terça-feira, 17 de maio de 2011

As falsas polêmicas à serviço da manipulação ideológica.

Desde que ouvi algo acerca dessa polêmica(falsa)dos livros didáticos, e supostos erros gramaticais, mantive aqui em casa um acalorado debate. Eis que, hoje, encontrei algo interessante no blog do Rodrigo Vianna, e compartilho com vocês:


Polêmica ou ignorância? Discussão sobre livro didático só revela ignorância da grande imprensa
Por Marcos Bagno*, em seu site

Para surpresa de ninguém, a coisa se repetiu. A grande imprensa brasileira mais uma vez exibiu sua ampla e larga ignorância a respeito do que se faz hoje no mundo acadêmico e no universo da educação no campo do ensino de língua.
Jornalistas desinformados abrem um livro didático, leem metade de meia páginae saem falando coisas que depõem sempre muito mais contra eles mesmos doque eles mesmos pensam (se é que pensam nisso, prepotentemente convencidos que são, quase todos, de que detêm o absoluto poder da informação).
Polêmica? Por que polêmica, meus senhores e minhas senhoras? Já faz mais de quinze anos que os livros didáticos de língua portuguesa disponíveis no mercado e avaliados e aprovados pelo Ministério da Educação abordam o tema da variação linguística e do seu tratamento em sala de aula. Não é coisa de petista, fiquem tranquilas senhoras comentaristas políticas da televisão brasileira e seus colegas explanadores do óbvio.
Já no governo FHC, sob a gestão do ministro Paulo Renato, os livros didáticos de português avaliados pelo MEC começavam a abordar os fenômenos da variação linguística, o caráter inevitavelmente heterogêneo de qualquer língua viva falada no mundo, a mudança irreprimível que transformou, tem transformado, transforma e transformará qualquer idioma usado por uma comunidade humana. Somente com uma abordagem assim as alunas e os alunos provenientes das chamadas “classes populares” poderão se reconhecer no material didático e não se sentir alvo de zombaria e preconceito. E, é claro, com a chegada ao magistério de docentes provenientes cada vez mais dessas mesmas “classes populares”, esses mesmos profissionais entenderão que seu modo de falar, e o de seus aprendizes, não é feio, nem errado, nem tosco, é apenas uma língua diferente daquela – devidamente fossilizada e conservada em formol – que a tradição normativa tenta preservar a ferro e fogo, principalmente nos últimos tempos, com a chegada aos novos meios de comunicação de pseudoespecialistas que, amparados em tecnologias inovadoras, tentam vender um peixe gramatiqueiro para lá de podre.
Enquanto não se reconhecer a especificidade do português brasileiro dentro do conjunto de línguas derivadas do português quinhentista transplantados para as colônias, enquanto não se reconhecer que o português brasileiro é uma língua em si, com gramática própria, diferente da do português europeu, teremos de conviver com essas situações no mínimo patéticas.
A principal característica dos discursos marcadamente ideologizados (sejam eles da direita ou da esquerda) é a impossibilidade de ver as coisas em perspectiva contínua, em redes complexas de elementos que se cruzam e entrecruzam, em ciclos constantes.
Nesses discursos só existe o preto e o branco, o masculino e o feminino, o mocinho e o bandido, o certo e o errado e por aí vai.
Darwin nunca disse em nenhum lugar de seus escritos que “o homem vem do macaco”. Ele disse, sim, que humanos e demais primatas deviam ter se originado de um ancestral comum. Mas essa visão mais sofisticada não interessava ao fundamentalismo religioso que precisava de um lema distorcido como “o homem vem do macaco” para empreender sua campanha obscurantista, que permanece em voga até hoje (inclusive no discurso da candidata azul disfarçada de verde à presidência da República no ano passado).
Da mesma forma, nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais disse ou escreveu que os estudantes usuários de variedades linguísticas mais distantes das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fechados em sua comunidade, em sua cultura e em sua língua. O que esses profissionais vêm tentando fazer as pessoas entenderem é que defender uma coisa não significa automaticamente combater a outra. Defender o respeito à variedade linguística dos estudantes não significa que não cabe à escola introduzi-los ao mundo da cultura letrada e aos discursos que ela aciona. Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem! Parece óbvio, mas é preciso repetir isso a todo momento.

Não é preciso ensinar nenhum brasileiro a dizer “isso é para mim tomar?”, porque essa regra gramatical (sim, caros leigos, é uma regra gramatical) já faz parte da língua materna de 99% dos nossos compatriotas. O que é preciso ensinar é a forma “isso é para eu tomar?”, porque ela não faz parte da gramática da maioria dos falantes de português brasileiro, mas por ainda servir de arame farpado entre os que falam “certo” e os que falam “errado”, é dever da escola apresentar essa outra regra aos alunos, de modo que eles – se julgarem pertinente, adequado e necessário – possam vir a usá-la TAMBÉM. O problema da ideologia purista é esse também. Seus defensores não conseguem admitir que tanto faz dizer assisti o filme quanto assiti ao filme, que a palavra óculos pode ser usada tanto no singular (o óculos, como dizem 101% dos brasileiros) quanto no plural (os óculos, como dizem dois ou três gatos pingados).
O mais divertido (para mim, pelo menos, talvez por um pouco de masoquismo) é ver os mesmos defensores da suposta “língua certa”, no exato momento em que defendem, empregar regras linguísticas que a tradição normativa que eles acham que defendem rejeitaria imediatamente. Pois ontem, vendo o Jornal das Dez, da GloboNews, ouvi da boca do sr. Carlos Monforte essa deliciosa pergunta: “Como é que fica então as concordâncias?”. Ora, sr. Monforte, eu lhe devolvo a pergunta: “E as concordâncias, como é que ficam então?
*Marcos Bagnos é escritor, linguista e professor da Universidade de Brasília

3 comentários:

Reflexões disse...

