sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A nossa escolha endêmica!

A presença de endemias na maioria dos países revelam mais do que uma incapacidade de lidar com doenças, planejamento, prevenção e controle.

Ela é um escolha política dessas sociedades, cujos consensos, infelizmente, se expressam em hospitalização e óbitos.

Desde que o sistema único de saúde, consagrado nos princípios da CRFB de 88, fortaleceu a execução dos programas das políticas públicas sanitárias nos municípios, com atribuição subsidiária a Estados e União, nossos gestores optaram por um modelo: O eterno estado de emergência.

Isso não é só uma questão de sadismo com a população. Trata-se de uma deliberação que privilegia a execução orçamentária afrouxada pela necessidade e pela urgência. Compras, contratações de serviços e mão-de-obra sem nenhum ou quase nenhum controle. Nesse ambiente, o que é direito vira favor, e favor é sempre moeda de troca eleitoral.

Nossa mobilização é seletiva, pois vejam: Há certo tempo atrás, por motivos políticos nada nobres, nossa mídia passou a ventilar uma epidemia de febre amarela, que nunca existiu, e o resultado foi trágico, se não fosse cômico: Algumas dezenas de pessoas se envenenaram de vacina, motivados pelo pânico midiático, e pereceram com complicações hepáticas.
Depois foi o caso do vírus "influenza", sorotipo "A", ou H1N1. Corremos para o álcool gel, lembramos de higienizar as mãos, vestimos máscaras, medidas de contenção e controle das fronteiras e vôos internacionais, etc, etc, etc.

Existem casos positivos, mas ainda assim, são também mediados por interesses.
O combate ao contágio do vírus HIV, que resulta em SIDA(síndrome de imunodeficiência adquirida) é o exemplo clássico de que o trinômio prevenção, tratamento e controle funcionam e dão ótimos resultados, desde que haja uma decisão política nesse sentido, baseada em um acordo entre sociedade e governos.
Ainda que consideremos esse programa um avanço, não podemos deixar de enxergar que seu sucesso está relacionado ao fato de que, no início, as prinicpais vítimas eram pessoas com visibilidade pública, e seu sofrimento pessoal provocou a comoção necessária para agirmos.

É verdade que houve uma mudança cultural nos hábitos sexuais, priincipal forma de contágio, mas essa mudança apenas se deu com o deslocamento de milhões e milhões de reais para campanhas, capacitação de pessoal e distribuição gratuita de preservativos.

Não vemos tamanha mobilização com a malária, que contagia e incapacita e mata de forma importante grandes faixas de populações, só que muito mais pobres e isoladas dos centros de formação de opinião (eixo sul-sudeste).

O caso da dengue é mais complexo, pois como dissemos lá em cima, essa doença não pode ser considerada uma doença de índios, ou de habitantes da selva e do cerrado do distante Norte e Centro-Oeste.

Ela é um flagelo nacional, que não escolhe classe social, na medida que as características do vetor transmissor são comuns a todo espaço urbano.

O problema é que para situações complexas, na maioria das vezes, a busca de soluções complexas esconde interesses que colidem com o interesse público: O enfoque infectologista da doença, com alocamento de recursos em centros de diagnóstico e pesquisas por vacinas são válidos, mas nunca poderia ser prioridade se não esgotamos as etapas de prevenção e controle.

Nossa cidade é um exemplo acabado desse equívoco: Somos um centro de referência em tratamento e diagnóstico, com profissionais laureados nesse sentido e até exportamos essa tecnologia, mas sucumbimos peremente aos surtos epidêmicos dessa endemia.

E por que? Porque escolhemos tratar a doença a prevení-la. Escolhemos o enfoque da infecção ao da prevenção e educação sanitária.

Em nossa leiga opinião, o tratamento correto é sanitarista, o que não significa todo o capital de conhecimento que acumulamos na área de infectologia.

A dengue não é uma mera questão de responsabilidade individual de lavar pratinhos e tapar caixas d'água. É uma questão de política pública sanitarista com:
COLETA DE LIXO ADEQUADA E REGULAR, TRATAMENTO CORRETO DESSES RESÍDUOS SÓLIDOS(PRINCIPALMENTE OS DEPÓSITOS ARTIFICIAIS ESPECIAIS*), TREINAMENTO E CONTRATAÇÃO DE AGENTES DE COMBATE A ENDEMIA POR CONCURSO PÚBLICO, AINDA QUE SEUS VÍNCULOS SEJAM CELETISTAS OU TEMPORÁRIOS, E MUDANÇA DA ABORDAGEM LEGAL, COM PERMISSÃO DE VIOLAÇÃO DE DOMICÍLIOS E, OU PROPRIEDADE QUE OFERECEM RISCO DE CONTAMINAÇÃO.

Não é preciso lembrar que a Constituição diploma que o domicílio é asilo inviolável do indivíduo, mas que pode se conspurcado se houver risco de desastre ou para salvar vidas. E que o seriam mortes provocadas pela dengue?

Todas as outras medidas são variações desse eixo.

Precisamos mais de sanitaristas a infectologistas no combate a dengue, até porque, se há infectologistas é porque há infecção, e então tudo mais já falhou! É como o goleiro que é o melhor do time que perdeu!


*DEPÓSITO ARTIFICIAL ESPECIAL: No meu tempo de agente de endemia na extinta SUCAM, era o termo que designava todo e qualquer material que pudesse acumular água e se transformar em criadouro do vetor aedes aegypti da fase larva até a fase pre-alada(pupas). São considerados DAE desde cascas de ovos até pneus e reservatórios maiores como latas, latões, tonéis, exceto as caixas d'água.

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