sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A crise em poucas palavras.

Há certo tempo, em 2008/2009, prestei atenção nas palavras do Dr Doom (Dr Apoaclispse), ou Dr Nouriel Roubini.
Como sabemos, a "análise" econômica serve a um monte de coisas, e em um mundo que gira no ritmo das roletas das bancas financistas, não é raro que agências, ratings e outras quiromancias se tornem instrumentos políticos de manipulação de uma realidade que se deseja e que interessa aos lucros.

Por isso, me chamou atenção as "previsões" do Dr Doom, justamente porque apontaram o iceberg, quando todos festejam no Titanic, em 2008.

Lá trás, quando os primeiros sinais de euforia de uma "recuperação" mundial buscavam, na verdade, manter intactas as estruturas que levaram as mais poderosas nações, e outras menores, a bancarrota, o Dr Doom alertava: É uma crise em "W", ou de duplo mergulho. Essa metáfora se refere a representação gráfica, com a depressão na primeira perna da letra, uma subida. e nova queda.

Basicamente, o que todos os analistas sérios concordam(Luiz Gonzaga Beluzzo, Delfim Neto, Nassif, Roubini, esqueçam idiotas como miriam leitão ou sadembrg)é que o sistema financeiro mundial não tem solução se mantiver intocadas as premissas que o levaram ao buraco. Sem forte regulamentação e controle, afiançados por organismos multilaterais eficientes, que arbitrem as assimetrias e desigualdades mundiais, carregaremos o ônus e as conseqüências graves da adoção de meros paliativos, como o acordo recente dos EEUU.

Lá fora o ortodoxia econômica apostou e todos perderam. Os governos, contaminados politicamente até o pescoço com seus compromissos com a banca que usa seu poder junto aos terroristas da mídia para manipular a opinião pública e disseminar o caos, continuam a alimentar o monstro, levando a sociedade (trabalhadores, serviços públicos, políticas sociais de atendimento, etc) a cenas de selvageria e autofagia. Essa violência ideológica não raro descamba para cenas de vandalismo real pelas ruas, com o apodrecimento das instituições, a quebra da confiança da população e o desespero, aliado a recrudescimento de ódios seculares entre povos e culturas.

Aqui no Brasil, a ortodoxia econômica tenta emplacar o pânico de outra forma, ora com ameaças inflacionárias, ora co m golpes especulativos nos mercados cambiais e de derivativos, para conseguir a mesma coisa: Financiar os lucros do mercado e imobilizar a gestão política e pública de governos.

Leia o pequeno texto de Roubini, no blog nourielroubini.blogspot.com, e perdoem pela péssima tradução:


Roubini : we are headed towards a double dip recession

Nouriel Roubini : "the ECB is going to start buying the bonds of Spain and Italy but they cannot do it for long ...we are running out of rabbits because every country including the US is going to do fiscal austerity via fiscal drag it is going to worsen growth because we cannot backstop anymore our banks , we may be doing another quantitative easing in the US but what difference it is going to make a QE3 when the last one did not made much of a difference , and everybody now wants to have a weaker currency to grow their exports , but in an equilibrium not all the currencies can be weaker , this will just lead to currency wars ....it is becoming harder to have policy coherence between different countries"

tradução:
Roubini: Nós vamos rumo a uma depressão de duplo mergulho.

O Banco Central Europeu está começando a comprar o bônus(títulos da dívida) da Espanha e da Itália, mas não pode fazê-lo por muito tempo...nós estamos esgotando as possibilidades porque todos os países, incluindo os EEUU, adotarão austeridade via arrocho (aperto) fiscal , que prejudicará o crescimento econômico(chances de recuperação), só porque não podemos mais conter o apetite dos bancos, nós podemos fazer outro quantitative easing, QE,(injeção de ajuda em dinheiro) nos bancos dos EEUU, mas qual a diferença que fará um terceiro QE, se os anteriores não resolveram, e todo mundo agora adota o enfraquecimento de suas moedas para fortalecer suas exportações, mas em um equilíbrio, nem todas as moedas podem ser fracas, e isto nos levará a uma guerra cambial...se tornará muito mais difícil ter coerência política entre países assimétricos...



