segunda-feira, 14 de março de 2011

Pequeno conto de lama.

Bilhete.

Desde que ficaram juntos pela primeira vez, e isso já faz 12 anos, ela sempre lhe deixou bilhetes espalhados pela casa, com recadinhos amorosos, broncas, reclamações, desabafos, enfim. Tempos felizes. Quando chegava a hora, e nunca houve um tempo certo, mas sempre havia um tempo, eles liam os bilhetes juntos, discutiam, concordavam, brigavam, reconciliavam, se odiavam, e de novo, se amavam.
No início, os bilhetes diminuíram, sem que ninguém se desse conta. Os tempos mudaram, e não havia mais tempo para bilhetes. Um dia os tempos da felicidade e dos bilhetes acabaram. Era tanta coisa, reuniões de trabalho, reuniões de pais e mestres, reuniões de condomínio, jantar de negócios, almoços de cortesia, consultas, academia, ufa. Ninguém teve tempo de perceber.
Houve um dia que em cima da cômoda havia um bilhete no envelope. Como o tempo corria, colocou o envelope na pasta e correu mais um dia todo atrás do tempo.
Quando chegou em casa, à noite, ela não estava. Lembrou do bilhete. Abriu e leu. Mas já era tarde. Não havia mais tempo: Era um bilhete de despedida, uma nota de suicidio!

PS: Mas nós ainda temos tempo para ler o que dizia o bilhete, e estava escrito mais ou menos assim:

Se você me matou
dentro de você
Não há mais sentido em viver
em nenhum outro lugar!

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