terça-feira, 28 de junho de 2011

Quando o PIG esquece quem ele é, ele informa.

Vejam o texto que reproduzimos do blog do Brizola Neto:



No modelo City, a Honda tem aqui um lucro "extra" de mais de R$15 mil, quase um terço do valor de venda do veículo
O jornalista Joel Silveira Leite prestou um imenso serviço ao jornalismo hoje, em sua coluna “Mundo em Movimento“, no UOL.
Escreveu o que centenas de jornalistas das editorias de economia não escrevem, às vezes nem por censura, mas pelo hábito de repetir, sem pensar, o que lhe dizem empresários, banqueiros e homens do “mercado”, como se fosse apenas transcrever ou propagandear o que estes falam.
Leite vai a um tema  sobre o qual muita gente sabe e quase ninguém escreve.
Que o preço dos automóveis no Brasil é mais alto – e um dos mais altos do mundo – não por uma carga tributária elevada apenas, ou dos encargos trabalhistas – mas porque as margens de lucro das montadoras é muito maior aqui do que em outras partes do planeta.
Isto é, que o nome “custo Brasil” camufla, na verdade, outro: o “Lucro Brasil”.
Ele conta  que as montadoras no Brasil têm uma margem de lucro muito maior do que em outros países, citando uma pesquisa feita pelo banco de investimento Morgan Stanley, da Inglaterra, e diz que elas respondem por boa parte do lucro mundial das suas matrizes.
As editorias de economia da grande imprensa, quando decidem usar a reconhecida capacidade de suas dezenas de profissionais, desempenham um papel fundamental na informação da sociedade.
Exatamente o que tinha sido apontado aqui, recentemente, quando afirmamos que os lucros da Fiat aqui no Brasil (e na América Latina) haviam ajudado a empresa a pagar parte da dívida da Chrysler com os governos americano e canadense, pela injeção de dinheiro para que esta não falisse,  na crise de 2008.
Joel Leite usa um exemplo de um modelo da Honda que, sem considerar os impostos, dá a montadora um “lucro extra” (extra, porque sua margem de lucro “normal” já está embutida no preço de venda mexicano) de R$ 15.518,00 sobre os R$ 56.210,00 por que é vendido no Brasil, embora a versão vendida no México tenha muito mais equipamentos de segurança e acessórios.
“Será possível que a montadora tenha um lucro adicional de R$ 15,5 mil num carro desses? O que a Honda fala sobre isso? Nada. Consultada, a montadora apenas diz que a empresa “não fala sobre o assunto”. “
Mas o analista Adam Jonas, responsável pela pesquisa do Morgan Stanley fala, e diz que “no geral, a margem de lucro das montadoras no Brasil chega a ser três vezes maior que a de outros países”.
A reportagem de Joel Leite é a primeira de uma série que promete muita informação. Merecidamente, era a manchete de hoje de manhã no UOL.
Você pode conferir aqui.

6 comentários:

Gustavo disse...

É verdade, mas há de se lembrar que quem deve e pode resolver esse problema é o governo.

Não há sociedade onde os produtores diminuam sua margem de lucro, de forma altruísta e voluntaria, quando podem ganhar mais.

É o estado que deve facilitar a concorrência para que os valores dos carros se ajustem aos patamares internacionais.

Quer carros mais baratos? Reduzam a alíquota de importação.

O capitalismo pode ser bom. Mas ele deve ser domado.

douglas da mata disse...

Gustavo,

É verdade, quem visa o lucro não o diminuirá, senão por pressão.

Mas o sentido da publicação do texto é suscitar outras reflexões, vamos à elas:

1. A hipocrisia da mídia e dos empresários que sabem que o sobre-lucro é responsável pelos preços, mas que jogam a "culpa" em uma carga tributária que nem chega perto dos países onde eles têm menos lucros. Nossa carga tributária não é tão alta, ELA É INJUSTA.
(RICO PAGA MUITO MENOS QUE O POBRE).

2. O ramo de automóveis é oligopolista por natureza(e por escala). Há 20 ou 30 fábricas no Brasil, e isso não significou concorrência, muito ao contrário. Veja que se o governo utilizar os meios que dispõe (com intervenções anti-cartel, etc)chamarão de combate ao livre mercado, que sabemos, nunca foi e nem será livre.