Em poucas palavras: o mundo econômico corre atrás do próprio rabo.

No entanto, se soubermos observar os sinais do mundo e da economia, e afastarmos os péssimos serviços que nosso PIG e seus subanalistas prestam, com a cafetinagem do pânico para engordar os lucros de seus patrões da banca, poderemos enxergar as oportunidades que o deslocamento do eixo hegemônico do capitalismo nos oferece, inclusive com a possibilidade de conflitos armados de larga escala, se investirmos em tecnologia, inovação e produtividade do nosso parque industrial e de nossas universidades e centros de formação de mão-de-obra.

Por mais trágico que pareça, não está distante a possibilidade que os atritos cambiais, somados a luta pelo controle das commodities e fontes de energia, levem-nos a resolução desses conflitos pela guerra, como nos ensina a História.

A presidente Dilma parece ter entendido que chegou a hora de investir em políticas industriais e de incentivo que ultrapassem a mera cadeia de bens de consumo e outras modalidades substitutivas de bens industriais, como carros e eletro-eletrônicos, ou na manutenção de uma pauta de exportações que privilegiam as commodities.

O governo lançou novas exigências para a concessão de redução de IPI, por exemplo, na indústria automotiva, onde o benefício fiscal está atrelado a compra de componentes dos carros produzidos pela indústria nacional e investimento em criação de novas tecnologias nacionais.

É uma contrapartida necessária. No governo Lula, a medida gerou os efeitos positivos que ajudaram-nos a passar pela marolinha, mas o prejuízo a país foi da ordem de 4 bilhões de dólares, que as montadoras carrearam para suas matrizes, ou seja, financiamos os enormes prejuízos dessas matrizes.

A redução de tributos sobre a folha de pagamentos e contribuições sociais estão nesse pacote, e estão subordinadas a uma manejo estratégico, e não a disseminação de favores fiscais, como pretendem os "analistas" do PIG.

Vivemos um momento único, para o bem e para o mal. 

Sindicatos de servidores públicos devem ter em mente que não podem aceitar que a crise a a necessidade de contingenciamento orçamentário seja usado como um argumento único e como chantagem para suprimir direitos e reposições, mas também não dá para esgotar o Estado com a concessão de TUDO o que se deseja. 
Empresas do setor de exportação e de consumo interno devem aproveitar a chance de discutir sua desoneração fiscal sob uma ótica estratégica, e não um oba-oba parasitário e predatório, como sempre acontece. 

Há outras variáveis a serem enfrentadas por nós, como reforma fiscal, que enfim estabeleça nesse país o que diz a sua Constituição, ou seja: a cada um o tributo na sua capacidade de contribuir. 
São debates necessários a um consenso político que escape a luta ideológica que tenta imobilizar os governos para auferir ganhos eleitorais óbvios. 
É preciso responsabilidade e senso público para mantê-lo, infelizmente, sentimento que passa longe de boa parte da mídia, que pauta partidos e opositores.

Os governos devem entender que alimentar a banca não resolve o problema e a única saída viável é o crescimento econômico com distribuição de renda, que fortalece a macroeconomia interna, sem a qual não há Banco Central que evite ataques e contaminações.

Estamos em um período delicado, e com certeza não é hora de pânico, mas também não dá para relaxar, algo como: nem tão rápido de pareça covardia, nem tão devagar que pareça provocação.

A blogosfera não é suficiente, nem  tem alcance para determinar rumos, mas pode dar uma pequena contribuição.
Mãos à obra.



PS: Um detalhe "sem importância", mas que pode fazer um ENORME diferença, e falaremos disso mais tarde: A nomeação de Celso Amorim para a defesa pode ser parte desse esforço de enxergar os episódios com olhar mais amplo. Um especialista no olhar sobre a diplomacia pode ser fundamental quando a diplomacia política e econômica deixarem de existir.

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