sexta-feira, 27 de maio de 2011

Os germes da intolerância!

Hoje cedo, em debate com um comentarista, retruquei que esse blog não comenta o conteúdo de registros de ocorrência. No entanto, diante da repercussão na midia, e em diversos blogs, preferi analisar, tomando como referência não os envolvidos, mas os fatos em si, e seus desdobramentos para nossa sociedade.

Não, caro leitor, não sou santo. Possuo histórico de reações exacerbadas, e algumas desproporcionais, e justamente por isso, posso afirmar: Não valem à pena. Toma tempo precioso, provocam picos de estresse desconfortável, e quase sempre uma vergonha enorme, depois que a cabeça esfria.

Mas, por trás de toda ação humana individual, ainda que motivada por questões passionais e decisões pessoais, há, sim, um contexto sócio-cultural, questões de classe, enfim, um desdobramento público inevitável.

Todos esses ingredientes, ao invés de servirem como escusa para comportamentos mal-educados (em alguns casos, criminosos), deveriam nos orientar a reflexão, para descobrirmos que tipo de gente estamos nos tornando.

Convívio social pressupõe regras, tolerância e respeito pelo outro. Não é o que assistimos em nossa cidade, em duas situações onde o que prevaleceu foi a incapacidade de enxergar limite no exercício daquilo que cada parte considerava seu direito.

A corrosão do tecido social e das formas pacíficas de relacionamento são efeitos da individualização exagerada desses nossos tempos, da espetacularização dos conflitos e da banalização da violência, misturada com a histórica visão que distorce a clássica noção de que todos são iguais perante a lei(embora a cada qual, de forma isonômica, seja dado tratamento proporcional a sua condição)em uma configuração onde alguns são "mais iguais que outros".

Ao invés de tratarmos de forma desigual os desiguais, adotamos uma lógica que se apresenta duas faces, igualmente perversas: Dedicamos tratamento igual aos desiguais, de um lado, e damos tratamento desigual aos iguais, por outro lado.


Transformamos problemas aparentemente simples em conflitos onde é necessária a mediação da polícia, e dos órgãos judiciais.

É nesse caldo de cultura onde estamos cultivando nossos germes da intolerância.

Presente nas escolas, e nos vídeos de brigas e agressões entre alunos, nas agressões e ameaças de alunos com os professores e vice-versa, nas torcidas organizadas, nas redes sociais, nas residências com as mulheres como principais vítimas, nas intermináveis ações judiciais entre vizinhos, na violência do campo, e no altíssimo número de mortos por algum tipo de violência que contamos, ano a ano.

No caso específico, primeiro ponto importante é assimilar uma noção básica associada a cidadania e o direito de exercê-la, sob quaisquer prerrogativas ou funções:
Ninguém está acima da Lei.

O agente de trânsito, policial, ou agente de qualquer órgão de segurança e, ou fiscalizador, quando cumpre seu dever não pode extrapolar o que a lei lhe obriga.
Já parlamentares, médicos, promotores,  magistrados ou qualquer outro cidadão, em qualquer função, quando pretendem justificar seus atos pela sua condição pessoal ou necessidade, devem considerar se tais condutas encontram amparo legal.
O CTB não autoriza ninguém a conduzir veículos automotores sem o cinto de segurança e, ou sem outros itens obrigatórios, ou o veículo em condições, oua devida habilitação correspondente ao veículo que conduz.

Não há exceções, e ponto.

Dito isso, qualquer coisa que se afaste dessas premissas, como excesso de um agente de trânsito, ou escusas para o que não há, por parte de condutores, resulta no triste episódio que assistimos, e que nunca seria resolvido no meio da rua.

Se a agente de trânsito enxergou a infração, anote-se e pronto. Não deveria dar satisfação a ninguém, seja ele juiz, jesus cristo ou madonna. Quem discordar, pode e deve recorrer as juntas administrativas (JARIs), e contestar a sanção administrativa, e mais, se enxergou abuso, noticie o caso as autoridades, e em suma a Justiça.

Ahhh, a Justiça, que foi esquecida e pisoteada no evento.

De outro lado, se a agente de trânsito considerou ofensivas as palavras do condutor, deveria noticiar o fato aos seus superiores, e se encaminhar a Delegacia mais próxima para a comunicação, uma vez que o dado fundamental ela já possuía para o registro, a placa do veículo.

Mas qual nada, todos decidiram fazer "Justiça" com as próprias mãos, e todos com suas razões, espancaram a Justiça e perderam a razão.

Síndrome de tarzinha (físico de Tarzan e cérebro de galinha).

Já no caso do empresário e dos estudantes, fica claro que o ânimo pacificador só apareceu como estratégia para se livrar de um assédio maior da mídia, que na ocasião, foi envolvida pelo acesso de fúria injustificada do agressor, conforme pode-se ver no vídeo exibido nas TV e blogs.

Diante das câmaras e na Delegacia, pedidos de desculpas, rosto contrito, etc. Depois, nas redes sociais, a volta à carga, com muita "desposição".

Essa afirmação está embasada na própria afirmação do agressor, e que pude ler nesse texto no blog do Roberto Moraes, onde as animosidades continuam, e podem resultar em acontecimentos mais graves.

Nesse outro evento, novamente a percepção equivocada de ambos os lados do que entende por direito, e a forma de exercê-lo.

Manifestação e livre reunião em espaços públicos são garantias constitucionais, mas o seu exercício pressupõe certos requisitos para que não se instale desordem urbana, nem prejuízo de terceiros não envolvidos nos protestos.

É devida a comunicação ao policiamento ostensivo e aos órgãos de trânsito para definição de espaço, e interdição de vias. Não há como relativizar essa regra. Sobrepor nossa causa ao interesse coletivo, por imposição, é tão violento como os atos de violência contra os quais se protestava.

Por outro lado, não cabe a nenhum mentecapto vestir-se do papel de super-homem, e tentar remover do seu caminho os manifestantes, quer seja por atropelamento, ou à socos e tapas. Aí estão os agentes da lei para tanto, e que para tanto devem ser acionados.

Qualquer outro dano material ou lesão a direito  de que fosse vítima deveria ser noticiada a polícia, e após as investigações, acionada a Justiça para as devidas reparações/punições.

No entanto, a overdose de testosterona afogou um cérebro que, a julgar pelos convites para um "duelo", não serve para muita coisa, e foi o que se viu.

Ultimamente, uso demais essa frase: É um mundo esquisito, em tempos estranhos...

5 comentários:

Roberto Moraes disse...

Caro Douglas,

Muita boa a sua reflexão sobre os episódios. Lúcida e transparente ao expor suas próprias experiências.

Penso que assim, a Rede Blog ajuda sobremaneira, na busca por uma sociedade melhor, por mais estranhos que sejam estes "novos" tempos.

Abs.

douglas da mata disse...

Roberto,

Grato pelas observações.

Um abraço.

Anônimo disse...

Aqui nessa plaga campistense acontece de tudo ! O povo daqui é ignorante, tosco, bruto, implicante, maldoso e mau pagador. Nada do que foi colocado aqui causa espanto, muito pelo contrário, estou vivendo aqui a 11 anos e sei do que o zé povinho daqui é capaz. Desde escarrar nas ruas e calçadas, promover badernas com som em último volume, avançar sinal vermelho, xingar pessoas de cabrunco e lamparão, buzinar até mesmo em frente aos hospitais, andar SEMPRE fora da lei (placas de outros estados, faróis azuis de xenônio, INSULFILM no para brisas do carro, etc), dar cheques sem fundo, aplicar golpes na praça, desviar dinheiro público, construir sem licença da prefeitura, abrir comércios clandestinos, jogar lixo (muito lixo) nas ruas e terrenos baldios, apurrinhar a vizinhança, furar filas nos bancos, tudo isso é comum aqui. Por isso repito: qual o espanto em ter um carinha com centenas de notas de dinheiro vivo dentro do carrinho e ter um juiz que manda e desmanda ? Qual a neura ? AQUI, Campos dos Goytacazes, manda quem não pode e obedece quem não tem juízo !

douglas da mata disse...

Caro comentarista,

Patrimonialismo, impunidade e desejo de levar vantagem a qualquer custo, expressos em ações de má educação, intolerância ou outras formas de infração a lei a as normas de boa convivência, não são uma exclusividade do campista.

Esse é um mal do país, incutido por suas elites, e praticado pela população em geral, mas que sofre censura e repressão diferente, sempre por um corte de classe.

Não acredito em determinismo geográfico para explicar nossos defeitos.

Todos os comportamentos descritos por você podem ser conferidos em várias cidades desse país, com desfechos até mais violentos, como espancar gays na Avenida Paulista, ou queimar índios em Brasília, ou assassinar ativistas na floresta amazônica.

Em todos esses tristes eventos estão os germes da intolerância, fermentados pelo vírus da impunidade, geralmente conferidos aos que têm dinheiro para bons advogados e bons "contatos".

Um abraço e grato pela participação.

Anônimo disse...

realmente, anonimo 9:40, somos tudo isso mas sabemos ler e escrevfer corretamente. Se vive HÁ DEZ ANOS na cidade, aproveite os nossos excelentes professores da língua portuguesa e talvez fique menos azedo...