segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

RACIONAIS MC'S - Diário de um detento



Para fechar a noite, com chave de ouro:

Diário De Um Detento Racionais Mc's
"São Paulo, dia 1º de outubro de 1992, 8h da manhã.
Aqui estou, mais um dia.
Sob o olhar sanguinário do vigia.
Você não sabe como é caminhar com a cabeça na mira de
uma HK.
Metralhadora alemã ou de Israel.
Estraçalha ladrão que nem papel.
Na muralha, em pé, mais um cidadão José.
Servindo o Estado, um PM bom.
Passa fome, metido a Charles Bronson.
Ele sabe o que eu desejo.
Sabe o que eu penso.
O dia tá chuvoso. O clima tá tenso.
Vários tentaram fugir, eu também quero.
Mas de um a cem, a minha chance é zero.
Será que Deus ouviu minha oração?
Será que o juiz aceitou apelação?
Mando um recado lá pro meu irmão:
Se tiver usando droga, tá ruim na minha mão.
Ele ainda tá com aquela mina.
Pode crer, moleque é gente fina.
Tirei um dia a menos ou um dia a mais, sei lá...
Tanto faz, os dias são iguais.
Acendo um cigarro, vejo o dia passar.
Mato o tempo pra ele não me matar.
Homem é homem, mulher é mulher.
Estuprador é diferente, né?
Toma soco toda hora, ajoelha e beija os pés,
e sangra até morrer na rua 10.
Cada detento uma mãe, uma crença.
Cada crime uma sentença.
Cada sentença um motivo, uma história de lágrima,
sangue, vidas e glórias, abandono, miséria, ódio,
sofrimento, desprezo, desilusão, ação do tempo.
Misture bem essa química.
Pronto: eis um novo detento
Lamentos no corredor, na cela, no pátio.
Ao redor do campo, em todos os cantos.
Mas eu conheço o sistema, meu irmão, hã...
Aqui não tem santo.
Rátátátá... preciso evitar
que um safado faça minha mãe chorar.
Minha palavra de honra me protege
pra viver no país das calças bege.
Tic, tac, ainda é 9h40.
O relógio da cadeia anda em câmera lenta.
Ratatatá, mais um metrô vai passar.
Com gente de bem, apressada, católica.
Lendo jornal, satisfeita, hipócrita.
Com raiva por dentro, a caminho do Centro.
Olhando pra cá, curiosos, é lógico.
Não, não é não, não é o zoológico
Minha vida não tem tanto valor
quanto seu celular, seu computador.
Hoje, tá difícil, não saiu o sol.
Hoje não tem visita, não tem futebol.
Alguns companheiros têm a mente mais fraca.
Não suportam o tédio, arruma quiaca.
Graças a Deus e à Virgem Maria.
Faltam só um ano, três meses e uns dias.
Tem uma cela lá em cima fechada.
Desde terça-feira ninguém abre pra nada.
Só o cheiro de morte e Pinho Sol.
Um preso se enforcou com o lençol.
Qual que foi? Quem sabe? Não conta.
Ia tirar mais uns seis de ponta a ponta (...)
Nada deixa um homem mais doente
que o abandono dos parentes.
Aí moleque, me diz: então, cê qué o quê?
A vaga tá lá esperando você.
Pega todos seus artigos importados.
Seu currículo no crime e limpa o rabo.
A vida bandida é sem futuro.
Sua cara fica branca desse lado do muro.
Já ouviu falar de Lucífer?
Que veio do Inferno com moral.
Um dia... no Carandiru, não... ele é só mais um.
Comendo rango azedo com pneumonia...
Aqui tem mano de Osasco, do Jardim D'Abril, Parelheiros,
Mogi, Jardim Brasil, Bela Vista, Jardim Angela,
Heliópolis, Itapevi, Paraisópolis.
Ladrão sangue bom tem moral na quebrada.
Mas pro Estado é só um número, mais nada.
Nove pavilhões, sete mil homens.
Que custam trezentos reais por mês, cada.
Na última visita, o neguinho veio aí.
Trouxe umas frutas, Marlboro, Free...
Ligou que um pilantra lá da área voltou.
Com Kadett vermelho, placa de Salvador.
Pagando de gatão, ele xinga, ele abusa
com uma nove milímetros embaixo da blusa.
Brown: "Aí neguinho, vem cá, e os manos onde é que tá?
Lembra desse cururu que tentou me matar?"
Blue: "Aquele puta ganso, pilantra corno manso.
Ficava muito doido e deixava a mina só.
A mina era virgem e ainda era menor.
Agora faz chupeta em troca de pó!"
Brown: "Esses papos me incomoda.
Se eu tô na rua é foda..."
Blue: "É, o mundo roda, ele pode vir pra cá."
Brown: "Não, já, já, meu processo tá aí.
Eu quero mudar, eu quero sair.
Se eu trombo esse fulano, não tem pá, não tem pum.
E eu vou ter que assinar um cento e vinte e um."
Amanheceu com sol, dois de outubro.
Tudo funcionando, limpeza, jumbo.
De madrugada eu senti um calafrio.
Não era do vento, não era do frio.
Acertos de conta tem quase todo dia.
Ia ter outra logo mais, eu sabia.
Lealdade é o que todo preso tenta.
Conseguir a paz, de forma violenta.
Se um salafrário sacanear alguém,
leva ponto na cara igual Frankestein
Fumaça na janela, tem fogo na cela.
Fudeu, foi além, se pã!, tem refém.
Na maioria, se deixou envolver
por uns cinco ou seis que não têm nada a perder.
Dois ladrões considerados passaram a discutir.
Mas não imaginavam o que estaria por vir.
Traficantes, homicidas, estelionatários.
Uma maioria de moleque primário.
Era a brecha que o sistema queria.
Avise o IML, chegou o grande dia.
Depende do sim ou não de um só homem.
Que prefere ser neutro pelo telefone.
Ratatatá, caviar e champanhe.
Fleury foi almoçar, que se foda a minha mãe!
Cachorros assassinos, gás lacrimogêneo...
quem mata mais ladrão ganha medalha de prêmio!
O ser humano é descartável no Brasil.
Como modess usado ou bombril.
Cadeia? Claro que o sistema não quis.
Esconde o que a novela não diz.
Ratatatá! sangue jorra como água.
Do ouvido, da boca e nariz.
O Senhor é meu pastor...
perdoe o que seu filho fez.
Morreu de bruços no salmo 23,
sem padre, sem repórter.
sem arma, sem socorro.
Vai pegar HIV na boca do cachorro.
Cadáveres no poço, no pátio interno.
Adolf Hitler sorri no inferno!
O Robocop do governo é frio, não sente pena.
Só ódio e ri como a hiena.
Rátátátá, Fleury e sua gangue
vão nadar numa piscina de sangue.
Mas quem vai acreditar no meu depoimento?
Dia 3 de outubro, diário de um detento."

Eis que a verdade vos libertará!

Não há dúvidas: Usar drogas é tão idiota quanto acreditar em deus. E o pior é que há quem faça as duas coisas!

O homem está morto!

Não lhe parece estranho
Que deus esteja morto
Como disse aquele filósofo alemão
E você seja obrigado
A tomar prozac
Ou apelar para religião?

Não lhe parece estranho
Que normal é quem esquece
Que depois da morte nada acontece
A não ser a carne que fede
E depois apodrece?

Não lhe parece estranho
Que deus tenha escolhido então
Nos dar a morte de seu único filho
Como salvamento e redenção?


Ah, são os mistérios da fé
Você dirá então.
Mas que vida miserável
Onde para ter fé
É preciso negar a razão!

A razão está morta!
Graças a deus!
O homem está morto!
Graças a deus!

Camisa de Vênus - Só o Fim



Marcelo Nova e sua banda tinham por missão incomodar.
Camisa de Vênus foi o nome escolhido, de acordo com o próprio bandleader, que misturava rock'a'billy com rythim'n'blues, e outros subgêneros do rock, e trazia em suas letras crítica ao status quo e ao establishment, permeado com humor quase negro (Bete morreu, por exemplo).
Nos tempos do ocaso da censura, suas músicas eram alvos prediletos. O LP com o show gravado na Praia do Gonzaga, em Santos, com as versões sem cortes de Silvia e My Way, era disputado, e ouví-lo era nosso ritual de transgressão.
Bons tempos.
Marcelo Nova foi discípulo e parceiro de maior "profeta do rock", Raul Seixas, cuja origem baiana roqueira, comum a ambos, dava um tempero perfeito.

Uma visão catastrofista e niilista de uma geração de uma década perdida. Bom, se olharmos em volta, muito pouca coisa mudou, e o mundo continua um lugar estranho!

Pelo jeito, ainda não é o fim, pois o fim está ainda no começo!

Só o Fim Camisa de Vênus
Se o chão abriu sob os seus pés
E a segurança sumiu da faixa
Se as peças estão todas soltas
E nada mais se encaixa

Oh, crianças, isso é só o fim
Mas isso é só o fim
Oh, crianças, isso é só o fim

Algo que você não identifica
Insiste em lhe atormentar
Você implora por proteção
Não sabe quando vai acabar

Oh, crianças, isso é só o fim
Mas isso é só o fim
Oh, crianças, isso é só o fim

E esse calor insuportável
Não abranda o frio da alma
A vida já não é mais tão segura
E nada mais lhe acalma

Oh, crianças isso é só o fim
Mas isso é só o fim
Oh, crianças, isso é só o fim

Sempre acordo angustiado
e apressado vai a rua
Mas mesmo assim acordado
O pesadelo continua

Oh, crianças, isso é só o fim
Mas isso é só o fim
Oh, crianças, isso é só o fim
Mas isso é só o fim
Oh, senhoras, isso é só o fim
Mas isso é só o fim
Oh, senhores, isso é só o fim
Mas isso é só o fim

Tal pai, tal mãe, tal filha?

Deve ser grande o desespero dos professores e servidores da UENF.
Como sabemos, a greve se arrasta há muito tempo, sem que o governo estadual acene com qualquer possibilidade de diálogo. Faz o jogo do cansaço, e desgasta o movimento pela pressão que os alunos começarão a fazer quando os semestres letivos escorrerem pelo ralo.
 
Longe de mim questionar as táticas do movimento, e toda a ação em defesa da categoria presume-se legítima.

A longa travessia pelo deserto da falta de negociação deve ter provocado miragens!

O que dizer da interlocução aberta com a deputada estadual do clã garotinho?

