quinta-feira, 14 de abril de 2011

Capiaus ou Hommer Simpson?

No título, duas definições de dois expoentes do conservadorsimo brasileiro sobre nossa alma: O príncipe e o porta-voz do patrão, ffhhcc e william "pit" bonner, respectivamente. Nas abissais diferenças entre a sociologia e o púlpito global, o ponto em comum que os une: A indiferença e o escárnio pelo povo brasileiro.

No texto que copiamos do blog do Azenha, uma reflexão sobre esse tema:


14 de abril de 2011 às 12:57

Mauro Santayana: Para FHC, somos todos “capiaus”

O desprezo pelos pobres
por Mauro Santayana, no JB, via Conversa Afiada
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é um dos brasileiros mais bem sucedidos de sua geração. A natureza e o lar concederam-lhe inteligência que boas escolas e um grande mestre da sociologia, Florestan Fernandes, aprimoraram. Filho de  honrado chefe militar, que a memória nacional respeita, Fernando viveu uma juventude favorecida. Mas parece não ter aprendido muito com o pai que, tendo acompanhado de perto a ascensão do nazismo, optara pelo lado esquerdo da estrada. Muito cedo, a sua elegância verbal conquistava os interlocutores. Jânio Quadros de tal maneira ficou fascinado pelo jovem sociólogo que incumbiu José Aparecido de  convida-lo para o Conselho Nacional de Economia, então o mais importante órgão consultivo do governo. Anos depois, com sua língua afiada, Aparecido explicava por que Fernando Henrique declinara do convite: “era muito pouco para ele”.
É provável que, com sua astúcia,  tenha pressentido a brevidade do histriônico arrivista, e, precavido, preservado o  futuro. Em uma coisa, todos os que convivem mais de perto com o ex-presidente, concordam: sua postura, onde quer que esteja, é a de um chefe. Ele não conversa: expõe; não pergunta: adianta sua posição sobre o tema em pauta. É, sempre, o professor e o líder. É difícil imagina-lo apenas aluno. Não nasceu para aprender, mas, sim, para ensinar.
Lembro-me da confidência que me fez, certa vez, o grande  Josafá Marinho: Fernando só aparecia no plenário do Senado por alguns minutos, para justificar a presença. Não tinha paciência para ouvir seus pares. Na realidade só ouvia um único orador, com atenção: ele mesmo. Não obstante, quando estava inscrito, mandava avisar a todos os senadores, para que o fossem ouvir.
A sorte o levara ao Senado, como suplente de Franco Montoro – que, ao eleger-se governador, deixou vaga a cadeira. A mesma sorte o ungiu, quando o presidente Itamar Franco, ao descuidar-se da velha cautela montanhesa, escolheu-o como sucessor. Na presidência, confirmou a sua personalidade. Várias vezes demonstrou  desapego ao povo brasileiro. Transferiu para as massas o  próprio sentimento, ao qualificar o brasileiro comum como fascinado pelo estrangeiro e, surpreendeu a intelligentsia nacional, ao citar Weber e estabelecer uma ética particular para os governantes. Fomos, para ele, um povo de capiaus, o que levou Jô Soares a apresentar-se em seu talk-show, no dia seguinte, de chapéu de palha. Mesmo  aposentado compulsoriamente antes dos 40, classificou como vagabundos os aposentados por tempo de serviço.
Suas atividades não são as de um ex-presidente. Ele quer liderar a oposição. É assim que já emitiu várias encíclicas, como a última, em que aconselha a esquecer o povão e investir na classe média. Como se os setores conscientes da classe média, que influem, pudessem se esquecer do desemprego, das privatizações, e da humilhação diante do FMI. Os pobres, ele pontifica, já foram “comprados” pela política assistencialista do governo, e serão fiéis à sucessora de Lula, por isso não merecem atenção, nem cuidados.
Falta-lhe a capacidade de ver o Brasil como um todo, o que é comum a muitos políticos de São Paulo. O Brasil que eles conhecem não vai além da periferia da grande cidade, que, a contragosto, visitam em vésperas eleitorais.
Ninguém deve estranhar a posição do ex-presidente. Ele mantém a sua coerência. A oposição, de resto moderada, que fez ao regime militar, era a de um homem cheio de talentos, que o golpe enviara para o exílio. Para ele, as circunstâncias especiais que o conduziram à Chefia do Estado eram naturais: naquele momento, e em seu próprio juízo, Itamar não poderia encontrar outro. Ele era o príncipe. Não devia ao mineiro a indicação. Devia-a ao seu auto-avaliado saber, que ele quer usar hoje para, sem mandato, liderar a oposição. Resta saber se se curvarão diante de sua grandeza.

