segunda-feira, 18 de abril de 2011

Embriagada pelo cinismo, a mídia e a sociedade enxergam tudo dobrado: Dois pesos e duas medidas!

O episódio onde o ex-governador mineiro, senador do psdb, e prócer da oposição, foi apanhado na direção de seu veículo, com a CNH vencida, em aparente estado que sugerisse a ingestão de álcool, e sua recusa em realizar os exames no etilômetro dos agentes de trânsito é pedagógico.

O senador, embora tenha se apressado em legitimar a ação dos policiais, foi tímido na sua explicação, temendo a óbvia exploração da mídia (principalmente aquela que está com a coleira nas mãos de seu arquinimigo serra), como vem acontecendo, pois faltou dizer o óbvio:

Era necessário dizer a população que sua recusa não tem nada a ver com sua posição, ou cargo, mas uma faculdade que a lei possibilita a quem é instado a fazer tal exame, calcado em um princípio claro: Ninguém é obrigado a fazer prova contra si mesmo.

Faltou dizer, que sua postura individual de defesa, em nada se relaciona com seu reconhecimento público, vinculado aí sim, a sua imagem pública, de que MOTORISTAS NÃO DEVEM BEBER E DIRIGIR.

A mídia também não dirá isso, pelos motivos óbvios e outros, nem tanto assim.

Dói e incomoda trazer a reflexão que, embora esse princípio de não provocar prova em desfavor próprio esteja correto, a impossibilidade de que outros meios de prova sejam considerados, como o exame clínico e o testemunho de agentes e outras pessoas envolvidas, consagram a visão de nossa sociedade que a propriedade de um carro nos dá imunidade, e nos torna portadores de "direitos" que superam todos os direitos dos outros motoristas, e pior, dos que não têm carro (a imensa maioria), reafirmando nossa crença atávica de que o espaço privado (nesse caso, o carro) prepondera sobre o interesse público.

Eu, como policial civil, registro esse fatos, e fico indignado com o enorme número de casos onde mortes, lesões, danos ao patrimômio público e de terceiros que são trocados por fianças, e por sentenças generosas.

Ou seja, o amolecimento que a Lei Seca sofreu, desde que foi promulgada, com o rebaixamento de fianças, e com as exacerbação das garantias individuais, transformadas assim em bill de impunidade, é uma face da sociedade que consome carros e informação na grande mídia, e que detesta ser alvo de direitos, mas sempre reivindica privilégios. É comum a fala, no momento da prisão: "Ué, mas eu não sou bandido". Como se o fato da ausência de vida pregressa que o identifique como criminoso habitual (bandido) o isentasse de responder pelo crime que cometeu, ou merecesse um relaxamento no rigor da punição.

Aécio deve ser execrado pelo que fez, mas na mesma medida de todos nós, uma vez que os números das mortes em incidentes de trânsito provocadas ou relacionadas a ingestão de álcool (cerca de 60%), nos mostra que nesse caso, como em tantos outros, o senador é a cara do povo que representa.

Sua ação servirá a adversários, a críticos que não tem interesse direto em sua vida política, enfim,  a um bocado de gente, mas temo que todos estarão embriagados pela hipocrisia, e o queimarão em praça pública pelos motivos errados.


PS: Essa lógica de punir da nossa sociedade, me remete a um raciocínio meio louco, calcado em uma dúvida cruel: 
Por que, ainda que seja muito mais comum (estatisticamente falando) que pessoas, ditas "de bem", matem outras pessoas "comuns" com seus carros, quando os dirigem, embriagadas, tais autores sejam punidos de forma mais branda, enquanto outros que matem para roubar, ou ainda roubem e não matem, ou cometam outros crimes patrimoniais de menor gravidade proporcional  entre si(como furtos), tanto pelo resultado, quanto pela ameaça a paz social, sejam punidos de forma mais severa, embora, estatisticamente, as mortes relacionadas a esses crimes aconteçam de forma muito menor aos crimes relacionados ao trânsito?
Eu temo que o fato se dá pelo senso de autopreservação que têm as pessoas ditas "de bem" (senadores, juízes, promotores, policiais, médicos, professores, etc, etc, etc), ou seja: Não posso cobrar punição rigorosa para um crime que eu posso cometer também, e que é tão ou mais grave que os crimes para os quais eu exijo punição rigorosíssima.
Essa constatação se reúne a outra desastrosa: Nesse país, a propriedade prevalece SEMPRE sobre a vida, seja para punir quem mata quando ameaça a propriedade alheia, seja para não punir quem mata com sua propriedade (o carro).


Em suma: Nos olho dos outros, é sempre refresco!

8 comentários:

Marcelo Bessa disse...

O fato é mesmo absurdo, Douglas.

Anônimo disse...

De quem sera a Land Rover ? Pois nao consta na declaraçao de bens do senador.

http://divulgacand2010.tse.jus.br/divulgacand2010/jsp/abrirTelaDetalheCandidato.action?sqCand=130000000952&sgUe=MG

Na mesma declaraçao consta um apartamento numa area nobre do RJ comprado por 109.000, preço de um ap. pequeno no Flamboyant.

Roberto Torres disse...

Perfeita a análise meu caro.

O que a sociedade, para além do que está escrito como Lei, considera como crime?

douglas da mata disse...

Senhores, grato pelos comentários.

douglas da mata disse...

Ê, Roberto, gostei da nova foto, muiiiito melhor!

Ava disse...

Primeira análise coerente de uma fato que só tomou a proporção que tomou, porque há tantos falsos paladinos da moral, da ética e dos bons costumes ávidos por um Boi de Piranha...

Beijos, moço....

Ava disse...

Posso publicar seu link no Facebook?


Beijos

douglas da mata disse...

Ave, ó Ava,

Prazer ter você conosco. Claro que pode publicar o link, mas cuidado, pois podem te acusar de "traficar" informação ruim.

Beijos.