terça-feira, 23 de agosto de 2011

Declínio da linguagem ou: Como dizer asneiras com serenidade!

Um vicio corriqueiro da mídia brasileira, com ênfase nas colunas a análises econômicas, é o simplismo. Não se trata da simplificação, que torna os conceitos mais palatáveis e inteligíveis a leitores como nós, leigos, mas o reducionismo que iguala e empacota ideias, que decreta realidades que não existem, e pelas quais esses analistas e colonistas irão se debater para que se confirmem. Criar e impor consensos, essa é a chave.

Essa é uma escola cara às organizações globo, com imbecis como sardemberg ou leitão, e outros peixes pequenos, do tipo que aparecem naquelas reportagens de supermercado do jornal hoje. 
Mas justiça seja feita, esse modelo, junto com a ditadura das agências de rating(que diziam qual país era merecedor de confiança ou não, e justamente o que eles diziam confiáveis, quebraram primeiro) é a ferramenta básica e fundamental de manipulação política da gestão econômica de países. 
Ora, quanto mais fracos e quanto mais fracas as premissas econômicas, mais e mais vaticínios e "sentenças", é claro, para sequestrarem governos e encherem as burras da banca de especuladores.

Com a crise mundial, ou melhor, com a segunda e mais grave "perna" da crise iniciada em 2008, ficou evidente que tudo não passava de charlatanice.

Agora, tentando buscar um discurso que os livre do total descrédito no qual mergulharam (pois foram incapazes de sinalizar ou alertar para os riscos que estavam iminentes, e ainda lustraram de sucesso modelos falidos), esses cartomantes econômicos voltam à carga.

Misturam um bocado de óbvio, algum(pouquíssimo)conhecimento sobre história, certo domínio da linguagem de economês, e pronto: Lá estão de novo, a dar diagnósticos, receitar curas.


O jornalista paulo guedes, no jornal o globo dessa semana, procurou dar ares de originalidade aos seus alfarrábios. 

Eurásia formigas e cigarras ocidentais. Estipulou um "novo" corte geopolítico e "geoeconômico", e preconizou que nas diferenças fundamentais da qualidade da poupança e investimentos estaria o segredo do sucesso de uns e fracasso de outros. Um bocado de clichê étnico, é verdade, mas que tem de fundo um clichê econômico muito mais perigoso, porque sedutor.

Esqueceu o pobre articulista do fundamental: Não há modelos que não se interliguem, se influenciem e que sejam causa e efeito e vice-versa, assim como, dentro desses supostos blocos, há assimetrias graves, estruturadas em histórias diferentes e intervenções e escolhas políticas distintas. A economia não se espraia e determina caminhos de forma uniforme e exata. Não é uma planilha invariável com ingredientes estanques. 

O câmbio e suas variações e estragos, e sua potencial inclinação para conflitos graves é um exemplo acabado disso.

Assim, se é verdade que a China por exemplo, pode ser um exemplo de austeridade(e tem que ser, afinal, não se alimenta 1.5 bilhão de pessoas sem controle rígido da economia), mas o fundamental, ele não diz, por óbvia contaminação ideológica, é que a China cresce e rivaliza com os EEUU, no mundo atual, porque controla com mão de ferro o seu câmbio, adota práticas ultra-protecionistas a sua indústria, semi-escraviza sua mão-de-obra, o que a torna plataforma inevitável dos produtos manufaturados, em regime de substituição de importação, sem mencionar a quase total ausência de liberdades civis, que coloca as demandas e pressões sociais decorrentes de modelos econômicos sob controle, mas que tem um preço que nenhum de nós gostaria de pagar. Na China, te dizem quantos filhos você terá.

