quarta-feira, 1 de junho de 2011

De Lula a Dilma: As contradições e a luta política do PT consigo mesmo.

O PT, é, via de regra, um partido com origem no sindicalismo operário, no marxismo militante de diversas correntes, com uma mistura improvável junto ao movimento eclesial de base, fundado na Teologia da Libertação.

Todos esses ingredientes, mas a aproximação óbvia e histórica com a classe média do funcionalismo público e setores urbanos dos movimentos sociais, deram um contorno e conteúdo combativo ao PT, com forte apelo a ética e ao moralismo.

Essa análise não se presta, a não ser de forma subsidiária, enfrentar os dilemas éticos do PT, e seu desgaste decorrente do jogo político, da atividade administrativa e da tentativa de conciliar interesses dentro da gestão do Estado.

Me preocupa, muito mais nesse momento, uma certa falta de norte que o governo Dilma parece enfrentar, e que não pode mais ser creditado a diferença de estilo entre ela e seu antecessor, embora esse elemento também seja componente dessa conjuntura.

De uma forma ou de outra, todas as crises "morais" do governo Lula forma resultado de "fogo amigo", ora provocado por correligionários do próprio PT, ora resultado da ação dos aliados da base, junto ou separados dos petistas.

Foi assim no caso Waldomiro Diniz, no caso Daniel Dantas, PF e Abin, e o maior de todos, a disputa pelos Correios, que levou ao vídeo com a propina de 3000 reais a um diretor de compras, a CPI com Roberto Jefferson e a tese do inexistente mensalão, que na verdade, como comprova o relatório da PF, não se tratava de um fornecimento mensal e, ou regular de recursos para angariar votos parlamentares, mas um poderoso esquema de financiamento e troca de favores, que envolvia integrantes de alto coturno do governo, empresários e setores da mídia (Veja e O Globo), que, cinicamente, e como sempre, esconderam esses fatos do público para favorecer a tese do mensalão, que afinal, favorecia ao partido da oposição que ela  (a mídia) faz parte.

Mas por que Lula, com todo ódio de classe que lhe foi devotado, e toda a adversidade, enfrentou e venceu a crise maior de sua carreira?
Vários motivos juntos respondem essa questão, e de acordo com o ponto de referência de quem responde, uns terão mais peso que outros. 
Uns realçarão a genialidade política e capacidade de comunicação do presidente com a população, outros dirão que a própria oposição medrou frente ao caos que poderia ser instalado pela cassação de um presidente popular, e recuou, alguns creditarão a chegada de Dilma para pilotar a casa civil, e outros tantos dirão outras teses mais ou menos conspiratórias, como a de que ffhhcc, como se detivesse o destino da República nas mãos, e de cima de sua soberba, aconselhara: "Deixem ele no cargo  e vamos sangrar ele até as eleições", e assim, poderia o tucano lustrar sua biografia, que escorria pelo ralo da História, de onde até hoje não emergiu, senão para exalar mau cheiro.

No entanto, há naquela crise e na de hoje, com  pallocci, a mesma natureza destrutiva utilizada pela midia e a oposição: Enfraquecer e sangrar a presidenta, onde todos se aproveitam: A oposição, pelos motivos óbvios, e a situação, na medida que uma presidenta frágil é sempre mais suscetível aos pleitos desse ou daquele grupo de pressão que sempre permanecem atrás de quem cerca o poder central.

Dilma sabe disso, e tem a exata dimensão de seu papel.

Porém, insisto, por que os companheiros de hoje, e de outrora, parecem bem mais rigorosos com ela do que foram com Lula, correndo o risco de empurrar a presidenta para uma inflexão mais a direita, onde estaria refém de uma agenda derrotada nas urnas, mas que insiste em se impor pela força dos escândalos e chantagens, como fazem os republicanos, nos EEUUcom Obama, e que de certa forma, se expressou no caso do kit anti-homofobia, o Código Florestal, e outros temas menores, que parecem uma guinada ao obscurantismo?

Para entender é preciso retornar ao início do texto: O caráter religioso, sindicalista e marxista militante dos companheiros do núcleo mais duro construiu, ao longo do tempo, um caldo de cultura que mitificou a imagem do operário-presidente, tanto em seu imaginário como instrumento para aplacar sentimento de culpa pequeno-burguês, mas também para possibilitar uma defesa ao ataque preconceituoso que a classe trabalhadora e seu representante maior, o presidente, sofriam por sua condição de classe.
Some-se isso, a tradição marxista das correntes do PT, de endeusamento da figura do operariado urbano e do camponês como redentor da sociedade capitalista.
Lula era operário com origem camponesa. Sopa no mel!
Para defender Lula, criou-se o Grande Pai Lula, cujos erros e falhas eram absorvidos pela anti-gravidade do enorme buraco negro de sua popularidade e viravam ali, anti-matéria.

Ali estava em jogo o ápice ou derrocada de um projeto de poder de uma geração.
Mas por mais que houvesse identificação e solidariedade com o líder, estava claro, ele não era um deles. 
Não estudou na USP, não participou da luta armada, não foi torturado ou exilado, não era intelectual de cátedra, senão orgânico, enfim, era da baixa classe média, com todos os "vícios" e pecadilhos que essa origem impõe e que faz a audiência da globo e do PIG torcerem o nariz. 
Essa distinção conferia a autoridade essencial ao presidente para enquadrar os seus companheiros. Na visão "religiosa" e cristã-marxista, a culpa e o sofrimento redimem, e o presidente refletia tudo isso: 
Culpa, sofrimento e redenção! 

Justamente o que falta a presidenta. Embora sua imagem tenha se solidificado em outro mito, o feminista, e o também ineditismo da eleição de uma mulher (assim como um operário), esse mito se mostrou mais fraco e suscetível ao assédio e corrosão que o de Lula, e o contraponto é, mais uma vez, a questão de classe.

Dilma, mulher e guerreira, sobrevivente da Ditadura é a lembrança de uma chaga que ainda está aberta nesse país, e isso a limita, sem que ela saiba disso, penso eu.

Dilma, a disciplinada técnica e gestora é, além de tudo mais, um deles, ou seja, compartilha com os "companheiros" a mesma origem, os bancos das universidades e os gostos e éticas da classe média abastada, e que se julga culturalmente superior.

Aqui está, em minha leiga opinião, a chave para entender a dificuldade dos "companheiros" em lidar com a presidenta e unir esforços em torno do projeto de continuidade que ela representa. Conscientes ou não disso, os "companheiros" enxergam na presidenta uma "igual", com as mesmas origens e que não receberá nenhuma "reverência religiosa" na ação política.

Se por um lado, essa postura fortalece os laços da disputa política, e nos obriga a enxergar a realidade por filtros "menos simbólicos", por outro, esvai a necessária hierarquia e autoridade para dirimir conflitos que parecem intermináveis, e que estão a empacar os avanços necessários, além de recriar o fantasma do retorno do "mito".

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