quinta-feira, 31 de março de 2011

Previsão mais que previsível.

Dias atrás, publicamos aqui um texto (Desenvolvimento econômico e efeitos colaterais), e relacionamos os fatos acontecidos em Rondônia, região Norte do país, onde trabalhadores da empresa responsável por uma das maiores obras do PAC, a hidroelétrica de Jirau, cruzaram os braços e promoveram um verdadeiro motim, com a construção do porto do Açu.

Falávamos da necessidade de um acompanhamento mais acurado da fiscalização do Ministério do Trabalho, dos governos que alocam uma soma (direta ou indireta) de recursos públicos no empreendimento e da sociedade em geral.

Logo depois, estourou a greve dos trabalhadores do Açu, e soubemos que boa parte deles ganha menos de dois salários mínimos.

Não precisa ser adivinho para saber que esse tipo de relação capital e trabalho traz ônus não só para os operários, mas para as comunidades do entorno desses empreendimentos, uma vez que essa enorme mão-de-obra não tem a menor perspectiva de participar do "prometido" ciclo de riqueza que virá a seguir.

Assim, sobrará para os governos e para as sociedades locais a incorporação, nem sempre tranqüila, desse contingente de pessoas, que pressionarão o já cambaleante sistema de políticas públicas de atendimento (saúde, saneamento, habitação, segurança, educação, etc).

Mas o problema já começou, e já revelou o que sempre sabemos: Enormes lucros privados significam quase sempre enorme prejuízo social.

2 comentários:

Marcos Valerio disse...

Tá vendo aquele edifício moço
Ajudei a levantar
Foi um tempo de aflição
Eram quatro condução
Duas prá ir, duas prá voltar
Hoje depois dele pronto
Olho prá cima e fico tonto
Mas me vem um cidadão
E me diz desconfiado
"Tu tá aí admirado?
Ou tá querendo roubar?"
Meu domingo tá perdido
Vou prá casa entristecido
Dá vontade de beber
E prá aumentar meu tédio
Eu nem posso olhar pro prédio
Que eu ajudei a fazer...

Tá vendo aquele colégio moço
Eu também trabalhei lá
Lá eu quase me arrebento
Fiz a massa, pus cimento
Ajudei a rebocar
Minha filha inocente
Vem prá mim toda contente
"Pai vou me matricular"
Mas me diz um cidadão:
"Criança de pé no chão
Aqui não pode estudar"
Essa dor doeu mais forte
Por que é que eu deixei o norte
Eu me pus a me dizer
Lá a seca castigava
Mas o pouco que eu plantava
Tinha direito a comer...

Tá vendo aquela igreja moço
Onde o padre diz amém
Pus o sino e o badalo
Enchi minha mão de calo
Lá eu trabalhei também
Lá foi que valeu a pena
Tem quermesse, tem novena
E o padre me deixa entrar
Foi lá que Cristo me disse:
"Rapaz deixe de tolice
Não se deixe amedrontar
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio, fiz a serra
Não deixei nada faltar
Hoje o homem criou asa
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio, fiz a serra
Não deixei nada faltar
Hoje o homem criou asas
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar"

douglas da mata disse...

Bela lembrança, Marcos, bela e triste lembrança.

Um abraço.