3. A alteração de alíquotas não é tão simples, pois têm reflexos nas contas correntes(entrada e saída)de dólares, nos juros, etc, que trazem estragos a outros setores da economia(que nada têm que ver com carros), e por final, nos outros setores dessa cadeia produtiva, que podem ficar sem condições de competir e ceifar empregos.

A saída, eu imagino, é aumentar a tributação sobre esses lucros, e fazer com que esse dinheiro que iria encharcar as contas das empresas deficitárias no exterior, ficassem aqui, e revertessem em benefícios para todos, os que compram e os que não comparam carros.

Um abraço.

douglas da mata disse...

PS:

Só para completar:

A alteração de alíquotas em ambiente de câmbio sobrevalorizado como o nosso não surte efeito.

A maioria das montadoras só inverte o fluxo e passa a "comprar" seus próprios carros, ao invés de produzí-los aqui. Com mais lucro.

um abraço.

Gustavo disse...

Douglas, os aspectos negativos que você aponta no seu ponto 3, também podem acontecer se tributar em demasia os lucros das empresas ou impede que as remetam para as matrizes. Alguém pode alegar que dessa forma haveria menos investimentos, menos postos de trabalho, etc.

Ao permitir a importação de carros mais baratos, diminuindo a alíquota de forma gradativa e controlada, você obriga os produtores locais a baixar o preço do carro, e ainda a produzir mais veículos, para compensar a "baixa" margem de lucro. E ainda deixará o consumidor feliz.

Agora, que a carga tributária é injusta, concordo. Mas, de novo, cabe ao governo corrigir isso.

Gustavo disse...

Não entendi o assunto das alíquotas com o câmbio sobrevalorizado, desculpe.

Imagino que fala do caso em que fabricas importam de outras filiais da própria marca.

Mas não esqueça que há muitas montadoras que não tem produção local, como as chinesas.

De todas formas, não consigo entender a lógica de que baixar a tributação é prejudicial para o consumidor. Porque, afinal, é dele que nos estamos preocupando, ne?

douglas da mata disse...

Gustavo,

É verdade, mas esse é um desafio da gestão tributária-fiscal de governos, e que se orientam, em linhas gerais, sob dois prismas:

-ou permitem lucros exorbitantes e a fuga de capitais;

-ou tributam e fazem com que o dinheiro fique aqui, até como forma de compensar a sociedade pelos danos causados pela atividade, pois lembre-se que automóveis causam impactos enormes, como ambientais, urbanísticos e até na curva demográfica, com o elevado número de mortes no trânsito(o que também reflete na curva previdenciária, e por aí vai).

Novamente, eu chamo sua atenção para sentido da publicação do texto, que não é achar uma fórmula de baratear carros, pelo menos não como eixo principal, mas afastar o mito de que carros são caros por causa dos impostos.

Lembre-nos, outra vez, que a maioria dos países tributa os carros de forma pesada, progressiva e seletiva: a) quem compra carros mais caros e potentes paga mais tributo; b)utilitários (tipo Hi-Lux)se usadas como transporte urbano pagam mais ainda, pois geram mais impacto ambiental e perigo potencial de danos em caso de incidentes; c)há outras formas de tributos indiretos, como pedágios urbanos(centro de Londres, por exemplo).

Eu, embora utilize carro, acho que o governo deve manter o seu consumo sob controle, quer dizer: equilibrando a necessidade de gerar empregos e divisas, e o interesse da maioria do público que não tem carro, e que é impedido de se locomover pelos engarrafamentos e pela ausência de políticas públicas de transporte de massa.

Em relação ao tópico câmbio sobrevalorizado em importações, eu explico, ou tento:

É isso que eu disse, com a baixa tributação, ao invés de fabricar aqui, eles compram de si mesmas. O que vai atrair, inclusive, as chinesas, que de forma rápida e com os famosos incentivos e subsídios fiscais que nossos governantes adoram distribuir, montariam "plantas" destinadas somente a mascarar importação de carros.

Nesse caso, com a baixa de alíquotas, as montadoras usam um artifício fiscal(uma brecha)na hora de remeter os lucros e ganham ainda mais. É um troço meio complicado, mas funciona mais ou menos assim, pelo que entendi:

Quanto mais próximo a taxa de câmbio da equivalência/paridade(1 dólar = 1 real), ou seja, quanto mais o dólar se aproximar do real, menos imposto eles pagam na hora de entrada dos carros e remessa dos lucros.

Um abraço.