sábado, 26 de março de 2011

"(...) esse papo tá pr'á lá de Teerã!"

Um debate interessante se instalou em alguns blogs, acerca do voto brasileiro na ONU, para que seja designado um relator especial para apurar possíveis violações de direitos humanos naquele país.

Tem opinião para todo gosto, e então, aqui vai a minha.

Há os que enxergaram na atitude da diplomacia brasileira uma ruptura com os princípios da era Lula. Dentre esses, os que comemoram, como se isso fosse o prenúncio de uma ruptura política (improvável), e outros que vociferam, como se tratasse de uma traição, uma inflexão à direita e submissão a Casa (grande) Branca, onde o ponto em comum entre ambos os pontos de vista é que Dilma e sua diplomacia rompem com o passado recente.

Primeiro é bom que se diga: No que tange os direitos humanos, e desde que essa noção foi sistematizada em um compêndio universal de direitos em 1948 (Declaração Universal de DH, em dezembro desse ano), quer dizer, junto com a idéia de um organismo multilateral de dissolução de conflitos e formação de consensos sobre vários temas, a ONU, a única universalidade que alcançamos foi a sua violação, ou seja, todos os países, dos mais ricos aos mais pobres têm problemas com a preservação da dignidade humana, quer seja entre os seus, quer seja na forma de xenofobia e preconceitos contra imigrantes e estrangeiros, ou em alguns casos nas duas direções: interna e externamente!

Outro aspecto importante para qualquer análise é afastarmos a ingenuidade de uns e o cinimso de outros tantos: A ONU, como qualquer órgão, ou instância de resoluções é um instrumento político, e como tal, reflete, para o bem ou para o mal, os eixos de poder hegemônico que se espalham pelo globo, junto com diversos outros interesses que os manipulam.
Enxergar isso é fundamental para entendermos um pouco mais do assunto.

A decisão do Brasil em relação a ONU não foi uma volta ao passado(vergonhoso, com lampréia e os chicago boys da octaéride fernandista), nem muito menos uma traição ao legado de Celso Amorim e Lula.

Podemos, grosso modo, dizer que nossa diplomacia enfrenta agora as conseqüências do seu sucesso anterior, bem como do deslocamento dos eixos decisórios para a parte periferia-sul do planeta. Isso não significa afirmar que o G8 deixou de ter influência e poder, de fato e de direito. Ainda estão lá os maiores arsenais e com eles, o poder de pressão e disuassão.
Mas é público e notório que o PIB mundial vai se deslocando, aos poucos, mas de forma irreversível para o lado até então mais pobre, o que aguça conflitos, mas oferece oportunidades, destaque e  possibilidades de rearrumação do jogo político internacional.

Assim, a diplomacia da era Lula fez o que lhe cabia: Demarcou com tintas fortes a postura de não-alinhamento, repercutiu nossa condição e relevância regional na América do Sul, e privilegiou uma agenda muito mais diversificada de negociações e apoio político internacional, que foi providencial, principalmente, quando os ricos quebraram, e pudemos superar, sem grandes dificuldades, a crise de 2008-2009, que ainda faz estragos enormes nas economias desses países com os quais mantínhamos uma relação quase de colônia e metrópole.

Hoje, depois de cumprida essa tarefa, nossa diplomacia avança para o próximo passo estratégico: Consolidar nossa posição na ONU, e forçar uma recuperação da credibilidade daquele organismo, afastando a instrumentalização política calcada na hipocrisia e no pragmatismo cínico, que tem nos EEUU, seu maior patrocinador quando prega a repressão daquilo que pratica em casa, e nas suas "colônias de petróleo".

E por que fazem isso nosso diplomatas? Um palpite. A última vez na História que houve uma crise econômica de proporções mundiais, com deslocamento do poder hegemônico da Inglaterra e França, para EEUU e Alemanha, junto com Japão, e uma corrida para deter as fontes de produção de energia, a Humanidade mergulhou na Segunda Guerra Mundial. A História não se repete, sabemos todos, a não ser em tragédias piores.
O assédio permanente da política externa dos EEUU sobre o Oriente Médio, o apoio insandecido a Israel e o encurralamento de Teerã podem trazer conseqüências desastrosas e dolorosas. O Brasil, ciente de seu papel, e suas tradições, caminha passo à passo para se legitimar como um dos árbitros internacionais desse e de outros conflitos, sempre acreditando que o pior diálogo é sempre melhor que a mais justa guerra!

Cabe nessa análise um detalhe fundamental: A postura mais firme em relação a esse caso iraniano, é uma sinalização da presidenta que não tolerará relativismos em relação ao tema, ou melhor: Como mulher, e torturada, vai praticar lá fora o que não permitirá aqui dentro, dando uma pista clara que o processo de apuração dos crimes de lesa-humanidade e o direito de conhecimento da verdade dos fatos acontecidos nos porões da ditadura não ficará mais inerte. Dilma, seu modo, rompe a última cidadela conservadora, que alardaeava nossa posição dúbia em relação a essa violações estrangeiras,  como Cuba, Irã, dentre os alvos preferidos dos conservadores, como impedimento moral para apurarmos as nossa violações passadas e as atuais.

Enfim, é bom dizer que mantendo esses princípios, a política externa obedece a uma lógica estratificada, onde boa parte das informações estratégicas são sigilosas, e cada caso é um caso.

Desse jeito, é recomendada a prudência aos dois extremos: Os ultra-conservadores e os ultra-esquerdistas, que nesse caso, como em outros tantos, vão tão longe nas suas divagações que acabam por se tocar!

Por derradeiro, recomendo a leitura do texto:

A última defesa de Dilma


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