Estranha incoerência, se imaginarmos que o comportamento de papai-e-mamãe quando governadores em relação a UENF e seus servidores sempre primou pela truculência intolerante.
Como quem sai aos seus, não degenera, é pouco provável que a deputada tenha estofo moral para propor algo em favor da Universidade, que seus pais tentaram, sem sucesso, sucatear e desmontar!

Bom, mas como diz o velho ditado: "Nada mais liberal que um conservador na oposição" (e vice-versa).

Garotos Podres toca "Papai Noel velho batuta" no Estúdio Showlivre



Para começar bem a sua semana!

Papai Noel, Velho Batuta Garotos Podres
Papai noel velho batuta
Rejeita os miseráveis
Eu quero matá-lo
Aquele porco capitalista
Presenteia os ricos
Cospe nos pobres
Presenteia os ricos
Cospe nos pobres

Papai noel velho batuta
Rejeita os miseráveis
Eu quero matá-lo
Aquele porco capitalista
Presenteia os ricos
Cospe nos pobres
Presenteia os ricos
Cospe nos pobres

Pobres! pobres! pobres! pobres!

Vamos sequestrá-lo
E vamos matá-lo

Por quê ?

Aqui não existe natal
Aqui não existe natal
Aqui não existe natal
Aqui não existe natal

Por quê ?

Papai noel velho batuta
Rejeita os miseráveis
Eu quero matá-lo
Aquele porco captalista
Presenteia os ricos
Cospe nos pobres
Presenteia os ricos
Cospe nos pobres !!!

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Futuro na Planície!

Há uma luz
no fim do túnel.
É o trem.
Que esmagará
toda a nossa esperança.

Ego versus Eu.

Além de mim
Que não presto
Tudo mais
É o resto!

Douglas da Mata, em 27.01. 2011 ou 40 pós D. da M.

Inocentes - clipe "Pânico em SP"



Para fechar essa nossa viagem ao underground da memória, Inocentes, com Pânico em SP. Bom, a julgarmos pela letra, e pela paranóia promovida pela mídia, a música parece ter sido composta ontem!

Pânico Em Sp Inocentes
As sirenes tocaram
As rádio avisaram
Que era pra correr
As pessoas assustadas
mal informadas
Puseram a fugir... sem saber do que

Pânico em SP, pânico em SP, pânico em SP
O jornal, a rádio, a televisão
Todos os meios de comunicação
Neles estavam estampados
O rosto de medo da população
Pânico em SP, pânico em SP, pânico em SP
Chamaram os bombeiros
Chamaram o exército
Chamaram a Polícia Militar
Todos armados
Até os dentes
Todos prontos para atirar
Mas o que eles não sabiam
Aliás o que ninguém sabia
Era o que estava acontecendo
O que realmente acontecia
Pânico em SP, pânico em SP, pânico em SP

Plebe Rude no Porão do Rock em Brasília - Passe Livre 2005



O Plebe Rude é uma das minhas prediletas do período "pós-descoberta" do Rock Nacional, onde nossa indústria cultural sacou a necessidade de vender algo que tivesse alguma identidade local. O gênero "pop" explodiu, pois calçava como "luva" nessa necessidade. E dá-lhe Blitz.

Ainda que o pop-rock pretendesse sufocar os ritmos dissonantes, como o punk rock e outras variações e experimentações, houve quem rompesse o cerco, e apresentasse algo diferente. Mesmo que a referência fosse Sioux and the Banshees, um tipo de punk-rock-soft & cool, a mistura do Plebe dava liga!

E veja, isso não é um manifesto anti-mercado. É, ao contrário, a percepção de que o "mercado" poderia ser mais diversificado.

A prova disso é que caras como o Plebe Rude, Inocentes, Lobão, e outros malditos, têm espaço e público, e sua música ultrapassa os limites do tempo.

Divirtam-se, porque afinal de contas, é para isso que música serve!

Hojerizah - Pros que estao em casa (live)



Uma banda que tinha um nome incomum, com vocalista com sobrenome de Platão, é a cara da Cássia Eller. Junto, tudo isso poderia dar em nada, mas ao contrário: O som me parecia ótimo, e ainda parece.
A versão ao vivo!

Por dentro do lance.

Robert Fisk, do inglês The Independent, é o que podemos considerar um dos útlimos correspondentes internacionais que mereçam esse nome. Não se furta a se misturar nos conflitos que narra, corre riscos, e tira deles suas impressões que desafiam o senso comum. É o que chamaríamos de "repóter à moda antiga". É dele o melhor relato dos episódios recentes do Oriente Médio, e essa excelência não vem de agora. Foi forjada em anos e anos, mergulhado no Iraque, Afeganistão, na Palestina, e em outros países que sofrem os percalços da influência nefasta dos EEUU e da Europa.
Pode-se discordar das impressões que ele tira dos fatos que narra, mas nunca poderemos duvidar da sua angústia em relação a realidade que o cerca.
Texto reproduzido da Carta Capital:

São revoltas seculares. Por que só se fala das religiões?

Por que tantos intérpretes cultos, embora impressionantemente antidemocráticos, insistem em interpretar tão mal as revoltas árabes?
Por Robert Fisk (do Bahrain)*
Mubarak alegou que os islamistas estariam por trás da Revolução Egípcia. Ben Ali disse o mesmo, na Tunísia. O rei Abdullah da Jordânia vê uma sinistra mão escura – da al-Qa’ida, da Fraternidade Muçulmana, sempre mão islâmica – por trás da insurreição civil em todo o mundo árabe. Ontem, autoridades do Bahrain descobriram a amaldiçoada mão do Hizbollah, ali, por trás do levante xiita. Onde se lê Hizbollah, leia-se Irã.
Por que, diabos, tantos intérpretes cultos, embora impressionantemente antidemocráticos, insistem em interpretar tão mal as revoltas árabes? Confrontados por uma série de explosões seculares – o caso do Bahrain não cabe perfeitamente nessa classificação – todos culpam os islâmicos radicais. O Xá cometeu o mesmo erro, só que ao contrário: confrontado com um óbvio levante islâmico, pôs a culpa nos comunistas.
Os infantilóides Obama e Clinton acharam explicação ainda mais esdrúxula. Depois de muito terem apoiado as ditaduras “estáveis” do Oriente Médio – quando tinham a obrigação de defender as forças democráticas –, resolveram apoiar os clamores por democracia no mundo árabe, justamente quando os árabes já estão tão absolutamente desencantados com a hipocrisia dos ocidentais, que não querem os EUA ao lado deles. “Os EUA interferem em nosso país há 30 anos, apoiando o governo de Mubarak, armando os soldados de Mubarak” – disse-me um estudante egípcio na praça Tahrir, semana passada. “Agora, agradeceríamos muito se parassem de interferir, mesmo que a nosso favor.” No final da semana, ouvi vozes idênticas no Bahrain. “Estamos sendo assassinados por armas dos EUA, disparadas por soldados bahrainis treinados nos EUA, em tanques fabricados nos EUA” – disse-me um médico na 6ª-feira. “E Obama, agora, quer aparecer como nosso aliado?”
Os eventos dos últimos meses e o espírito antirregime da insurreição árabe – que clama por dignidade e justiça, não por algum emirado islâmico – ficarão nos nossos livros de histórias por séculos e séculos. E o fracasso dos islamistas mais obcecados será discutido por décadas. Havia especial ardor na gravação da al-Qa’ida divulgada ontem e gravada antes da queda de Mubarak, que falava da necessidade de o Islã triunfar no Egito. E uma semana antes, homens e mulheres, seculares, nacionalistas, egípcios, muçulmanos e cristãos, pela própria força e meios, haviam-se livrado do velho ditador, sem qualquer ajuda de Bin Laden Inc.
Ainda mais esquisita foi a reação do Irã, cujo supremo líder convenceu-se de que o sucesso do povo egípcio fora sucesso do Islã. Só a al-Qa’ida, o Irã e seus mais odiados inimigos – os ditadores anti-islamistas – ainda creem que a religião esteja por trás da rebelião das massas democráticas no Oriente Médio.
A mais terrível ironia de todas – de que só muito lentamente Obama deu-se conta – é que a República Islâmica do Irã elogiava os democratas do Egito, ao mesmo tempo em que ameaçava executar seus próprios opositores.
Não foi, como se viu, uma grande semana para o “islamicismo” [orig. “Islamicism”]. Há detalhes a considerar, é claro. Quase todos os milhões de manifestantes árabes que querem quebrar o pescoço da autocracia que – com importante colaboração ocidental – sufoca a vida deles com humilhações e medo, são, sim, muçulmanos. E os muçulmanos – diferentes do ocidente ‘cristão’ – não perderam a fé.
Contra os tanques e chicotes e porretes dos assassinos da polícia de Mubarak, eles lutavam a pedradas, gritando “Allah akbar”, e aquela luta era, sim, para eles, uma “jihad” – palavra que não significa “guerra religiosa”, mas significa “lutar pela justiça”. Gritar “Deus é grande” e lutar por justiça são movimentos absolutamente lógico-consistentes e esse é o próprio espírito profundo do Corão.
No Bahrain temos caso especial. Aqui, a maioria xiita é governada por uma minoria de muçulmanos sunitas pró-monarquia. A Síria, aliás, pode ser contaminada pela “bahrainite” pela mesma razão: ali também uma maioria sunita é governada por uma minoria alawita (xiita). Mas, ora essa, o ocidente pode alegar, pelo menos – no já bem pouco entusiasmado apoio que ainda oferece ao rei Hamad do Bahrain –  que o Bahrain, como o Kuwait, tem um Parlamento. É pobre mostrengo velho, que existiu de 1973 a 1975, quando foi inconstitucionalmente dissolvido, e depois reinventado, em 2001, num pacote de “reformas”. Mas o novo parlamento conseguiu ser ainda menos representativo que o anterior. Os políticos da oposição foram caçados pela polícia política, e os distritos eleitorais redesenhados, ao estilo do Ulster, para garantir que a minoria sunita controlasse todo o parlamento. Em 2006 e 2010, por exemplo, o principal partido xiita no Bahrain ganhou só 18, dos 40 assentos no parlamento. Há clara semelhança com o que houve na Irlanda do Norte, nas perspectivas dos sunitas no Bahrain. Muitos me disseram que temem pela vida; que temem que soldados xiitas queimem suas casas e matem suas famílias.
Tudo isso haverá de mudar. O controle pelo Estado só é efetivo se for legítimo, e usar munição real contra manifestantes pacíficos e desarmados só sugere que as coisas podem acabar, no Bahrain, numa série de pequenos “Domingos Sangrentos”. Quando os árabes tenham aprendido a domar o medo, poderão exigir direitos civis, como os católicos na Irlanda do Norte exigiram, chegada a hora, ante a brutalidade do Royal Ulster Constabulary (RUC, polícia da Irlanda do Norte). No final, os britânicos tiveram de desconsiderar a legislação unionista e admitir que o IRA (Irish Revolucionary Army) dividisse o poder com os protestantes. Os paralelos não são exatos e os xiitas (ainda) não têm milícias, embora o governo do Bahrain tenha exibido fotografias de pistolas e espadas – para o IRA, sequer seriam consideradas armas –, para provar que haveria “terroristas” entre os manifestantes.
Há no Bahrain, sim, uma batalha sectária, ao lado de uma batalha secular, algo que até o Príncipe Coroado acertou ao reconhecer, quando disse, originalmente, que as forças de segurança tiveram de suprimir os protestos para evitar a violência sectária. É ideia que tem sido divulgada empenhadamente pela Arábia Saudita, que tem fortes interesses em suprimir qualquer agitação no Bahrain. Os xiitas da Arábia Saudita podem ver suas posições reforçadas se xiitas do Bahrain passarem a controlar o Estado. Nesse caso, sim, os líderes da República Islâmica Xiita por-se-ão, de fato, a cantar de galo.
Mas essas insurreições interconectadas não devem ser postas como fatores determinantes de tudo que aconteça no Oriente Médio. O levante no Iêmen contra o presidente Saleh (há 32 anos no poder) é democrático, mas também é tribal, e a oposição não tardará a armar-se. O Iêmen é sociedade pesadamente armada, várias tribos, cada qual com sua bandeira, nacionalismo rampante. E, depois, há a Líbia.
Gaddafi é non-sense, com suas teorias do “Livro Verde” – mas despachou os manifestantes benghazi, semana passada, quanto exibiram versão concreta desse específico volume –, extravagante, seu governo é desumano, cruel (e já dura, lá, há 42 anos). É um Ozymandias[1] antes da queda. Seu flerte com Berlusconi – ainda pior: seu caso de amor com Tony Blair, cujo secretário do Exterior, Jack Straw, chamava de “estadista” o lunático da Líbia – jamais o salvará. Mais coberto de medalhas que o general Eisenhower, em busca desesperada de um cirurgião plástico que lhe ajeite a papada, essa ruína humana ameaça agora com castigo “terrível” os líbios que o desafiem. Sobre a Líbia é preciso lembrar duas coisas: como o Iêmen, a Líbia é terra de tribos; e, quando a Líbia levantou-se contra os fascistas, deu início a uma guerra de libertação. Os bravos comandantes líbios enfrentaram o laço da forca com inacreditável coragem. Gadafi é doido. Isso não implica que os líbios sejam idiotas.
Por tudo isso, está acontecendo um maremoto político, social, cultural, no mundo do Oriente Médio. Haverá muitas tragédias, muito sangue derramado, muitas novas esperanças. O melhor a fazer é não ler, ignorar completamente todos os analistas e os “think tanks” cujos ‘especialistas’ imbecilizados dominam todos os canais de televisão. Se os checos podem ser livres, por que os egípcios não poderiam? Se se podem por abaixo ditaduras na Europa – primeiros os fascistas, depois os soviéticos – por que não se podem derrubar ditadores no grande mundo árabe muçulmano? E – só por um instante, pelo menos – deixem a religião fora da discussão.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Morphine - Cure for Pain



Penso que só há uma cura para a dor. E Mark Sandman descobriu qual.

Cure For Pain Morphine
Where is the ritual
And tell me where where is the taste
Where is the sacrifice
And tell me where where is the faith
Someday there'll be a cure for pain
That's the day I throw my drugs away
When they find a cure for pain
Where is the cave
Where the wise woman went
And tell me where
Where's all that money that I spent
I propose a toast to my self control
You see it crawling helpless on the floor
Someday there'll be a cure for pain
That's the day I throw my drugs away
When they find a cure for pain (x2)
When they find a cure find a cure for pain

Criptografias.

Tentei acesso
Esqueci a senha.
A minha sanha
É ver você
Bloqueada.
Acena de longe
Sorri de lado
E sai
Assanhada.

Douglas da Mata. 26.02.2011

MORPHINE - Honey White live



Mais um pouco de Morphine "na veia". Honey White:

Honey White Morphine
Honey White, Honey white
Honey White made a deal for some angel food
Honey white, honey white everybody told her it was sweet and good
Ohh Honey, Ohh Honey, Ohh Honey, Ohh Honey
She said you'll see me later yeah you'll see me later well you'll
See me later yeah its all too soon
And when he smile he knows honey's coming back honey's
Gonna want some more angel food
Devil made of honey....Devil made of honey...
Devil made of honey....Devil made of honey....
She said you'll get me when I'm old and withered
and not a day before that
The devil says Honey it wont be that long besides
i'd like to see a little more fat yeah i'd like to see a
little more fat you know i'd like to see a little more fat
Honey white Honey white Honey white Honey white tell me,
how is your angel food?
Honey White owe Honey White she says it's sweet and good
Honey White Honey White Honey white your sweetness starts to fade....
Honey white Honey White thought you could get away
Ohh honey, Ohh honey, Ohh honey, Ohh honey

Violeta de Outono - Declínio de Maio (With Lyrics)



Violeta de Outono é uma banda que escolheu um caminho árido na cena rock nacional.

Após criarem a banda Zero, e flertaram com o rock pop cabeça, Fábio Golfetti (vocais) e Cláudio Souza (bateria) revelam ao público, em 1984, o Violeta de Outono, junto com o baixista Angelo Pastorello.

Optaram pelo rock progressivo, com tintas psicodélicas, a arranjos instrumentais quilométricos, se consideradas as necessidades do mercado de apresentar refrões e riffs fáceis de repetir.

No percurso acidentado, desde então, com as dificuldades de "vender" um som nada óbvio, o Violeta manteve seu público, buscaram suas "raízes" ao se apresentarem com o mutante Sérgio Dias.

Não é um som fácil de digerir no primeiro instante. Eu, à época que conhecei, com 13 ou 14 anos, precisei "mastigar" um bocado.

Divirtam-se (ou não!).

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Born To Be Wild and Easy Rider (Slipshotfilms)



É para gente não esquecer, ainda que aceitemos a domesticação!

A nossa escolha endêmica!

A presença de endemias na maioria dos países revelam mais do que uma incapacidade de lidar com doenças, planejamento, prevenção e controle.

Ela é um escolha política dessas sociedades, cujos consensos, infelizmente, se expressam em hospitalização e óbitos.

Desde que o sistema único de saúde, consagrado nos princípios da CRFB de 88, fortaleceu a execução dos programas das políticas públicas sanitárias nos municípios, com atribuição subsidiária a Estados e União, nossos gestores optaram por um modelo: O eterno estado de emergência.

Isso não é só uma questão de sadismo com a população. Trata-se de uma deliberação que privilegia a execução orçamentária afrouxada pela necessidade e pela urgência. Compras, contratações de serviços e mão-de-obra sem nenhum ou quase nenhum controle. Nesse ambiente, o que é direito vira favor, e favor é sempre moeda de troca eleitoral.

Nossa mobilização é seletiva, pois vejam: Há certo tempo atrás, por motivos políticos nada nobres, nossa mídia passou a ventilar uma epidemia de febre amarela, que nunca existiu, e o resultado foi trágico, se não fosse cômico: Algumas dezenas de pessoas se envenenaram de vacina, motivados pelo pânico midiático, e pereceram com complicações hepáticas.
Depois foi o caso do vírus "influenza", sorotipo "A", ou H1N1. Corremos para o álcool gel, lembramos de higienizar as mãos, vestimos máscaras, medidas de contenção e controle das fronteiras e vôos internacionais, etc, etc, etc.

Existem casos positivos, mas ainda assim, são também mediados por interesses.
O combate ao contágio do vírus HIV, que resulta em SIDA(síndrome de imunodeficiência adquirida) é o exemplo clássico de que o trinômio prevenção, tratamento e controle funcionam e dão ótimos resultados, desde que haja uma decisão política nesse sentido, baseada em um acordo entre sociedade e governos.
Ainda que consideremos esse programa um avanço, não podemos deixar de enxergar que seu sucesso está relacionado ao fato de que, no início, as prinicpais vítimas eram pessoas com visibilidade pública, e seu sofrimento pessoal provocou a comoção necessária para agirmos.

É verdade que houve uma mudança cultural nos hábitos sexuais, priincipal forma de contágio, mas essa mudança apenas se deu com o deslocamento de milhões e milhões de reais para campanhas, capacitação de pessoal e distribuição gratuita de preservativos.

Não vemos tamanha mobilização com a malária, que contagia e incapacita e mata de forma importante grandes faixas de populações, só que muito mais pobres e isoladas dos centros de formação de opinião (eixo sul-sudeste).

O caso da dengue é mais complexo, pois como dissemos lá em cima, essa doença não pode ser considerada uma doença de índios, ou de habitantes da selva e do cerrado do distante Norte e Centro-Oeste.

Ela é um flagelo nacional, que não escolhe classe social, na medida que as características do vetor transmissor são comuns a todo espaço urbano.

O problema é que para situações complexas, na maioria das vezes, a busca de soluções complexas esconde interesses que colidem com o interesse público: O enfoque infectologista da doença, com alocamento de recursos em centros de diagnóstico e pesquisas por vacinas são válidos, mas nunca poderia ser prioridade se não esgotamos as etapas de prevenção e controle.

Nossa cidade é um exemplo acabado desse equívoco: Somos um centro de referência em tratamento e diagnóstico, com profissionais laureados nesse sentido e até exportamos essa tecnologia, mas sucumbimos peremente aos surtos epidêmicos dessa endemia.

E por que? Porque escolhemos tratar a doença a prevení-la. Escolhemos o enfoque da infecção ao da prevenção e educação sanitária.

Em nossa leiga opinião, o tratamento correto é sanitarista, o que não significa todo o capital de conhecimento que acumulamos na área de infectologia.

A dengue não é uma mera questão de responsabilidade individual de lavar pratinhos e tapar caixas d'água. É uma questão de política pública sanitarista com:
COLETA DE LIXO ADEQUADA E REGULAR, TRATAMENTO CORRETO DESSES RESÍDUOS SÓLIDOS(PRINCIPALMENTE OS DEPÓSITOS ARTIFICIAIS ESPECIAIS*), TREINAMENTO E CONTRATAÇÃO DE AGENTES DE COMBATE A ENDEMIA POR CONCURSO PÚBLICO, AINDA QUE SEUS VÍNCULOS SEJAM CELETISTAS OU TEMPORÁRIOS, E MUDANÇA DA ABORDAGEM LEGAL, COM PERMISSÃO DE VIOLAÇÃO DE DOMICÍLIOS E, OU PROPRIEDADE QUE OFERECEM RISCO DE CONTAMINAÇÃO.

Não é preciso lembrar que a Constituição diploma que o domicílio é asilo inviolável do indivíduo, mas que pode se conspurcado se houver risco de desastre ou para salvar vidas. E que o seriam mortes provocadas pela dengue?

Todas as outras medidas são variações desse eixo.

Precisamos mais de sanitaristas a infectologistas no combate a dengue, até porque, se há infectologistas é porque há infecção, e então tudo mais já falhou! É como o goleiro que é o melhor do time que perdeu!


*DEPÓSITO ARTIFICIAL ESPECIAL: No meu tempo de agente de endemia na extinta SUCAM, era o termo que designava todo e qualquer material que pudesse acumular água e se transformar em criadouro do vetor aedes aegypti da fase larva até a fase pre-alada(pupas). São considerados DAE desde cascas de ovos até pneus e reservatórios maiores como latas, latões, tonéis, exceto as caixas d'água.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Não há luz no fim do túnel.

Não há retoques sobre o questionamento do advogado e blogueiro Cléber Tinoco, que esquadrinha e radiografa o desperdício (para não dizer desvio mesmo) de dinheiro público na contratação de serviços terceirizados de iluminação pública nessa cidade.

O que mais espanta é que a Campos Luz, empresa pública contratante, esteve no centro de uma das maiores operações policiais desse Estado, Operação Alta Tensão, executada pela Polícia Civil (à época muito questionada por quem entende que bandido rico merece mais distinção, e acha um absurdo algemar quem desvia dinheiro público), onde um esquema de desvio, financiamento ilícito de campanhas, fraudes a licitações e lavagem de dinheiro resultou na denúncia de mais de 50 pessoas pelo MPE, aceita pelo juízo da 1ª Vara Criminal, permanece como eixo dos mesmos "erros", inclusive com a permanência de empresas envolvidas na lista de contratantes com o poder público, estrategicamente alteradas em sua razão social e sócios para desviar a atenção do MPE e da Justiça.

O deputado federal, e seu grupo político não alteraram uma vírgula para impedir que a má gestão do dinheiro continuasse, e muito ao contrário: Se o derrame de dinheiro na gestão sivaldo abílio, durante o mandato de alexandre mocaiber, e com o dilúvio de emendas e suplementações orçamentárias patrocinadas pelo então presidente da Câmara, se deu apenas no fim do governo, nessa administração o esquema cresceu e se tornou perene desde 2009.

Ao que parece, só houve uma "profissionalização".

Populismo jurídico na ALERJ e os mil patetas, os "reis do volante"!



Quem tem mais ou menos 40 anos, como eu, deve se lembrar desse desenho animado, que traduz com humor a relação do homem moderno e seu carro. É um pouco sobre isso que tratamos no texto abaixo.

Como disse lá no blog do Cláudio Andrade, a torcida em favor de que o mandato conferido ao deputado Roberto Henriques corresponda aos interesses dos seus eleitores, e de todos nós fluminenses, é justificável e transcende a questão político-partidária-ideológica, ainda que esse seja um corte importante.
Mas os seus correligionários não podem pretender que deixemos de questionar as iniciativas parlamentares que atentem contra o interesse público, ainda que sejam "populares".
É nesse sentido que discordamos da proposta do deputado, de extingüir a lei que permite o perdimento dos veículos em favor do Estado, que estejam em débito fiscal-IPVA.
Independemente da questão técnica-jurídica a respeito da constitucionalidade do diploma legal, cabe informar que o senso político da proposta ataca, frontalmente, um princípio caro ao nosso ordenamento: A prevalência do interesse público sobre o privado.
Todos os países e o Brasil têm previsão legal para o perdimento de bens e transfrência de propriedade frente ao inadimplemento de obrigações tributárias, sanções fiscais e administrativas. É a forma de compensar o Erário por ter suportado o exercício ou abuso de um direito sem a contrapartida tributária devida, e mais: Inibir a sonegação.
O argumento(falso)do peso da carga tributária não serve para justificar o não cumprimento de uma obrigação, pois, popularmente sabemos que um erro não justifica o outro. Ora, já dissemos isso aqui, e cabe repetir:
Quem quiser debater as alíquotas tributárias do IPVA que vote em deputados comprometidos com essa proposta, promova debates, etc, etc.
O que não pode é sonegar e cometer crimes(como emplacar carros em outros estados)para fugir a sua obrigação, uma vez que, são os cofres públicos que sustentam todo o sistema que está à disposição de quem dirige e tem um carro: Hospitais, agentes públicos, equipes de socorro, agentes de trânsito, agentes de segurança pública, ruas, avenidas, estradas, sinalização, etc. Ou na hora do acidente o motorista campista vai ser atendido por equipes capixabas, internado em um hospital capixaba, ou registrará o incidente ou o furto/roubo em uma delegacia capixaba?
Sem mencionar os impactos sócio-ambientais gravíssimos suportados por todos(a maioria), que NÃO TEM CARRO, como atropelamentos, poluição sonora e atmosférica, restrição de uso de espaço público(alrgamento de ruas com diminuição de calçadas, por exemplo). Será que dá para mandar esses problemas para o Estado onde eles recolhem os tributos de forma indevida?
Agora o deputado quer premiar os que não pagam por todos esses transtornos, e oneram os que pagam (condutores e pedestres campistas que pagam seus impostos ao Estado do Rio de Janeiro), e devolver-lhes os bens.
Um prêmio a classe média e as elites que detestam qualquer tipo de regulação ou limitação de seu direito de propriedade, ainda que o exercício desse direito cause danos aos que não gozam dos mesmos direitos.
Ter um carro é quase um direito natural.
Não é à toa que nosso trânsito mata mais que o tráfico de drogas, ou algumas guerras civis em zonas conflagradas do mundo.
Usados como extensão do próprio corpo, o carro é a legitimação moderna do nosso patrimonialismo: Com nossos bólidos ocupamos o espaço público como se fosse nosso quintal.
O que o deputado pretende é colocar mais gasolina no motor dessa situação.
Já que o debate é sobre impostos e propriedade, por que não estabelecer alíquotas progressivas, onde quem tem carros mais caros pague fatias maiores sobre o valor que os que tem carros menores e menos poluentes, e assim consagrar o princípio da capacidade contributiva(a cada um o tributo na medidade sua capacidade), que orienta nossa Constituição e sistema tributário? Assim, poderíamos beneficiar quem tem menos com impostos menores. Não é demais lembrar que carros mais caros ocupam mais espaços, e tem índice de letalidade muito maior, devido ao excesso de velocidade, tamanho e peso.
Nos EEUU, país-olimpo do automóvel, há estados daquela federação que tem tributos extras sobre utilitários a fim de evitar seu uso urbano, que comprovadamente, causam mais danos em colisões que carros menores, ainda mais se considerarmos os atropelamentos.
É a compreensão que TODA a sociedade não pode suportar o ÔNUS de uma parte da sociedade, sem que seja exigida uma contrapartida (TRIBUTOS) maior.
O deputado vai na contra-mão e prefere o aplauso fácil, mesmo que isso siginifique agradar infratores, legitimar a sonegação e chamar o contribuintes corretos de otários!
Leia aqui a postagem do blog do Cláudio Andrade:

ROBERTO HENRIQUES APRESENTA PROJETO DE LEI REVOGANDO NORMA ESTADUAL QUE PREVÊ CONFISCO DE AUTOMÓVEIS EM DÉBITO COM IPVA

Deixe-se Acreditar - Mombojó



É impossível olhar para a cena musical de Pernambuco e deixar de resumir tudo ao movimento manguebeat. Essa é uma tendência natural da indústria cultural de massas, à procura de rótulos e balisas para encaixar os negócios sob alguma embalagem mais vendável. Isso não é ruim de todo, se considerarmos que qualquer identificação, reconhecimento e massificação de fenômenos e movimentos culturais é melhor que nenhuma. Mas essa fórmula tende a esgotar o produto e soterrar a diversidade de manifestações que estão no entorno.

Quem ouvir o Mombojó, grupo que surgiu em 2001, algo como pós-manguebat(olha aí a necessidade de rotular), vai estranhar a ausência dos tambores de maracatu e as fusões com o legado regional pernambucano.

O Mombojó viaja pela faixa do rock-pop, baladas, jazz e certo pionerismo na batida bossa-lounge-eletrônica, com flerte sincero com o samba. Os limites se estendem a surf-music, que a bem da verdade, é uma base interessante para essa mistura, que se apresenta sob uma estética kitsch. Seu correspondente seria o Mundo Livre S/A, do Fred ZeroQuatro.



Essa é a cena. Ou pelo menos, é assim que ela nos parece.

Abaixo, a letra de Deixe-se acreditar:

Deixe-se Acreditar Mombojó
eu quero um samba pra me aquecer
quero algo pra beber, quero você
peça tudo que quiser
quantos sambas agüentar dançar
mas não esqueça do seu trato
da hora de parar
só vamos embora quando tudo terminar
eu vou te levar aonde você quer chegar
eu tenho a chave nada impede a vida acontecer
deixe-se acreditar
nada vai te acontecer
tudo pode ser
nada vai acontecer, não tema
esse é o reino da alegria

Mombojó - Papapa - HD



Um pouco mais de Mombojó, com o comentário do diretor do clipe, disponível no YouTube, junto com a ficha técnica:

"Segundo clipe que eu dirijo para o Mombojó.
Quando eles me convidaram, fizeram 3 pedidos:
-Queriam aparecer no clipe, já que no primeiro que eu fiz eles não aparecem,
-Queriam dançar uma coreografia,
-E queriam alguma coisa relacionada com seriados japoneses dos anos 90.
O resultado tá ai, valeu galera do Mombojó pela oportunidade e parceria."
Fernando Sanches.


Direção - Fernando Sanches
Direção de Fotografia - Marcos Tseng
Produção - Guilherme Valiengo
Coreografia - Gabi Gonçalves
Assistente de direção - Juliana Cabral
Figurino - Giovanna Moretto
Produção de elenco - Cintia Cappellano
Elenco- Chiquinho, Marcelo, Vicente, Samuel, Felipe S., Francine Missaka e Anderson Alexandre
Computação Gráfica - Alexandre Jum, Felipe Castanhari, Fernando Pires dos Santos Filho, Gustavo Eggert Boehs e Gustavo Braga
Arte conceitual (robô) - Bruno Farneze e Chrystie Lira
Segunda assistente de direção - Marcela dos Santos Guimarães
Grafismo - Vanessa Lobo e André Almeida
Assistentes de produção - Ronye Quintieri e Bruno Pirozzi
Maquiagem - Junior Branco
Story Board - Rodrigo Leão
Correção de cor - Alex Yoshinaga
Edição e Pós Produção - Fernando Sanches
Uma Produção - Sinestesia
Agradecimentos - Vitor Cervi, Saulão, Evoke, Prodigo Films pela Geladeira, Zé e Jedai, Margarida Filmes e Ilegal FX pelo 3d, Ynara e Pedrinho e a todos que ajudaram.

Papapa Mombojó
Se o inverno não tem
Então espere o sol vir iluminar o seu lar

Papapa...

Por mais que eu pense e desista
Por mais que ele venha e queime a vista
Calando a sombra e os sapos
Com seu abraço de sol

Não desisto em conter um terral
Que precede o chover
Mas não vem, mas não vem

E não há, não aqui, em conter um terral
Que precede o chover
Mas não vem, mas não vem
Que não há, que não há, não aqui

Papapa...

No ar condicionado do shopping
A dez graus a menos
O suor que escorre da sua pele tende a secar

Você diz gostar do carnaval
Sem separatismo
E sonha em dormir na geladeira (x4)

Se o inverno não tem
Então espere o sol vir iluminar o seu lar

Papapa...

Você diz gostar do carnaval
Sem separatismo
E sonha em dormir na geladeira (x4)



Manuela K.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Leminski para fechar o dia!

[na minha a tua ferida] (Paulo Leminski)

          essa a vida que eu quero,
querida

          encostar na minha
a tua ferida

[do livro La Vie en Close]

[o luar de janeiro é primeiro de abril] (Paulo Leminski)

      vez como aquela
só mesmo a primeira
      mal cheguei a chorar
uma lágrima inteira

      largue uma lágrima
o primeiro que viu
      o luar de janeiro
é primeiro de abril

Chapéu de touro!

Essa é mensagem cifrada para uns e outros. Nesse caso, a carapuça não lhe cabe, porque o "adorno da testa" não deixa:


Sua Cabeça Não Passa Na Porta Bezerra da Silva
Oh meu amigo, a turma está fazendo festa (2X)
Olha aí! Desse negócio que nasceu na sua testa (2x)

Seu amigo que é gavião
Está sempre contente e feliz
Todo dia ele dá um presente à sua criança e você nada diz
E a sua mulher, muito honesta, jura e diz que nem morta
Mas qualquer dia sua cabeça não passa na porta

REFRÃO

Vê se toma um chá de "simancol"
Pra sua moral ela não bagunçar
Quando você passa na esquina
A rapaziada começa a cantar:
Lá vai o mané
Por incrível que pareça
O chapéu do sem-vergonha
Está à três palmos da cabeça

REFRÃO

A cultura em debate!

Recebemos o pedido de divulgação e aí está:


Crash: No limite!

É inegável que Crash, um filme de Paul Haggis, é um filme datado. Ele existe porque existiu um 11 de setembro. Mas as tensões, os conflitos, os medos, as fobias e tensões sociais, preconceitos, violência e intolerância estão entre nós há mais tempo. Desde sempre. Entre os estadunidenses, principalmente, assume contornos peculiares, que explodem a presença de um evento tão dramático como o ataque terrorista da Al Qaeda.

Por isso, eu assisti ao filme, hoje e a dois meses atrás, e tive a impressão de que os fatos se encaixam em qualquer tempo. O roteiro saca uma manjada estratégia, de cruzar histórias pessoais dos personagens, aparentemente, sem quaisquer relações, mas que se tocam, ou melhor, se chocam (daí o nome, crash=colisão) em algum ponto do enredo.

É como se o roteiro (ganhador do Oscar em 2005) dissesse que não há inocentes, e somos apenas culpados de sermos nós: humanos.

Esse ponto de inflexão, em meu rude olhar de espectador ignorante das artes cênicas, só pode ser dado na dimensão exata com o enfoque dado pelo filme: O viés personalíssimo de cada gesto, cada medo, cada olhar, que acontecem movidos como se por acaso, como gostaríamos de acreditar, mas que, lá no fundo, bem no fundo tem uma causa única: O medo!

Um elenco caprichado, com destaque para Matt Dillon (impossível não acreditar que ele é racista, policial, canalha, mas heróico) e seu "oposto" Ryan Phillipe (o tira bom e com princípios, que não o levam muito longe daquilo que ele rejeita), e Tandhie Newton, como a esposa ultrajada, às voltas com seus próprios recalques em relação a si, aos outros, sua condição e como se portar (ou não!). A sua colisão com seu destino está alem da possibilidade próxima da morte física. É a sua morte metafísica, representada no seu renascimento pelas mãos que a violaram!

Mas não tenha dúvidas, o cinismo do filme não é uma desculpa ou apologia ao preconceito. De um jeito ou de outro, o preconceito está lá, e nos MATA!

Não é um filme indicado para os hipócritas. Bom pensando bem, é um filme para todos nós: Os hipócritas, e o que pensam que não são!


Bom divertimento.

O telhado de vidro, a UENF e o observatório caolho!

Recentemente, travei um debate com um comentarista, lá no blog do Roberto Moraes, que reclamava da minha intransigência a respeito do chamado Movimento de Controle Social, patrocinado pelo Professor Hamilton e alguns de seus discípulos mais próximos
.
Tratávamos da instalação desse movimento na cidade de SJB, possivelmente em virtude dos vultosos recursos e dos impactos sócio-ambientais que se avizinham, caso os investimentos prometidos não sejam mais um conto do vigário.

Disse ao comentarista, e depois em um texto nesse blog, que não acreditava nas boas intenções de um movimento que reivindica uma agenda moralizadora, mas se emparceira com o que há de pior na sociedade civil, e mais, disse ainda que todo controle é seletivo, ou enxerga o que quer.

Logo, para que ir a SJB para promover a mobilização da sociedade sanjoanenses, enquanto na comunidade da UENF, território natal do movimento, há tanto a ser feito?

Bom, as últimas notícias a respeito da UENF, e as contratações de obras e serviços, mostram que o controle social é bom, mas na casa do vizinho. Veja que o Magnífico Reitor da nossa Universidade se encontra às voltas com várias notícias de várias irregularidades, isso sem mencionar a questão que para nós é mais importante: A prioridade dos gastos.

Vejam que a ONG montada pelo ilustre professor Dr Hamilton, doutor em História, tem como um dos seus diretores, justamente, o Magnífico Reitor da UENF.

Bom, mas as surpresas não páram por aí.

Uma olhada na GPCAM, Gerência da Prefeitura do Campus, vai revelar em sua estrutura de fiscalização das obras e serviços contratados, um engenheiro que prestou serviços a gestão do telhadro de vidro, do ex-prefeito alexandre mocaiber, no setor de licitações de obras. Hoje, é responsável pela fiscalização dos contratos de obras e serviços da UENF. Basta ver aqui:http://www.uenf.br/Uenf/Pages/Reitoria/Dga/Gpcam/?&modelo=1&cod_pag=6194&tabela=&np=GPENG&nc=Funcion%E1rios&buscaEdicao=&grupo=GPCAM&p=

Como sabemos, alexadre mocaiber é muito ligado ao seu primo, secretário estadual de ciência e tecnologia, alexandre cardoso, que cuida da UENF, que por sua vez, é ligado politicamente ao reitor. O círculo se fecha, e o controle social nada vê, e apenas se cala. Quem cala...

Por estranha coincidência, empresas que prestaram serviços a essa gestão temerária estão entre as contratadas da UENF, algumas citadas no escândalo da Campos-Luz, por exemplo.

Bom, mas como se trata de uma Universidade, e de cabeças iluminadas, cheias de boas intenções, que sempre tiveram acesso ao conhecimento, e os mais elevados princípios morais que decorrem desse conhecimento, vamos lhes conceder o benefício da dúvida.

Vai ver é só coincidência, ou ranzinice minha.

Que venha o debate na eleição da reitoria. Quem sabe tudo isso não passe de mal-entendido? Tomara!

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Mais Leminski.

[um dia vai ser] (Paulo Leminski)

pelos caminhos que ando
 um dia vai ser
   só não sei quando

[rio de mistério] (Paulo Leminski)

        rio do mistério
que seria de mim
        se me levassem a sério?

[do livro Distraídos Venceremos]

O Hóspede Despercebido (Paulo Leminski)

         Deixei alguém nesta sala
que muito se distinguia
         de alguém que ninguém se chamava,
quando eu desaparecia.
         Comigo se assemelhava,
mas só na superfície.
         Bem lá no fundo, eu, palavra,
não passava de um pastiche.
         Uns restos, uns traços, um dia,
meus tios, minhas mães e meus pais
         me chamarem de volta pra dentro,
eu ainda não volte jamais.
         Mas ali, logo ali, nesse espaço,
lá se vai, exemplo de mim,
         algo, alguém, mil pedaços,
meio início, meio a meio, sem fim.

[do livro Distraídos Venceremos]

[na minha a tua ferida] (Paulo Leminski)

          essa a vida que eu quero,
querida

          encostar na minha
a tua ferida

[do livro La Vie en Close]

[matéria é mentira] (Paulo Leminski)

          essa idéia
ninguém me tira
          matéria é mentira

[do livro La Vie en Close]

Facções e milícias: As duas cabeças do Estado-policial brasileiro!

Os fenômenos da reunião de criminosos em grupos estáveis para perpetrar crimes, de forma sistêmica, é velha conhecida da sociedade brasileira, dos estudiosos e das autoridades públicas da segurança.

Com todas as peculiaridades que não cabe discutir aqui, podemos dizer, à grosso modo, que foi o Estado brasileiro, e suas escolhas políticas, representadas nos diversos grupos que governaram os Estados, responsáveis diretos pela execução das políticas públicas de combate à criminalidade e promoção de segurança pública, em útlima instância, do funcionamento da Justiça (aqui na execução das penas), que nasceram as versões que mais ameaçam o paz social em algumas regiões do Brasil.

Foi a anuência e omissão do Estado, cominado a um consenso da sociedade, que sempre tolerou as execução extra-judiciais (desde que se dessem nas perierias e contra jovens, pretos, pobre e mal instruídos, os conhecidos: "marginais com ligação com o crime"), emoldurado pela mídia sensacionalista, que as milícias floresceram e se tornaram um fato.
Na verdade, foi a percepção de determinados grupos policiais que valia mais à pena trabalhar por conta própria (como no filme Tropa de Elite), para deterem recursos e poder territorial (transformado em poder político)para ampliar sua rede de negócios. Mas não é só a ganância criminosa policial, nem as decisões de governo que determinam essa escolha. A socieddae brasileira sempre buscou a segurança baseada na proteção de sua casta, sem se importar na segurança como valor universal.
Junto a isso, o baixíssimo valor dado a vida no Brasil, refletido na taxa irrisória de resolução de homicídios (4%, em média), fato mais grave ainda se compararmos a taxa de resolução de crimes contra o patrimônio(roubo, extorsão mediante seqüestros), principalmente, os que atingem a parcela mais rica da população.

Assim, se a vida vale pouco, e o patrimônio vale mais, por que não utilizar a morte como ferramenta de convencimento para impor o medo, e conseguir adesão para os "pacotes de proteção" ao patrimônio e aos pequenos negócios das comunidades?

Como parte dessa nova força empresarial significou um aparente controle de certas regiões (ver o crescimento das milícias nas áreas contíguas às instalações do PAN 2007, de acordo com pesquisa do deputado estadual Marcelo Freixo-PSOL), o Estado fingiu que não viu, e agora, sofre para combater, se é que pretende combater de verdade.

Caso semelhante ao transporte ilegal e camelôs. Primeiro, tolerância, conluio eleitoral, depois quadrilhas formadas, coação, mortes e um combate desmoralizado e confuso!

Outro caso grave foi os das facções criminosas, sendo que as mais conhecidas nasceram no Rio e SP.
Estarrecedor notar que CV, ADA, TC, TCP e PCC, surgiram de dentro dos sistemas prisionais para fora dos muros. Em um universo caótico, a "organização" dos presídios era um atrativo para os funcionários, frente as vistas grossas das altas autoridades. Os presos, privados de qualquer dignidade, embora o Estado destinasse muito dinheiro para mantê-los, caíram como moscas na rede de poder que se instalou dentro das prisões. Questão de sobrevivência, que logo virou uma questão de lucros.
Nossa sociedade é um caso clássico de como o contribuinte gasta muito dinheiro para que um preso se torne muito pior dentro do lugar que deveria puní-lo e reintegrá-lo. Nossos presos, encarcerados e "à disposição da Justiça", violam e praticam toda sorte de crimes, e fortalecem laços e capacidade de coagir o restante da sociedae.
De certa forma, somos sócios, com nossos impostos, das facções e das milícias, na medida que elegemos sempre as mesma políticas públicas superficiais e baseadas no terror e na paranóia, que sempre leva a reações destrambelhadas, ao invés do planejamento e da prevenção.



Não há solução fácil à vista. Infelizmente.

Leminski.



Conheço pouco poesia. Só os lugares comuns. Mas sempre tive a intuição que gostaria de alguns poetas, pelo contato superficial que tive com certas obras.

Assim é com Manuel Bandeira. Adoro seu humor e ritmo. A aridez de João Cabral de Mello Neto me fascina. Quase dá para ficar sufocado com a poeira seca que sai dos chãos rachados de seus poemas!

Quanto à Leminski, sempre tive a intuição do tipo: "não li e gostei"! Como se os seus poemas estivessem a minha espreita, de tocaia, prontos para me dar o bote e capturar meu gosto.

Pois é, eu tinha razão. Paulo Leminski do blog pauloleminskipoemas.blogspot.com. Dá a impressão que ele define melhor a gente do que a gente mesmo.
Aqui, minhas homenagens a um poeta leminskiano de primeira linha, nosso Artur Gomes:

[É tudo o que sinto] (Paulo Leminski)

Inverno

É tudo o que sinto

Viver

É sucinto

A pirraça do PIG!

Depois de três dias de plantão, voltamos à carga. Compartilho com vocês o ótimo texto do Marcos Coimbra:


O que falar de Dilma?

Pelo que parece, a “grande imprensa” vai passar quatro anos a se remoer. Achava que a presidenta seria cópia piorada de Lula. Dá-se o caso que, neste início de governo, ela surpreendeu a mídia. Exatamente no que menos
se esperava: está fazendo, desde o primeiro momento, o governo dela

É engraçado ler nossa “grande imprensa” nos dias que passam. Seus colunistas e comentaristas vivem momentos difíceis, dos quais tentam escapar com saídas cômicas.
A raiz de seus problemas é que não sabem como lidar com Dilma Rousseff. Talvez achassem que seu governo seria óbvio. Que ela seria uma personagem que conseguiriam explicar com meia dúzia de ideias prontas.
Imaginavam, talvez, que o compromisso que ela assumiu com a continuidade do trabalho de Lula faria com que ficasse de mãos atadas. E, quando ela confirmou vários ministros e auxiliares do ex-presidente na sua equipe, devem ter tido certeza de que suas expectativas se confirmariam.
Achavam que Dilma seria uma cópia carbono de Lula. Piorada, naturalmente, pois sem sua facilidade de comunicação e carisma. Estava pronta a interpretação do novo governo: na melhor das hipóteses, uma repetição sem brilho das coisas que conhecíamos. Para quem, como nossos bravos homens e mulheres da “grande imprensa”, achou que o governo Lula havia sido uma tragédia, o de Dilma seria uma farsa. Como dizia o velho Karl Marx, quando a história se repete, é isso que acontece.
Dá-se o caso que, neste início de governo, Dilma os surpreendeu. Exatamente naquilo que menos esperavam: está fazendo, desde o primeiro momento, o governo dela.
Não há sinal mais evidente que a mudança que experimentou a parcela do ministério que manteve. Ficaram parecidos com os novos. São ministros dela e não ex-ministros de Lula.
Na verdade, esse é apenas um sintoma de que, em pouco mais de um mês, o governo Lula virou passado. Algo que era difícil antever aí está. Em grande parte, porque Dilma ocupou seu lugar, deixando claro que não é igual ao antecessor.
A “grande imprensa” brasileira estava preparada para essa hipótese, mesmo que a achasse improvável. Era o cenário da crise entre criador e criatura, tão frequente na política, que vem na hora em que o “poste” se rebela contra quem lhe deu vida. Não era pequena a torcida em favor desse desfecho: Dilma desentendendo-se com Lula, este aborrecido, ela enciumada, ele se sentindo traído, ela sozinha no Planalto.

Não é isso o que está ocorrendo. Lula não parece achar errado que Dilma tenha se sentado na cadeira que ele ocupou por oito anos e começado a governar desde o primeiro dia.
A frustração de perceber que quase nada do que imaginava está se verificando tem levado a “grande imprensa” a atitudes patéticas. Não há maior que a recusa em aceitar a decisão de Dilma de ser tratada como presidenta.
A insistência dos “grandes veículos” em só designá-la como presidente é pueril. Na língua portuguesa, as duas palavras existem, o que faz com que qualquer uma possa ser empregada. Se Dilma escolheu uma, que argumento justificaria negar-lhe o direito de usá-la?
É provável que os historiadores do futuro achem graça da implicância de nossos “grandes jornais”. Seu consolo acabou sendo pequeno: o que lhes resta é pirraçar, bater pé e chamá-la “presidente”.  Um dia, quem sabe, farão como os jornalões argentinos, que acabaram respeitando a mesma opção de Cristina Kirchner (os jornais chilenos, mais educados, nunca recusaram a prerrogativa a Michelle Bachelet).
Nesta semana, nossos vibrantes “grandes jornais” passaram a achar ruim que Dilma houvesse feito uma foto colorida para acrescentar à galeria dos presidentes da República. Queriam que fosse em branco e preto, talvez por picuinha. Sugeriram que ela quer “aparecer demais”.
E assim vamos. Pelo que parece, a “grande imprensa” vai passar quatro anos se remoendo.

Marcos Coimbra

Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi. Também é colunista do Correio Braziliense.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O faroeste caboclo fluminense!

Tenho evitado emitir opiniões acerca dos úlitmos acontecimentos que atingiram a cúpula da Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro.

Por motivos óbvios:
A liberdade de expressão não é cultivada, a não ser no elogio fácil e bajulador!
Outro motivo é que o debate sobre o tema sempre esbarra nas simplificações e lugares-comum, geralmente, promovidos pela mídia.

É grave que se apresente a atual situação como um duelo entre mocinhos e bandidos. Ou como uma "crise", isolada e sazonal. O que ocorre é uma disputa de poder, antes de mais nada. O problema é perene e sistêmico.

Ela se arrasta desde há muito tempo, e de vez em quando, soluça em eventos dramáticos: A "invasão do Alemão" foi um deles, como já dissemos em outro texto. Agora, a operação Guilhotina, sugestivo nome para a degola de cabeças coroadas da Polícia Civil!

Chamada a intervir, a Polícia Federal, mais uma vez, nos dá nossa dose diária de crença no heroismo eficiente dos "homens de preto"!

Ledo engano. Essa instiuição policial também sofre dos mesmos males, e recentemente, experimentou como o poder político e econômico causam estragos, só que nesse caso, a escala do escândalo (devidamente abafado) estava alguns degraus acima na pirâmide social.

No caso do banqueiro Daniel Dantas, quem investigou foi punido e exilado, como os delegados Paulo Lacerda e Protógenes Queiroz, enquanto os aliados do banqueiro forneceram os argumentos para a defesa do banqueiro investigado.

Ou seja: Todas as instituições policiais sofrem, mais ou menos, com o assédio, e isso denota o seguinte: A medida da corrupção polícial é diretamente proporcional a corrupção da sociedade que a cerca!
Qualquer estudante de Direito sabe que a corrupção ativa só existe na presença da passiva e vice-versa, quer dizer: Se alguém se vende, alguém compra!

Isso não é uma defesa do cinismo, ou do vale-tudo, é uma constatação sem a qual nunca vamos enfrentar de verdade o problema.

O ser humano e o ser humano policial aprende pelo exemplo. Logo, quando olha para os "lados"(sociedade), ou para "cima" (governantes e autoridades), e enxerga impunidade, lucro e legitimidade, o policial faz suas "contas", e se o risco é "aceitável", adere a essas condutas. É claro que a maioria resiste.
Mas a sociedade deve esperar pelo altruísmo, ou diminuir as possibilidades de que as tentações os consumam?
Melhores salários não transformam corruptos em honestos, mas agem antes: Evita que uma maioria ache que o crime compensa, logo, previne, antes de remediar. Por outro lado, fornecem a possibilidade de cobrar com mais rigor dos policiais criminosos.
Se continuar a pagar mal, e a punir, eu suspeito que em pouco tempo não sobrará quem queira se tornar policial.

É comum ouvir dizer que bons salários não resolvem. Isso é mais um sofisma de uma sociedade que pretende manter o policial sempre "à mão", subjugado pela necessidade para aderir a uma oportunidade de "negócio" proposta por essa mesma sociedade, quando ela assim precisar!

Esse sofisma não resiste a uma constatação: As melhores polícias do mundo (eficiência e honestidade)são as mais bem pagas!
Ao contrário, as "piores polícias", se existisse tal ranking, são as mais pobres.

A polícia pobre mantém a eficiência em um sentido: Segregar, violentar e eliminar os mais pobres, e negociar com os mais ricos!

 Sabemos que a "violência" é um ótimo negócio! Empresas, fabricantes da armas, de carros, de helicópteros, de câmeras, etc, etc, etc, etc.

Nesse senitdo, os negócios policiais se espalham por toda  a estrutura pública de segurança, e à medida que a cadeia hierárquica sobe, esse negócios se sofisticam e envolvem escalas decisórias mais fortes! A lógica é sempre a mesma: Lucro privado de empresas e dos grupos políticos, e prejuízo do público e da sociedade.
O grave, nesse caso, é que o prejuízo social vem em forma de mortes, lesões, perda de patrimônio e de direitos humanos: Insegurança!

Dito isso, é preciso dizer outra coisa: A lenga-lenga da "vocação policial", ou "vocação do magistério", ou qualquer outra "vocação profissional" é só isso mesmo: Uma lenga-lenga. Nenhuma vocação resiste a necessidade!

No caso do Rio de Janeiro, há peculiaridades incríveis a pontuar novos problemas. Nossa sociedade brasileira, e a fluminense idem, se comportam hipocritamente em relação aos crimes e contravenções.

No Rio a mesma cúpula criminosa que compra, corrompe, mata, enquanto patrocinadores dos jogos ilegais, as chamadas "maquininhas", se imiscuem nas esferas de poder, posam ao lado das autoridades que as dizem combater, na efervescente alegoria do Carnaval, com direito a estrutura oficial, segurança pública, etc, etc.

Claro que não se trata de criminalizar o Carnaval e suas Escolas de Samba.
Mas é, no mínimo, estranho a relação amistosa entre bicheiros, prefeitos e governadores! Não seria leviano dizer que a contravenção se legitimou socialmente no "mecenato" dessa manifestação cultural, e esse fenômeno ainda persiste.

O Carnaval funciona como uma período de "armistício", onde a Lei sucumbe ao delírio lúdico!

No caso do tráfico de drogas e armas, embora essas atividades ainda não tenham encontrado uma atividade social que as legitime, há que se dizer que a ilegalidade da venda desses produtos, além de não significar nada, absolutamente, na tentativa de retirá-las de circulação, oferece um amplo mercado "ilegal" que forma o terceiro PIB do mundo, que com essa força, assedia e assombra a incapacidade dos países em contrapor esse desequilíbrio de recursos.
Associada a essa pressão, temos a parceria do sistema financeiro e outras atividades econômicas lícitas(legais), que se oferecem como ferramenta para legalizar esses recursos, e sem as quais, alguns países do mundo quebrariam, assim como alguns bancos, como aconteceu em 2008/2009, na crise mundial.
Foi o dinheiro sujo do tráfico e do crime organizado que sustentou certos países e bancos, e ironicamente, evitou que a crise fosse pior!

Dentro desse espectro, é difícil que encontremos na "crise" da segurança pública fluminense alguma resposta fácil para enfrentar tantos e tamanhos problemas.

Mas o fim da hipocrisia ajudaria, e muito!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A frente que virou meia-água!

Movimentos políticos de quaisquer naturezas estão sujeitos a sensos e contra-sensos, fluxos e influxos. Logo, não é a quantidade de integrantes do puxadinho da oposição que nos preocupa, embora esse aspecto sirva, é claro, como um ótimo jargão para a ironia.

É a qualidade dos atos políticos ali praticados, o estofo e envergadura política de seus integrantes, sua capacidade de mobilizar alguns setores, a fim de que outros possoam replicar o conteúdo de nossas demandas, que podem ser resumidas em uma frase: "Uma cidade onde o dinheiro público seja usado em benefício de TODOS OS PÚBLICOS, e não só parte deles"!

Já diagnosticamos todos os problemas da frente que virou meia água, um puxadinho de oposição.

Falta coragem, um bocado de inteligência e senso prático, mas falta o mais importante: Autoridade moral para questionar os desmandos desse governo, uma vez que além de terem, de uma forma ou de outra participado do jeito garotista de governar, não vieram a público fazer seu acerto de contas com esse passado incômodo. É como se esse passado não existisse, ou pior, não incomodasse!
Aí, posam eternamente como "viúvas do garotinho", ou "as mal amadas do ex-chefe", na medida que adoram se colocar como vítimas em uma relação (política), que todos sabemos, era uma via de mão dupla!

Agora, as fofocas dão conta que o PDT e sua parlamentar estão desembarcando da frente. Tanto faz. A presença de um partido que mantém em suas hostes uma parlamentar que, até hoje, não explicou os 1.8 milhão gastos, para posar de destaque na Passarela do Samba, como uma Imperatriz, é um símbolo estranho de apego à coisa pública, ou não?

Um dos temas mais espinhosos e impopulares, como outros que já mencionamos, é a questão da contratação sem concurso pela municipalidade, os chamados "terceirizados", mas que já foram cooperativados, folha de linha, RPA, e um monte de apelido para fazer a mesma coisa: Contratar sem concurso e trocar voto por emprego!

A questão serviu para afastar prefeitos (C.A.Campista), mover processos, mas como uma hydra*, renasce com outras cabeças, e se entranha mais e mais na administração, e continua a desequilibrar disputas eleitorais e sugar recursos públicos para fins distintos do que deveria ser.
Sem mencionar a imoralidade e injustiça com quem se prepara e espera por um concurso público, e como tal, não se dispõe a ser apadrinhado, junto a desmotivação óbvia dos servidores estatutários, submetidos a essa relação promíscua, onde o valor de suas carreiras e dedicação são soterrados por injunções de mesquinharia política de todo calibre!

Quem nessa cidade sabe dizer exatamente quantos são os contratados, a quê, e a quem servem, e por quanto tempo?

Você imagina que o PDT ou sua parlamentar podem, sinceramente, questionar essa prática nefasta?

O silêncio da frente puxadinho e das autoridades, que parecem ter desistido (depois de TAC, e outros eufemismos para dizer que agem quando não fazem nada), é assutador.
É um  convite a impunidade e imoralidade, como se dissessem com seu silêncio cúmplice:
"Nessa cidade, o crime compensa"!

Já está na hora da frente sair pelos fundos. Os fundos da História!



*Hydra: Animal mitológico com várias cabeças, que cortadas, renasciam. Liquidar a hydra era um dos doze trabalhos de Hércules.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Ligações perigosas!

A situação de Berlusconi, primeiro-ministro da Itália, não é lá muito boa. O Tribunal de Milão aceitou processá-lo, e marcou a data para início dos trabalhos processuais, 06 de abril desse ano. Parece irônico que escândalos sexuais sirvam para condenar o político italiano, sobre quem pesam acusações muitíssimo mais graves.

Berlusconi, e o público italiano em geral, pareciam cultivar tais acusações como um sinal de masculinidade.

Assim, o cavagliere, manteve sua coalisão de governo às custas de acordos, muito poder econômico, manipulação das leis, malabarismos políticos, e a benção da Máfia. É verdade que a incapacidade política da oposição também contrbuiu, e muito.

A percepção de impunidade, soprada por um poder quase absoluto, soterrou-lhe o senso de julgamento. A enorme crise italiana (cresceu módicos 1%, no ano passado) deu as condições históricas para que sua dinastia fosse colcada em xeque.

Leia a entrevista da autora alemã, especializada em Máfia e crime organizado à revista Carta Capital, que copiei lá do blog Viomundo:


14 de fevereiro de 2011 às 12:25

Berlusconi é o braço entre política e Máfia

14 de fevereiro de 2011 às 9:04h


por Paolo Manzo, em CartaCapital
A Itália de Berlusconi continua encenando um interminável e deplorável espetáculo que a cada dia se enriquece com novas histórias de orgias organizadas pelo premier e outras aventuras sexuais do próprio. O governo está entregue à tentativa de sobreviver graças a uma maioria costurada à base da compra de parlamentares e tramoias variadas, enquanto se cogita de novas leis para garantir a impunidade de Berlusconi. A Itália teve o pífio crescimento de 1% em 2010 e a inquietação reina tanto entre os empresários quanto entre os trabalhadores.
Nesta moldura vale registrar o que escreve uma jornalista alemã, Petra Reski, do semanário Die Zeit, especialista em criminalidade organizada, autora do livro Máfia – Padrinhos, pizzarias e falsos padres, que a editora carioca Tinta Negra acaba de publicar. Segundo o Frankfurter Allgemeine, trata-se do melhor já dedicado ao tema. Como não podia deixar de ser, Silvio Berlusconi cabe também neste enredo.
Outra personagem execrável é o mafioso Vittorio Mangano, pluri-homicida falecido há 11 anos na prisão depois de ter oficialmente exercido a função de cavalariço na residência de campo do premier, em Arcore. Antes disso, havia se destacado nos anos das chacinas e atentados, 1991 e 1992.
Dois juízes assassinados exatamente neste período são os heróis do entrecho, Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, colegas no pool antimáfia, ambos responsáveis pelo maxiprocesso que em 1987 condenou 360 mafiosos a 2.660 anos de cárcere. Foi Borsellino quem definiu Berlusconi como “uma das cabeças de ponte na organização mafiosa no Norte da Itália”. Com a palavra Petra Reski, há algum tempo constantemente ameaçada de morte.
CartaCapital: A senhora acompanhou os eventos dos anos de Borsellino e Falcone?
Petra Reski: Sim, em 1989 me transferi para a Sicília, como correspondente da revista alemã Stern. Havia Borsellino e Falcone ainda vivos. Um momento de grande entusiasmo pouco antes da queda do Muro do Berlim, tinha-se a impressão que o curso da história poderia mudar.
CC: No entanto, passados mais de 20 anos, falava-se da “Primavera de Palermo”. Qual é seu balanço?
PR: No que se refere à Máfia, infelizmente nada mudou. Pelo contrário. A Máfia tem essa formidável capacidade de se adaptar às mudanças. Num certo sentido até antecipa os tempos em relação aos políticos. Os mafiosos sempre foram muito hábeis em desfrutar a globalização em sua própria vantagem. Eu sou rea-lista, e já depois dos assassinatos de Falcone e Borsellino, em 1992, percebia que a luta contra a Máfia estava declinando. Em 1994, Berlusconi entrou na política, o que foi devastador para a luta contra a criminalidade organizada.
CC: Por quê?
PR: A primeira mensagem que Berlusconi lançou foi: “Chega de associar a Sicília com a Máfia, a Sicília é outra coisa”. Esta é uma mensagem que nas entrelinhas queria dizer: “Vamos parar com essa concentração de luta contra a Máfia”. Uma mensagem devastadora. Conhecendo bem o cenário na Sicília, -ninguém poderia imaginar que algo pudesse ser feito sem a sustentação da Máfia. Quando todas as cidades e os lugarejos da Sicília foram embandeirados por Forza Italia, o primeiro partido com o qual Berlusconi venceu as eleições, em 1994, entendeu-se que ele contava com o apoio da Cosa Nostra. Porque, se você não está com a Máfia, na Sicília, as bandeiras dos partidos são queimadas. Além disso, os ataques que há anos Berlusconi lança contra a magistratura e as instituições favorecem muito a Máfia.
CC: Quem era Mangano?
PR: Naquela época, uma jornalista havia me falado que na casa de Berlusconi vivia um mafioso. Parecia-me impossível, mas comecei a trabalhar no caso e contemporaneamente aparece o papel de Mangano, como conexão entre a Máfia siciliana e um pool de empreendedores da Itália do Norte. Ele era a ponte. Quem descobriu que o cavalariço de Berlusconi na Villa di Arcore era um pluri-homicida foi justamente Borsellino.
CC: A última entrevista televisiva que Borsellino concedeu dois meses antes de morrer falava justamente dos cavalos de Mangano.
PR: Sim, os famosos cavalos, ou melhor, as grandes remessas de cocaína, mas principalmente explica a conexão entre a Máfia siciliana e os empreendedores do Norte, entre os quais Berlusconi. Aquela foi uma mensagem importante, a última da vida do juiz Borsellino.
CC: No seu livro, a senhora entrevista as filhas e a mulher de Mangano.
PR: Sim, e tive a clara sensação de que havia uma mensagem transversal que na realidade elas pretendiam enviar a Berlusconi, quase uma ameaça, como se dissessem “querendo, poderíamos contar toda a verdade”.
CC: Mas Mangano morreu em 2000.
PR: Sim, entrevistei as mulheres da sua família em 1999. Ele se encontrava ainda na cadeia e elas concederam a entrevista por uma razão bastante clara. Queriam que Mangano saísse da cadeia já que estava muito doente. Foi um verdadeiro e próprio spot. As filhas de Mangano eram perfeitamente crescidas na cultura mafiosa. Lembro que Cinzia, a filha do meio, era a mais atrevida. Contou que quando Falcone foi morto estava com um amigo na praia. E este amigo lhe disse: “Agora está tudo acabado”. Ela o interpretou como se tudo tivesse terminado, não para a antimáfia, mas para a Máfia contrária a Totò Riina, que estava associado a Mangano. Percebi, em todo caso, algo como uma chantagem encoberta. Disseram-me várias vezes que lembravam perfeitamente quando almoçavam ou brincavam com o filho de Berlusconi, Piersilvio, hoje na direção do império mass-mediatico Mediaset. Deixavam entender ter uma grande familiaridade com os Berlusconi. E diziam que Vittorio, mesmo tendo recebido pressões por parte dos magistrados, nunca teria falado, enlameando o nome dos Berlusconi, e jamais se tornaria colaborador de Justiça. As moças até trabalharam em Milão numa empresa de limpeza que pertencia a Dell’Utri…
CC: Marcello Dell’Utri, senador, chegadíssimo a Berlusconi, foi condenado em duas instâncias por suas relações com a Máfia.
PR: Encontrei-o durante o processo no Palácio de Justiça, em Palermo. Estava no corredor, me aproximei, mas não quis falar comigo. Além do mais, quando saiu o meu livro na Itália, anunciou uma ação judiciária contra mim. Ameaça descumprida. Berlusconi foi utilizado por Dell’Utri e agora está envolvido até o pescoço. Dell’Utri é a mente do sistema, não Berlusconi.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Balançando!

Se continuar a emagrecer, a frente sem povo corre risco da anorexia política. Anuncia hoje um balanço. Sei não, se balançar muito, não sobra nada.

Quem observar o "registro fotográfico" de uma das atividades da frente na localidade da Tapera vai perceber que a frente toda cabe em um fusquinha 66, junto com toda a imprensa, é claro!

Teve vereador que tirou o pé do chão, e vai enfiar o pé na jaca!

Já outro vereador de peso vai passar a ficar quietinho em seu canto, senão corre o risco de ficar sem legenda em 2012. Vai ser  cozido em fogo lento, e suas aparições como prócer da oposição vão minguar cada vez mais!

É só esperar para ver!

De que tem medo o governo?

Na maioria das vezes, os atos de intolerância são provocados pelo desconhecimento da situação, dos interlocutores, e pelo medo de que nossos erros venham à tona durante a interlocução. A intolerância é o medo do outro, e pior, de si mesmo!

Só o medo de reconhecer seus erros, como a total falta de política pública para o setor de ensino superior, e sua incapacidade de lidar com as demandas e lideranças de uma Universidade autônoma, justifica a postura"avestruz" do Governo do Estado, e da Secretaria de Ciência e Tecnologia em relação a UENF.

Falta coragem ao Governo e seus representantes da secretaria em enfrentar o debate democrático, a possibilidade de recuos e avanços de todo o processo reivindicatório.

Falta sensibilidade de enxergar os prejuízos decorrentes de sua desastrada condução da questão salarial, que podem soterrar gerações de esforço e dedicação à pesquisa e a inovação, fundamentais no jogo de deslocamento de poder que o Brasil e nossa região enfrentarão ao longo dos próximos anos.

Podemos argüir que as demandas são justas ou menos justas, umas possíveis, outras menos, mas o que um governo não pode fazer, sob nenhuma hipótese, até porque seus mandatos decorrrem da NOSSA delegação, aí incluídos os servidores públicos, é ignorar todas as tentativas de negociação, empurrando o movimento para uma parasilação que deteriora, ainda mais, as condições já precárias da Universidade.

Assusta ainda mais o silêncio da classe política local, alguns, como os integrantes da frente de oposição, por manterem-se sob a coleira do governador, outros, como o casal de ex-governadores, porque quando lá estiveram, fizeram pior, portanto, falta-lhes autoridade moral para questionar os desmandos atuais.

Ao que parece, a tarefa que se dedica o governador e seus auxiliares é destroçar o legado de Darcy Ribeiro, dando continuidade ao "excelente" trabalho de seus antecessores, e pelo mesmo motivo:
Medo.
Medo do conhecimento que universidades produzem.
Quem tem conhecimento não pode ser domesticado.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A voz do PIG em uma frase!

Para dar a dimensão e gravidade às suas inserções sobre a queda de Mubarak e a revolução no Egito, a vênus platinada escalou o pit-bonner.

Ainda que falasse em tom falsamente sóbrio, o locutor escorrega e sapeca uma frase que desnuda a hipocrisia que reina na mídia sobre os eventos no Oriente Médio, e sobre geopolítica em geral:


"(...)cai um dos governos mas estáveis da região(...)"

Lógico que não interessa aos hommers simpsons, que assistem e acreditam em pit-bonner, que estabilidade não é, nem nunca foi adjetivo para governo que se mantém no poder a custas de exclusão, corrupção, violação de direitos humanos, eleições arranjadas, tudo financiado pelo Departamento de Estado do Império.

Caiu!

Renunciou o ditador amigo dos EEUU e da Europa, Hosni Mubarak, que há 30 anos ocupava o poder no Egito.

Como o Império não leva desaforo, e seus aliados israelenses estão de orelha em pé, veremos o desenrolar dos eventos e os rumos da revolução egípcia!

O controle sem controle!

Li no blog do Roberto Moraes que há o embrião de um "movimento de controle social" na cidade de SJB. Uma piada, e de mau gosto.

Um dos maiores embustes que parte da academia produz é pretender que sua ciência é neutra, e como tal, está acima dos conflitos da sociedade, que, geralmente, despreza e categoriza como sub-interesses ou interesses impuros!

Lógico, que esses sofismas são fabricados e facilitados pela percepção que todos nós temos da política e do seu exercício, geralmente simbolizados pela corrupção. O senso comum elaborado a partir de simplificações que nunca, NUNCA, atingem os problemas em seu âmago.

Bom, aí, uma vez instalada a descrença na política como ferramenta de transformação, inventam outra instância política, mas que cheia de boas intenções e iluminados, se coloca como solução: O Controle Social.

Como não há almoço grátis, essas iniciativas se aliam ao que há de mais conservador e mais atrasado, que envergam e ampliam o discurso moralista de ocasião.

Foi assim em Campos dos Goytacazes, e como não avançaram muito por aqui, e desde cedo desmascarados, mudaram para SJB.

Leiam a frase de entrada do convite a mobilização, publicada no blog do Roberto:

(...)Prezado amigo,
Interessados em uma discussão mais qualificada(...)"


 Qualificada! Como assim, caras-pálidas? Quem legitima essa hierarquização que coloca seu debate como qualificado, em detrimento dos debates não-qualificados(todos os debates que não são deles, é claro!)?

Essa pretensão exclusivista traz em si sua própria natureza, que também é política: "Ensinar" as pessoas como encaminhar suas lutas e seus interesses, paternalizar os movimentos e capturá-los, sabe-se lá em nome de quais interesses.

Aqui em Campos dos Goytacazes esse movimento pretendia o controle social com o auxílio da órgãos que representam os escravocratas, entidades de classe de empresários que vivem pendurados em "convênios" com verbas públicas, etc, etc, etc.

Foram logo desmascarados!

 Afinal, perguntamos: Quem controla o controlador?