quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O faroeste caboclo fluminense!

Tenho evitado emitir opiniões acerca dos úlitmos acontecimentos que atingiram a cúpula da Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro.

Por motivos óbvios:
A liberdade de expressão não é cultivada, a não ser no elogio fácil e bajulador!
Outro motivo é que o debate sobre o tema sempre esbarra nas simplificações e lugares-comum, geralmente, promovidos pela mídia.

É grave que se apresente a atual situação como um duelo entre mocinhos e bandidos. Ou como uma "crise", isolada e sazonal. O que ocorre é uma disputa de poder, antes de mais nada. O problema é perene e sistêmico.

Ela se arrasta desde há muito tempo, e de vez em quando, soluça em eventos dramáticos: A "invasão do Alemão" foi um deles, como já dissemos em outro texto. Agora, a operação Guilhotina, sugestivo nome para a degola de cabeças coroadas da Polícia Civil!

Chamada a intervir, a Polícia Federal, mais uma vez, nos dá nossa dose diária de crença no heroismo eficiente dos "homens de preto"!

Ledo engano. Essa instiuição policial também sofre dos mesmos males, e recentemente, experimentou como o poder político e econômico causam estragos, só que nesse caso, a escala do escândalo (devidamente abafado) estava alguns degraus acima na pirâmide social.

No caso do banqueiro Daniel Dantas, quem investigou foi punido e exilado, como os delegados Paulo Lacerda e Protógenes Queiroz, enquanto os aliados do banqueiro forneceram os argumentos para a defesa do banqueiro investigado.

Ou seja: Todas as instituições policiais sofrem, mais ou menos, com o assédio, e isso denota o seguinte: A medida da corrupção polícial é diretamente proporcional a corrupção da sociedade que a cerca!
Qualquer estudante de Direito sabe que a corrupção ativa só existe na presença da passiva e vice-versa, quer dizer: Se alguém se vende, alguém compra!

Isso não é uma defesa do cinismo, ou do vale-tudo, é uma constatação sem a qual nunca vamos enfrentar de verdade o problema.

O ser humano e o ser humano policial aprende pelo exemplo. Logo, quando olha para os "lados"(sociedade), ou para "cima" (governantes e autoridades), e enxerga impunidade, lucro e legitimidade, o policial faz suas "contas", e se o risco é "aceitável", adere a essas condutas. É claro que a maioria resiste.
Mas a sociedade deve esperar pelo altruísmo, ou diminuir as possibilidades de que as tentações os consumam?
Melhores salários não transformam corruptos em honestos, mas agem antes: Evita que uma maioria ache que o crime compensa, logo, previne, antes de remediar. Por outro lado, fornecem a possibilidade de cobrar com mais rigor dos policiais criminosos.
Se continuar a pagar mal, e a punir, eu suspeito que em pouco tempo não sobrará quem queira se tornar policial.

É comum ouvir dizer que bons salários não resolvem. Isso é mais um sofisma de uma sociedade que pretende manter o policial sempre "à mão", subjugado pela necessidade para aderir a uma oportunidade de "negócio" proposta por essa mesma sociedade, quando ela assim precisar!

Esse sofisma não resiste a uma constatação: As melhores polícias do mundo (eficiência e honestidade)são as mais bem pagas!
Ao contrário, as "piores polícias", se existisse tal ranking, são as mais pobres.

A polícia pobre mantém a eficiência em um sentido: Segregar, violentar e eliminar os mais pobres, e negociar com os mais ricos!

 Sabemos que a "violência" é um ótimo negócio! Empresas, fabricantes da armas, de carros, de helicópteros, de câmeras, etc, etc, etc, etc.

Nesse senitdo, os negócios policiais se espalham por toda  a estrutura pública de segurança, e à medida que a cadeia hierárquica sobe, esse negócios se sofisticam e envolvem escalas decisórias mais fortes! A lógica é sempre a mesma: Lucro privado de empresas e dos grupos políticos, e prejuízo do público e da sociedade.
O grave, nesse caso, é que o prejuízo social vem em forma de mortes, lesões, perda de patrimônio e de direitos humanos: Insegurança!

Dito isso, é preciso dizer outra coisa: A lenga-lenga da "vocação policial", ou "vocação do magistério", ou qualquer outra "vocação profissional" é só isso mesmo: Uma lenga-lenga. Nenhuma vocação resiste a necessidade!

No caso do Rio de Janeiro, há peculiaridades incríveis a pontuar novos problemas. Nossa sociedade brasileira, e a fluminense idem, se comportam hipocritamente em relação aos crimes e contravenções.

No Rio a mesma cúpula criminosa que compra, corrompe, mata, enquanto patrocinadores dos jogos ilegais, as chamadas "maquininhas", se imiscuem nas esferas de poder, posam ao lado das autoridades que as dizem combater, na efervescente alegoria do Carnaval, com direito a estrutura oficial, segurança pública, etc, etc.

Claro que não se trata de criminalizar o Carnaval e suas Escolas de Samba.
Mas é, no mínimo, estranho a relação amistosa entre bicheiros, prefeitos e governadores! Não seria leviano dizer que a contravenção se legitimou socialmente no "mecenato" dessa manifestação cultural, e esse fenômeno ainda persiste.

O Carnaval funciona como uma período de "armistício", onde a Lei sucumbe ao delírio lúdico!

No caso do tráfico de drogas e armas, embora essas atividades ainda não tenham encontrado uma atividade social que as legitime, há que se dizer que a ilegalidade da venda desses produtos, além de não significar nada, absolutamente, na tentativa de retirá-las de circulação, oferece um amplo mercado "ilegal" que forma o terceiro PIB do mundo, que com essa força, assedia e assombra a incapacidade dos países em contrapor esse desequilíbrio de recursos.
Associada a essa pressão, temos a parceria do sistema financeiro e outras atividades econômicas lícitas(legais), que se oferecem como ferramenta para legalizar esses recursos, e sem as quais, alguns países do mundo quebrariam, assim como alguns bancos, como aconteceu em 2008/2009, na crise mundial.
Foi o dinheiro sujo do tráfico e do crime organizado que sustentou certos países e bancos, e ironicamente, evitou que a crise fosse pior!

Dentro desse espectro, é difícil que encontremos na "crise" da segurança pública fluminense alguma resposta fácil para enfrentar tantos e tamanhos problemas.

Mas o fim da hipocrisia ajudaria, e muito!

4 comentários:

Roberto Torres disse...

Meu caro,

seus escritos sobre nossos auto-enganos com a seguranca pública sao insuportáveis rs. Acho que justamente porque sempre que algo surge como solucao voce mostra que é somente um deslocamento do problema.

Anônimo disse...

Só não dá para colocar panos quentes!

douglas da mata disse...

Caro Roberto,

Essa compreensão é angustiante. Eu não diria que me desiludo com a Polícia, porque nunca tive ilusão alguma, mas a sensação de impotência e insatisfação só aumenta.

Caro comnetarista,

É justamete isso que você colocou. Não podemos colocar "panos quentes". Minha crítica é nesse sentido, pois a hipocrisia e superficialidade simplista, com as quais a sociedade e governos tratam o assunto é que proporcionam essa repetição ad nauseam dos mesmos fatos, nesse estranho círculo vicioso.

Um abraço à todos, e grato pela partcicipação.

federico baudelaire disse...

Douglas, muito bom meu caro, esse é um assunto que você domina como poucos. panos quentes? só na música do zeca baleiro: - pisando em falso com meus panos quentes, enquanto você ri no seu conforto, enquanto você me fala entre dentes, poeta bom meu bem, poleta morto -
postei aqui http://federicobaudelaire.blogspot.com/2011/02/cabeca-do-dragao.html e estou espalhando no facebook e no twiter. grande abraço