secular: Mais trabalho, menos oba-oba.

Nenhum comentário: