domingo, 29 de maio de 2011

O cinismo como ferramenta política!

O assunto ainda é o kit anti-homofobia, que teve sua distribuição cassada pela presidenta, em um episódio no qual, mais uma vez, os subterrâneos da ação política privaram o contribuinte de saber os reais motivos das decisões de seus mandatários.

Quem conhece a presidenta sabe que ela nunca deixaria um tema de tamanha importância assumir as proporções que atingiu, para depois rifar seu ministro. Seu passado progressista e pela luta contra a violência e preconceito de gênero também não autorizam a acreditarmos no seu discurso que justificou o ato.

Assim sobram especulações, como "troca" para garantir a votação em matérias mais importantes, como o Código Florestal, ou para evitar mais desgaste do ministro pallocci. Só o tempo, talvez, nos dirá a verdade, mas aí, os estragos estarão feitos.
Tomara que não sejam irremediáveis. Na política, muito pouca coisa é, ainda bem.

Concordo com a posição do movimento GLBT em rechaçar a manobra, mas não cabe um afastamento do governo, nem estreitar posições. Resta entender o jogo, a sociedade brasileira, e não permitir que os homofóbicos hipócritas, e similares, ganhem mais espaço que já têm.

Esse é um alerta que esse blog já fez, e que esse blogueiro repetiu como mantra: A despeito dos mais de 50 milhões de votos, a agenda híbrida de conservadorismo patrimonialista e fanático-religiosa teve 44 milhões de votos. A votação da joana d'arc da floresta não foi um sopro de modernidade do eleitorado brasileiro, mas sim um retrocesso, que revelou que conforto econômico nem sempre rima com progressismo.

Os oportunistas de sempre, de olho na sedimentação de seu capital político na seara do fanatismo religioso, se apresentam como artífices do recuo da presidenta.

Pobres canalhas.


A moral duvidosa.

É devastador ler as manchetes garrafais de um jornal ordinário local, onde um político condenado por formação de quadrilha diz que não abre mão da moralidade.

O que é isso, peloamordedeus? Então moralidade se resume a opção sexual?

Quisera eu que todos os gestores e governantes professassem as mais estranhas fantasias sexuais e tratassem seus assuntos privados de forma mais indecente possível(desde que não sejam criminosas), mas tratassem a coisa pública de forma decente.
O que dizer dos manifestos irados pela "moralidade" e o fantasma do silêncio em relação As meninas de guarus?
Eu nem sou um neoudenista que prega a "moralidade" como pressuposto para agir na vida pública, todos sabem, embora, por outro lado, não defenda um vale-tudo.

Mas quando falam em moral e dinheiro público, nos dão o direito de resumir o debate a esse enfoque. E, por aí, eu diria: "não estão podendo..."

Eu nem vou falar da incoerência que praticam quando defendem a ingerência do Estado, com dinheiro público em assuntos privados (fé e religião), quando patrocinam o ensino religioso, festas religiosas, feriados religiosos, monumentos religiosos, e dizem que esse mesmo Erário não pode ser usado como "incentivador" de opções sexuais, porque são temas de esfera privada.

Também não vou repetir que vídeos ou exposição a mensagens em quaisquer outros meios não incitam comportamentos de forma decisiva, mas se for o caso, eu pergunto:

E as propagandas de cerveja? E as propagandas de veículos que associam a impossível combinação de velocidade e segurança? E o conteúdo de novelas, filmes e toda programação, sobre a qual a mídia rejeita qualquer discussão sobre classificação por faixa etária e horário? E os vídeo-games? E as propagandas que exploram a sexualidade da mulher, banalizando a erotização? E as mentiras pagas com dinheiro público nas propagandas de governos? E o estímulo(facilitação) a prostituição, com anúncios em classificados?

Bom, é claro que não somos censores, e que nem defendemos nem todo vídeo ou conteúdo vai determinar se uma criança vai se tornar um assassino, um abusador sexual, um alcóolatra, ou um mentiroso contumaz e afanador de dinheiro público.
Todos entendemos que há um conjunto de fatores, e que em suma, influenciam ou não as decisões de cada um, que vão da genética ao ambiente.
A informação deve fluir, por mais difícil que seja o tema, para que pais e famílias, junto com a Escola e outras esferas de convívio, possam debater os males e benefícios dessa ou daquela conduta. Pior que informação ruim é nenhuma informação, pelo menos é isso que professam os paladinos da livre expressão.

No entanto, no caso da escolha sexual, o debate está todo errado, pois parte-se da premissa que um comportamento é normal(heteroafetivo), e outro é uma aberração(homoafetivo). Não há um julgamento moral a ser feito sobre isso. 
Quando muito são diferentes, e podemos até dizer que a homoafetividade é minoritária, mas nunca vergonhosa. 
Se a sociedade assume que a heteroafetividade é "normal", ela diz que a homoafetivdade é "anormal", o que é errado e preconceituoso.

Se, enfim, definirmos que a escola é instância onde se deverá discutir temas relacionados à sexualidade, e isso é consenso, inclusive para prevenção e controle da saúde de jovens e crianças, para evitar, por exemplo, gravidez precoce, transmissão de DST, bem como estimular hábitos saudáveis, não haverá como fugir do fato que há jovens homoafetivos, e que têm direito a informação direcionada a sua condição no que for específico. Esse é o papel do Estado laico.

É claro que religiosos, e outras partes da sociedade têm o direito democrático de colocar suas restrições e pressionar, de forma legítima. Mas o limite para tanto é o direito de quem não é religioso, ou de quem não concorda com a mistura de Estado e religião, de ver no Estado uma ação que se distancie da agenda moral religiosa, que, ao longo da História, só trouxe, na maioria das vezes, mais violência, intolerância e segregação.

Agora, se os fundamentalistas da fé pretendem fazer um debate pontuado pela insanidade, eu só tenho a lamentar e sorrir quando assisto certos tipos falando de moral.

Mas eu creio que há gente séria e disposta a colocar esse debate nos eixos. Eu sou um otimista. Ainda que Dilma tenha ferido bastante minha crença em uma sociedade melhor.

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