segunda-feira, 18 de abril de 2011

Pequeno conto de lama!

Havia um certo quê de desolamento no olhar que ela via no espelho do quarto.
Era sua imagem em fractais como os pedaços trincados do vidro que refletia a si, esquartejada, partida, quebrada.
Enquanto ouvia a aproximação das sirenes, em meio ao móveis destruídos, todos os sinais de luta corporal, e o corpo de seu namorado que jazia, inerte, em uma poça de sangue, que escorria da cabeça fraturada pelo peso de um velho candelabro, imaginava e repensava, procurando descobrir como reagiu assim.

Faziam amor, e de repente, sentiu-se traindo a si mesma, como se pudesse haver consentimento no estupro, como se fosse violada pela lembrança do verdadeiro amor que a abandonara. Não havia consolo naquela selvageria, e por isso, conscientemente, gritou o nome do outro.
Como se quisesse punir alguém pelo fato de que fora rejeitada, mas no fim, era uma auto-flagelação, a dois, pois ele também já desconfiava que ela não lhe era fiel. Não nos atos, mas no íntimo de seus pensamentos.

Assim, pelo menos, pensava ela, a culpa não lhe pesava mais que o necessário.

Mas embora aquele "exorcismo" fosse "um jogo a dois", "uma estranha dança", o resultado daquele ato de infidelidade (aquele grito) foi devastador. Não se lembra a fronteira que cruzou do sexo a violência, e da violência à morte. Seu corpo doía, mas sua alma doia mais.

No entanto, quando perguntada na Delegacia o motivo de tudo aquilo, ainda que a comoção popular inferisse algum tipo de loucura, ou de sentimentos menores, como egoísmo, ela repetia, como se quisesse convencer a si mesma:
Foi tudo por amor!

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