Douglas, oriunda de uma família de professores e professora também, mas sobretudo no papel de mamãe, em que não basta vc escolher a escola onde seu filho vai estudar, mas também saber o método que eles adotam e a minha filha mais nova foi matriculada numa escola construtivista aqui em Campos qdo pra cá migrei. Matriculei na alfabetização, logo perceberam que ela estava alfabetizada, foi para a segunda série onde encontrou uma professora especialista no método e, na terceira não teve o mesmo sucesso na professora designada para a turma.

Nesta época bastava o aluno saber se expressar para se considerar o aluno alfabetizado. Poderia escrever da forma como quisesse. Deu pra vc entender o que ele escreveu? Ótimo!

Porém ela vinha de uma escola que adotava o método tradicionalista e, como foi na época daquela campanha de vacinação para meningite, ela passou uns maus bocados na escola e com aquilo, eu no ano seguinte a transferi de escola. Foi para uma tradicional da mesma forma que havia sido sua alfabetização.

Tenho certeza que se a "tia" da segunda série fosse a mesma da terceira o sucesso do método seria outro.

O construtivismo é baseado em estudos de Piaget, mas não é um método de Piaget e nem é o método de uma aluna dele quem desenvolveu, outros especialistas é que vieram desenvolvendo o construtivismo.

E, isto dá uma pluralidade mto grande de discussões sobre letramento e alfabetização, de métodos de ensino variados, que pode ser resumida num pensamento de Freire: (...) A leitura de mundo precede a leitura da palavra, (...) a leitura da palavra não é apenas precedida pela leitura do mundo mas por uma certa forma de “escrevê-lo” ou de “reescrevê-lo”, quer dizer, de transformá-lo através de nossa prática consciente. (Freire, 1989: 11 e 20)

O livro para uma criança da cidade de Campos é o mesmo livro que deve ser adotado em terras indígenas?

Enfim, acho tudo que vem sendo dito a respeito e concordo em tudo com o que vc postou, porque é tudo muito precipitado, sem analisar de perto o embasamento teórico para a adoção de tais livros pelo MEC.

Excelente postagem a sua!

Roberto Torres disse...

É revoltante a simbiose de burrice e torpor moral da grande mídia com o seu público.

Nenhum esforco de considerar o estado da polêmica. A mídia reproduz a posicao de algumas figuroes da ABL com se fossem a palavra decisória sobre o tema.

Toda essa histeria, toda essa canaliche só fazem sentido porque mídia e seu público "culto" precisam defender com unhas e dentes a superioridade de sua norma culta como forma de preconceito de classe.

Alias, um melhor exemplo de como se luta para preservar o preconceito de classe nao poderia haver. A luta da mídia nao é para que os alunos aprendam a norma culta. A mídia ta cagando para estes alunos. Para Ali Kamel iriam denegrir o ensino superior.

A luta é para que nao possa ver a contingência da norma culta, para que nao se reconheca que os modos de falar desviantes da norma pertencem à língua. A luta é para que nao aprenda que é possível ter uma relacao distanciada (logo mais inteligente) com a norma culta, uma relacao onde a norma culta seja usada mais como forma universalizada de trato formal do que como critério aceito por todos de distincao social. O medo da mídia e de seu público é de que se aprenda a nao sentir vergonha de falar do modo como se aprendeu em casa, na norma popular.

No fundo tudo recai no critério arbitrário do gosto - que, obviamente, nao deve, segundo a mídia, ser visto como arbitrário -: "é feio usar a norma popular em público".

O probölema, na visao preconceituosa de classe representada na mídia,é o povo ter a liberdade de nao dar muita bola para este critério estético - sim estético, afinal que outra coisa é a norma culta?, sobre o pressuposto de dominá-lo para fins específicos.

um abraco

Anônimo disse...

Vejo os jornalistas assassinando a língua portuguesa culta o tempo todo.
Agora eles resolveram ser cultos e puristas, mas ainda assim, escorregam na concordância.
Confesso que tenho visto a Globo News convidar especialistas para atacar o governo com dureza, por causa dessa tal cartilha.
Em algum momento esses idiotas têm que se acalmar, por enquanto, ouçamos seus relinchados esbravejantes, eles só conseguem viver criticando.
São infelizes porque não conseguem exercer sua profissão dignamente. Só se especializaram em defender interesses politico-partidários.
Felizmente, têm algumas exceções.