segunda-feira, 4 de julho de 2011

Os idiotas e a arte: Um debate necessário.

Como já mencionamos em outros textos, somos todos idiotas. Por motivos e com objetivos diferentes, mas sempre idiotas.

No caso das manifestações de arte, quer seja na literatura, quer seja na música, artes visuais e gráficas, etc, existe um debate tão velho quanto a idiotice:
É possível descontextualizar a arte, neutralizá-la e isolar o que de discurso ideológico existe na forma de expressão, que afinal, é um dos objetivos de quem cria, quer dizer: mostrar sua visão de mundo pela sua arte?

Pois bem, esses dilemas dividem os idiotas como nós, que acreditamos que se é verdade que não se pode retirar o contexto no qual a a expressão artística se inseria, de forma a "entender" possíveis discursos politicamente incorretos e evitar "patrulhas", ou propor revisões nas obras sem destruí-las, também não dá para deixar de entender que racismo ou homofobia, assim como o sentido estético dessas manifestações artísticas são "eternas", logo, o que era preconceito em 1818 é preconceito agora.
O que mudou, é lógico é a forma como o consenso da sociedade encara tais posições.
Logo, um poema que exalte a escravidão, por mais belo que seja, HOJE, não pode ser lido com a mesma reação, a não ser que entendamos normal, HOJE, escravizarmos pessoas.
Em 1939, o nazismo se baseou, com apoio ou omissão dos alemães, no preconceito à serviço do extermínio de judeus e outras minorias, e na morte como forma de ferramente política. O fato da arte alemã, como o cinema de Leni Riefenstahl, expressar os valores da supremacia racial como "normais", dentre daquele contexto, não os exime da censura, antes, nem depois.

Mas há os idiotas da neutralidade, como se a arte se expressasse no vácuo ideológico, e pudesse ser atemporal, e desta forma, desejam cristalizar tais manifestações e as expressões de ódio que contenham.
Esses idiotas da neutralidade esquecem que como forma de expressão, como escolha estética a serviço da produção de cultura, o objeto/a obra(texto, filme, quadro, etc) deixa de ser do seu criador quando se torna pública, e guarda com ele apenas a referência pessoal e as condições espaço-temporais onde foram criadas, o famoso contexto.
Logo, a atualização da leitura, da compreensão, da aprovação ou censura de uma obra é próprio da Humanidade, assim como a idiotice, assim como esse debate o é.
Quem lê Cem anos de solidão aos 16 anos, aos 32 e aos 64, possivelmente, vai ter compreensões distintas, e a obra, certamente, vai lhe causar impactos diferentes.

Porque há uma diferença sutil que o simplismo dos idiotas da neutralidade esconde: 
Achar normal matar judeus em 1939, na Alemanha pode ser inteligível (e até "justificável"), mas achar normal HOJE, é nos igualar a eles, HOJE, e não em 1939.


Essa correção ou diferença no olhar de quem absorve a obra, ao contrário dos idiotas da neutralidade, é que torna possível a sobrevivência dessas obras, pois a atualização não implica em contrariar o autor, mas apenas entender as condições nas quais a produziu, e afastar a repetição de condições que trazem o preconceito e a intolerância a qualquer tempo, ou o que nos agradava e não mais nos agrada.
Sob o pretexto de conservar a obra, os idiotas da neutralidade a matam, quando a engessam no tempo.

Nós, os idiotas da contextualização não pretendemos revisar obras, mas (re)significar seu conteúdo, ontem, quando foram feitas e hoje, quando são lidas ou consumidas. É isso que as torna vivas, que as torna, enfim, arte.
Porque, assim como a noção e compreensão sobre a validade estética da obra muda (o que ontem era bonito, hoje pode ser feio), muda também nossa valoração sobre as escolhas ideológicas do autor.

É claro que não dá, nem podemos, mudar um verso que fale em bater na mulher para lhe punir por traição, como faz, por exemplo, o saudoso Bezerra da Silva aqui,, mas deixar de enxergar que não dá mais para cantar essa canção sem se incomodar com o discurso da violência, e comemorar o fato de que isso, HOJE, seja incômodo, é perpetuar sentimentos de INTOLERÂNCIA e ÓDIO sob o falso argumento de fidelidade ao tempo histórico do autor da obra.
É dar-lhe HOJE um sentido que, à época, não tinha, pois seu autor, como a sociedade praticavam condutas que eram (erradamente)aceitas, tanto que nós evoluímos e as abandonamos, e não o contrário.

Assim, como no caso dos idiotas militaristas e os 439 bombeiros, os idiotas da neutralidade da arte, a título de "salvar" obras com discursos preconceituosos, mas normais em sua época, acabam por destacar e engessar o preconceito delas, pois justificar HOJE o que deixou de ser normal, e passou a ser censurável, é como dizer que naquela época, o autor da obra sabia (uns sabiam, mas isso não vem ao caso) e aceitou tais valores intolerantes.

Em resumo: a sutil diferença (mais uma vez, sutil diferença) entre os idiotas da neutralidade da arte, e os idiotas da contextualização(como nós) é que eles querem "absolver" os autores dizendo que devemos aceitar o preconceito contido nas obras ontem e HOJE, enquanto nós, entendemos o que esse discurso intolerante significava ANTES, para censurá-lo HOJE, e "absolver" a parte da obra que possa ultrapassar as barreiras do tempo.
Até porque, discutir com pluralidade o tema é considerar mais a OBRA e seu significado, pois estes nos influenciam,  muito menos que o autor e suas escolhas pessoais, ou seu "caráter", que só deveriam interessar a quem lhe é, ou foi íntimo...
Separar criador da OBRA...E nessa OBRA é possível e DESEJÁVEL separar o que é bom, e o que é lixo...
Assim como é preciso separar os idiotas...

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