Já a Rússia, outro que seria do bloco da Eurásia, praticou um modelo associado a privataria e a corrupção, por longa data(que se encrustou na gestão pública e privada), mas que ao sinal de quebradeira tomou a opção certa: Mandou às favas os credores, assumiu um default, e bancou a moratória, sem que o país se dissolvesse, como previam analistas como guedes e seu coleguinhas de redação. Necessário dizer que a política e geopolítica russa obedecem a um modelo semi-democrático e expansionista/intervencionista, e que, mal comparando, seria como se nós, brasileiros, ocupássemos, ou influenciássemos as eleições na Bolívia e Argentina, para tomar-lhes o gás (região da meia-lua, Santa Cruz de la Sierra, e outros) e o petróleo(da Patagônia), ou as minas de cobre do Chile e outros vizinhos. 
Alguns desses imbecis da mídia até ensaiaram esse discurso na "crise"(muito mais provocada por ela mesma) do gás boliviano, a Petrobrás ou Itaipu e o Paraguai. É possível que guedes estivesse entre eles.

O caso dos "tigres" é clássico e sui-generis, mas o jornalista coloca tudo no seu rótulo eurasiano formiguinha. Ora, Coréia e outros se aproveitaram do enorme afluxo de capitais pós-guerras (Coréia, Vietnam, etc), colocadas com enclaves estratégicos, que tiveram sua economia irrigada por bilhões de dólares. É certo que houve acerto no investimento educacional, mas que os livrou de um triste número: alta taxa de suicídios, provocada pelas pressões e exigências sociais e familiares acerca do sucesso escolar. Ainda assim, colheram resultado bons, mas que têm que ser avaliados sob uma perspectiva própria(tamanho do país, aspectos culturais e população), e mais importante, sob condições históricas que nunca mais se repetirão: Os EEUU nunca mais irrigarão um país com zilhões de dólares para manter uma "cabeça-de-ponte" anticomunista na Ásia. Isso, o guedes, novamente, esquece.


Já pelo outro lado do rótulo guediano, temos as cigarras ocidentais. Eu vou resumir: O que é ocidente? Bom, o Congo é Ocidente, também o é o Canadá. Poderíamos enquadrar Grécia e Inglaterra no mesmo patamar? França e Uruguai?

Até o mesmo o modelo do estado de bem estar social (wellfare state) tem contornos assimétricos em cada país da União Européia.

O que o jornalista guedes pretende, ou pretendia, junto aos mais desavisados e leigos como nós, é criar uma base ideológica para uma nova-velha "tese", que seus amigos conservadores e seus patrões anseiam por ler e repercutir: Parem a política de distribuição de renda, poupem e coloquem o pé no freio. Cortem investimentos, abandonem a ideia de um Estado protetor. 
Preparem seus "caixas" para suportar as corridas cambiais e a necessidade de pagamento da divida pública e privada, ou seja, guardem para pagar aos fundos estadunidenses, franceses, canadenses e deus sabe lá mais quem.

Alguém precisa avisar que boa parte da poupança da maior formiga eurasiana, a China, está em títulos estadunidenses, que ameaçam derreter caso o dólar continue a se enfraquecer, ou pior, se Obama resolver auto-financiar seu déficit emitindo moeda. 

No entanto, em meio a tempestade causada, justamente, pelas teses econômicas que professa, e que a realidade já derrotou, pretende jogar os tripulantes ao mar.

A mesma senha de sempre: Sacrifiquem os direitos de trabalhadores, verticalize-se o consumo, distribua canivetes e serras elétricas entre as pessoas, e exija, meritocraticamente, que obtenham o mesmo resultado. Mais e mais darwninsmo econômico, que se olharmos direito, dada a canalhice intelectual do autor, parece um convite ao canibalismo capitalista.

Em suma, é triste (para eles, pois eu acho engraçado) ver um jornalista, que ocupa as páginas de um dos maiores jornais do Brasil, e que é até repercutido por jornais pequenos do interior, falar tanta besteira, mas com tanta sobriedade. Convence, até que você pare para pensar um pouco. Mas tem gente que prefere copiar, sem sequer tentar entender. Respeitemos, pois, as escolhas.

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