7 comentários:

Roberto Torres disse...

Perfeito, mas como disse o grande Mauro, Fernando está sendo coerente.

E também pragmático: à oposicao só resta mesmo disputar a classe média (um terreno cindido em várias orientacoes).

O problema é que grande parte dos recem chegados a este "milieu" se identificam muito, mais muito com o povao, inclusive em posicoes conservadoras.

Se Fernando pautar quiser oposicao desse jeito, vida longa a ao professor!

douglas da mata disse...

Eu acho que esse é o problema, Roberto.

Ninguém conseguiu ainda definir o perfil dessa "nova classe trabalhadora", recém saída da "ralé estrutural", assunto o qual você e seu orientador dominam.

Mas as eleições recentes (44 milhões de votos no serra, com 95% aprovação do Lula), e outros debates acerca da agenda "moral" do país, como aborto, união civil homoafetiva, revisão da lei de anistia, políticas afirmativas, e etc, nos dão a impressão que a "modernidade" e o conforto econômicos avançam, mas o senso político tende a repetir os conceitos da "velha classe média" e do status quo.

Eu acho que ffhhcc acertou em colocar essa questão como ponto de disputa, afinal a classe C já conta com quase 60% da população, e com viés de aumentar.

Mas daí a pretender que o psdb tenha estofo político para conquistar esse eleitorado tem uma distância enorme.

No entanto, precisamos ficar alertas, inclusive com certos setores de nossa base, que estão cedendo a tentação de estreitar o debate em algumas questões, e acendendo a disputa política dentro do governo com posições simplistas. Como se fosse possível ter tudoaomesmotempoagora.

Um abraço.

Roberto Torres disse...

É verdade Douglas, precisamos ficar alertas.

Se tem uma coisa que aprendemos na pesquisa com a "nova classe trabalhadora" é:

1) O conversadorismo em termos de questoes como aborto, casamento homoafetivo etc. é uma tendência, inclusive reforcada pela intensa vida religiosa. Nada de novo nisso.

2) Mas este conservadorismo nao se traduz necessariamente para o campo da visao de Estado e de economia. Nao sao liberais alucinados. Sao simpáticos às políticas redistributivas. E, ai é achismo meu, possuem uma demanda objetiva por servicos, que se o Estado puder atender em alguma medida isso poderia alterar o rumo do imaginário político em prol de um interesse concreto na república. Tem muita contingência ai.
Mente quem diz, como o sociólogo Rudá Ricci, que esta classe É conservadora. Ora, as classes sao construídas, sobretudo pelas relacoes mantidas com as outras classes, com o Estado, com a mídia.

douglas da mata disse...

Roberto,

Lá no blog do Azenha, onde retirei o texto e comentei, falei sobre isso:

Esse conservadorismo da classe C é mediado por uma demanda de proteção do Estado e seus serviços.

Como entram para o "jogo", começam a se enxergar como atores sociais, e reivindicam aquilo que só recebiam como favores.

Ou seja: muda a postura em relação a apresentação de demandas, do pólo passivo para o pró-ativo.

Essas pessoas começam a freqüentar rodoviárias, aeroportos, exigem mais das escolas para seus filhos, disputam espaço nas ruas, no transporte público, etc.

É um trabalho árduo, mas você diagnosticou perfeitamente: As classes são uma construção essencialmente política, embora o corte seja econômico.

Um abraço.

Roberto Torres disse...

Voce conhece os recortes de classe das pesquisas de simpatia partidária?

Será que já foi feita alguma pegando especificamente a classe C?

douglas da mata disse...

Não conheço,

Está aí boa pauta para uma pesquisa, rs!

Mãos à obra, doutores, rsrs!

Anônimo disse...

Parabens pela iniciativa. É um belo texto do Mauro Santayana, que depois reli no blog dele, que eu não conhecia - www.maurosantayana.com