domingo, 3 de julho de 2011

Os idiotas.

Há idiotas que o são por algum tempo. Até que o debate, a intensa discussão produza conhecimento. Por um instante, a idiotice desaparece, até que novas dúvidas surjam, e somos, novamente idiotas.

Somos idiotas por cultivarmos a dúvida permanente.

Mas há os idiotas orgânicos. Esses se alimentam de certezas: "As coisas são assim e pronto", ou: "eu só comento o que disse, nunca debato".

Idiotas orgânicos se dizem gente comum, e de "bem" não por humildade ou solidariedade igualitária com a gente comum, e sim pelo fato de que enxergam o mundo como um lugar onde todos que não sejam eles, "gente comum e de bem", são maus, e portanto, ser comum é uma distinção. (Embora nem sempre seja possível dividir o mundo de forma binária: bem ou mal, os idiotas orgânicos celebram o maniqueísmo como meio de vida, e se colocam sempre do lado certo: o bem!)

Na verdade, para esses idiotas orgânicos, o debate é só um meio estético para exporem as palavras em um espelho, ou em um vale de ecos. Geralmente, os idiotas começam as discussões assim: "Eu vou falar, mas não quero te convencer de nada".

Idiotas orgânicos como diogos mainardis não querem achar um ponto de consenso, ou estabelecer um conflito para formular algum tipo de conhecimento. Idiotas como demétrios magnolis não querem uma ciência que mude a realidade, eles querem uma que se encaixe e aprisione a realidade que lhes convêm.
Outros menos conhecidos não desejam entender o sentido de leis, por exemplo, querem a sua letra morta como camisa de força a qualquer dinâmica da realidade, ou seja: "A Lei é lei, e pronto". Esquecem que a pior forma de injustiça é o legalismo exacerbado. 
Idiotas que defendem o formalismo militar para prender manifestantes, para depois termos que criar anistias para consagrar princípios de Justiça que deveriam suplantar antes as punições que vão abolir. 
Os idiotas defendem situações injustas, onde a lei deve ser aplicada, para depois consertarmos fazendo Justiça.

Embora vivamos em um mundo onde o preconceito, a exclusão, o autoritarismo, a massificação/manipulação da informação, o fundamentalismo religioso/mistura religião-Estado, a diferença social, a marginalização dos mais fracos,  sejam regra, e não haja competição alguma que possibilite um sistema de méritos (pois não há competição possível em ambiente onde as chances na partida são desiguais), os idiotas acham que qualquer debate que questione esses valores é uma ameaça "ditatorial", embora sejam, geralmente, eles e sua idiotice ingênua ou de má-fé, que sustentem um mundo de privilégios, onde "perder" é a regra. 
Os idiotas são interessantes: Eles se enxergam como "ungidos" e resultado de um enorme esforço pessoal "para vencer", mas esquecem que essa condição é uma exceção, e  por isso mesmo, não pode ser aplicada a todos, e que o restante que "fracassou" não pode ser "culpado" por ser a regra. 
Logo, se eles são resultado de uma lógica onde menos gente ganha, e mais perdem, como "celebrar a derrota alheia" como um defeito pessoal, ou a "vitória" como qualidade que poderia estar disponível a todos? Se há mais gente que perde, e um minoria ínfima "ganha", tem alguma coisa errada com o "jogo", não?

Os idiotas orgânicos praticam uma patrulha moral-debilóide, mas se queixam de patrulha quando seu comportamento é questionado, porque acreditam que carregam o destino manifesto, ou o monopólio do "bem". Algo como a vontade de deus.

Mas no fim, somos todos idiotas, e a sutil e pequena diferença não está em nosso talento ou falta dele. Ela reside no fato que os idiotas como nós, entendem que a idiotice é característica intrínseca da Humanidade, enquanto outros idiotas, os orgânicos, entendem que idiotas são os outros.

É só escolher qual tipo você deseja ser. Não dá é para ser um idiota "neutro", como outros pretendem.

Nenhum comentário: