segunda-feira, 18 de julho de 2011

Nossas heranças, nossas escolhas, nossos destinos.

A grave situação de precariedade sócio-econômica a que estão submetidos os trabalhadores vinculados a planta industrial e ao setor agrário da extinta Usina Sapucaia, que vem sendo tratada como um fato isolado, e quase que de soslaio pela mídia comprometida local, nos traz mais uma vez a reflexão sobre esse agonizante setor da atividade econômica local, que insiste em reivindicar uma importância que não tem, pelos mesmos motivos de sempre.

Desejo de repartir o ônus e os riscos de sua atividade com o setor público, enquanto concentram os bônus e lucros da riqueza gerada, negando a região o desenvolvimento econômico e social que dizem pretender implementar, como justificativa (falsa) para suas existências.

Não se trata de repudiar a atividade sucroalcooleira, mas rejeitar a manipulação ideológica do debate, a obscuridade dos interesses que se revestem de causa pública, justamente para lesar o público e seu patrimônio.

A história do setor na região, agora exposta em tintas nuas e cruas à beira da estrada, onde 400 famílias acampam em busca de seus direitos violados, nos autoriza dizer que as indústrias de álcool e açúcar dessa região não merecem qualquer crédito de confiança para funcionar como alavanca de um projeto regional de desenvolvimento econômico sustentável.

Ao contrário: Se considerarmos que nossa região é responsável por uma parcela ínfima do plantio e produção nacional, algo em torno de 3%, e ao mesmo tempo, conta com o maior número de notificações por violações trabalhistas GRAVES, chegaremos a triste conclusão que os empregos que os usineiros pretendem "salvar" por aqui, quase não existem, pois não podem ser chamados de contratos de trabalho. Desse modo, para o bem dos trabalhadores é melhor que sejam "resgatados" dessa atividade laboral.

Outra balela sobre pequenos produtores já foi desmontada pelo professor doutor Marcos Pedlowski em seu blog. A concentração que a escala do negócio exige, quase inviabiliza o plantio em pequenas porções fundiárias. Ler: CANAVIEIRO, UM TERMO REDESCOBERTO PARA FABRICAR UM FALSA DICOTOMIA

Abandonemos aqui a discussão o populismo jurídico, patrocinado por um certo deputado, que rasgou a Constituição Federal ao pretender que uma Lei Estadual enfrente tema já regulamentado em Lei Federal, no tocante as queimadas.

Nem citemos a contradição que seria acreditar que alguém cumprirá a lei, quando não deu a menor mostra que o faria quando teve tempo (20 anos, desde a primeira lei sobre o tema, da lavra do então deputado Fernando Leite).

Por mais que se tenha boa vontade, um fato é inexorável:
O setor sucroalcooleiro local vai morrer em poucos anos, e não há por aqui, nenhum empresário digno de receber qualquer ajuda estatal, muito contrário, a repetição insistente nas piores práticas empresariais veda qualquer ação nesse sentido.

Nossa elite local é parasita, predatória, e sequer sabe manejar as ferramentas do sistema capitalista ao qual dizem estar filiados, no máximo, estão, em uma analogia mal feita, na fase pré-capitalista, com a propriedade da terra vinculada a servidão de sua mão-de-obra, utilizando o Estado como fiador dessa situação.


Os dilemas do setor

Ao redor do Brasil, que desponta como força na produção de etanol, e como um dos maiores produtores de açúcar, está instalado um dilema grave, que ameaça o etanol como matiz energética confiável, assim como pode fragilizar o mercado de seu produto agrário, o açúcar.

Sem saber se desejam ser tratados como produtores de energia ou de alimento, os usineiros desejam o bônus dos dois lados, e querem nos repassar a conta.

Na hora da cobrança pelo viés especulativo em relação aos estoques de etanol, reclamam da instabilidade como produtores de alimento, ou das variáveis relacionadas a própria atividade: clima, esgotamento de terra, produtividade, marco legal, etc.

Por outro lado, exigem do governo as garantias de plantio, trazendo para o debate a questão da produção de açúcar, hoje muito mais rentável no mercado internacional, que apresenta sinais de demanda aquecida fortemente.

Querem, como sempre, um Estado que interfira no mercado para socializar prejuízos, mas fique longe desse mercado, abstendo-se de qualquer regulação ou tratamento estratégico público.

Desse jeito, não dão a estabilidade necessária para funcionarem como principal alternativa ao uso de combustível fóssil, o petróleo. Esse combustível e insumos derivados(petroquímicos) que embora tenha suas zonas de extração vinculadas a conflitos armados, que balançam o mundo e as finanças, com os choques sazonais, tem nas reservas brasileiras a certeza de que nos próximos 40 ou 50 anos, essa fonte de energia ainda será uma alternativa muito mais viável economicamente que o etanol.

Outro problema, geralmente afastado do debate sério sobre o tema é o limite de produtividade do etanol de cana. A cada ano de safra a produtividade da terra desce, a despeito de todas as correções de solo, nutrição(adubos) e oferta de água em tempo certo(irrigação). Logo, para manter níveis de produção em escala exigidos pelo mercado e por nossa frota, cada vez mais e mais terras são necessárias. Terras novas ou virgens, como chamam os especialistas.

Com isso, outro dilema: Terra para produzir combustível, produz menos comida.

Infelizmente, a (im)postura dos semi-empresários locais, incapazes de enxergar suas limitações, e abandonarem a postura arrogante típica dos senhores de engenho, dos quais herdam a tradição e os cacoetes(e lógico, a bancarrota), impedem qualquer discussão sobre o tema, ainda mais quando cafetinados pelos órgãos de mídia, que utilizam como plataformas de propaganda.

De nossa parte, só podemos dizer, já vão tarde.

Quanto aos trabalhadores, é preciso dizer de novo:

A chegada dos carros não impediu que cocheiros, tratadores, ferreiros, seleiros e todos os profissionais ligados ao transporte por tração animal, fossem recolocados e incorporados por outras atividades.
Tanto como os acendedores das lamparinas à óleo de baleia ou querosene tiveram que achar seu lugar, após a inauguração de iluminação pública autônoma, primeiro à gás, depois, à eletricidade.

Cabe ao Estado e, em suma, a sociedade, arcarem com o remanejamento dessas pessoas, já que, como os trabalhadores da Usina Sapucaia, os senhores os abandonam na estrada, como bagaço.

Nenhum comentário: