segunda-feira, 27 de junho de 2011

O trato, celebrado, com firma reconhecida e registrado!

Era uma vez, um terra muito distante e muito rica, e que já fora uma das principais regiões de produção de açúcar do país. Mesmo assim, viver lá, e trabalhar nas lavouras não era um doce.

Por mais que os patrões cuidassem, os desatentos e desleixados servos insistiam em desperdiçar todo aquele dinheiro que ganhavam em comida, vício terrível. Por mais que os patrões desejassem  fornecer transportes seguros, condições dignas e contratos legais de trabalho, esses servos insistiam em permanecer como escravos e agradeciam a deus e aos patrões por isso.

Um processo estranho, talvez uma maldição, fazia permanecer sobre essa terra encantada um paradoxo:
Nas outras paragens, como lá nas terras dos bandeirantes, quanto mais os patrões gastavam e investiam em lavouras mecanizadas, com mais direitos aos trabalhadores qualificados, e encareciam a produção, é verdade, por outro lado, mas o setor crescia e prosperava.
Na terra encantada, quanto mais as condições pioravam, e todos os anos, os guardas reais do reino de Brasília encontravam mais e mais gente escravizada nas terras, e quanto mais economizavam para lucrar mais, mais usinas fechavam.

Ano a ano, enquanto outras regiões do país modernizavam suas lavouras, essa região andava para trás, e mais usinas fechavam, e mais regredia no tratamento aos seus trabalhadores, reduzindo-os a condição mais aviltantes.
Afinal, esse é o processo natural das coisas, e a culpa é dos trabalhadores, diziam os patrões.
"Gente preguiçosa", pensavam os bons coronéis.
"Por que ao invés de trabalhar por apenas 12 horas de sol a sol, querem a boa vida de bolsas-família e a chance de estudar?" Diziam os colunistas dos jornais dos coronéis.
"Para quê tanto desperdício, se os patrões podem lhes dar uma visão do mundo adequada às suas condições?" 
Não vêem que o pensamento, o conhecimento e uma vida mais confortável só trás problemas? Esse negócio de direitos é muito complicado" Argumentavam os advogados de anel.
"Olhem para nós, dinheiro não nos traz felicidade, embora soframos em Paris, é verdade!" Diziam atônitos os coronéis do reino.

Como atividade baseada em atos naturais, ou pela vontade de deus, o fogo ainda era o principal instrumento da colheita, e enchia os céus e as ruas de uma poeira preta, a famosa fuligem. Não há criança asmática ou dona de casa que não se lembrasse de onde vivia, afinal, a cidade parecia uma grande chaminé. E isso dava um certo charme, e os colunistas dos jornais só reclamavam da cor da fuligem, que se fosse branca, nos igualaria aos alpes.
"Humpf! Até nisso a cor atrapalha", imaginavam esses colunistas e jornalistas, portadores da verdade inquebrantável dos homens de bem e da boa sociedade.

Pelas ruas, os caminhões espalhavam a cana que transbordava de suas carrocerias, quando não deixavam essas ruas e bairros inteiros às escuras pelo rompimento dos fios da rede elétrica, arrastados pelo excesso de carga. Melhor assim, economia de energia é um apelo ecológico.

Paradoxalmente, embora não representassem economicamente nem a reles sombra do que um dia já foram, os usineiros e produtores berravam nas ruas como se ainda fossem os coronéis a estalar chicotes nas suas senzalas.

Pois bem. Um belo dia, nessa terra encantada, a corte resolveu fazer um acordo, para que os coronéis das queimadas cumprissem uma lei que se recusaram a cumprir por 20 anos. Quem sabe assim, a atividade canavieira conseguiria chegar ao século XX?

Todos presentes na sala do reino:

A prefeita  fada do dente, o coelho da páscoa deputado estadual, o unicórnio deputado federal, o lobo mau presidente da Câmara, e os benfeitores locais: os usineiros e produtores. Na platéia, fantasiados de gente, seus escravos de eito, e alguns da casa grande. Cobrindo o evento, alguns bobos da corte e colunistas, embora não fosse possível distinguí-los bem. Detalhe sem importância

Para celebrar, registrar e reconhecer a validade do feito, o escrivão-diabo, guardião do cartório da serventia do inferno das boas intenções.

Assim foi feito.
Lei cinco mil, novecentos e noventa, aos dois mil e onze anos de nossa desgraça.
Esse era o título do ato que foi trombeteado aos quatro ventos.

E todos viveram felizes para sempre, acreditando sempre nas mentiras que escolheram acreditar.

Nenhum comentário: