domingo, 12 de junho de 2011

Adios Nonino - Astor Piazzolla



Hoje à tarde, no aconchego desse friozinho que engorda, assistia TV, e ao ouvir alguém cantar New York, New York, enquanto as imagens passeavam por Times Square, tive a exata noção de como funciona o processo de sobreposição de valores culturais de algumas sociedades sobre outras, normalmente, mediados pela supremacia econômica.
Só a ociosidade leviana dominical nos permite isso.

Não se trata de xenofobia, mas todo mundo que bebeu o caldo hollywoodiano, que ora nos foi empurrado goela adentro, que ora tomamos, macunaimicamente, com gosto, conhece Times Square e outras paisagens estadunidenses sem nunca ter estado lá.
Bom, isso acontece com algumas paisagens francesas também.
Isso não é de todo mal, mas o problema é que esse profundo apego a eles, nos faz desapegar de nós mesmos, e de nossos vizinhos.
Perguntei a minha filha se ela sabia o porquê do nome, e ela devolveu:

"Ih, papai, eu nem sei o porquê dos nomes das ruas de nossa cidade, qual a utilidade em saber sobre Times Square?"

Pelo jeito, ela entendeu um bocado de tudo, sem ter muita noção disso, mas por enquanto, só isso já basta.

Ponto para o universo familiar.

Me dei conta de que a gente é capaz de mobilizar as economias de uma vida (às vezes, com um crediário eterno) para uma viagem a capital do mundo, mas sequer espicha os olhos a São Paulo, ou Buenos Aires, ou se fazemos, é com desdém de "prêmio de consolação".

Como disse, não se trata se um apelo às raízes culturais latino-americanas, todas improváveis, ou um hino de farsesca tradição (como lembra Fred ZeroQuatro).

Mas nesses tempos onde o chique é ser colonizado por empresários e seu instinto bandeirante-desbravador, onde o educado, civilizado, moderno e de bom-tom é entregar nosso território em troca de miçangas, traquitanas e bugigangas, eu fico remoendo esses pensamentos, e me entristeço ao som do tango de Piazzolla.

Mais clichê, impossível, mas eu sempre soube que resistir está sempre fora de moda! E claro, cansa um bocado!

2 comentários:

Gustavo disse...

Douglas, é uma pena que o brasileiro não goste do rock em espanhol. Há um mundo por descobrir.

douglas da mata disse...

Pois é, Gustavo.

As possibilidades são múltiplas, o problema não é a mistura, mas o soterramento, o afogamento que algumas culturas (ou manifestações) patrocinam sobre outras.

Rock em espanhol, blues em hebraico, salsa em russo, samba em alemão.

A sutil diferença entre troca e dominação. Esse é o desafio.