domingo, 9 de janeiro de 2011

Passaporte para Pasárgada!

Desde já deixo claro: Não concordo com o "tratamento" especial que parentes de "autoridades" têm para conseguir passaportes diplomáticos. Como também não concordo com foro privilegiado, ou prisão especial para portadores de diploma de terceiro grau. Se a discussão é acerca dos privilégios de alguma "casta", ou da prostituição dos interesses de Estado pelos negócios privados, eu também estou disposto a "cornetar".

Mas o que não pode, é direcionar a discussão a um único "alvo", nesse caso, o presidente Lula, por motivos que já sabemos: Boa parte da mídia tradicional se porta como partido político, embora grite, berre e espereneie por uma "neutralidade" que nunca existiu!

É divertido quando o próprio PIG desmoraliza o PIG. Essa é uma das boas coisas da liberdade de imprensa, e nós gostaríamos que esse dissenso se desse com mais freqüência, por questões editoriais e comerciais, como forma de evitar monopólios de informação.

Então, para comemorar, vamos a matéria do Estadão acerca dos "passaportes" dos filhos do Lula, elevado a tema crucial para nossa República nos últimos dias. Copiei lá do blog do Miro:

Passaporte: Estadão desmoraliza a Folha

Por Altamiro Borges

"A Folha inventou mais um factóide para arranhar a alta popularidade de Lula e, de quebra, criar constrangimentos para Dilma Rousseff bem no início do seu governo. Ela deu manchetes para a "grave" concessão de passaportes diplomáticos aos filhos do ex-presidente. Todo dia ela bate bumbo com este assunto "altamente relevante". Mas este escárceu todo é ridículo e, como tal, foi desmoralizado pelo concorrente Estadão.

Reportagem de Denise Madueño e Leandro Colon revela que a emissão destes passaportes é um fato corriqueiro há muito tempo. E não beneficia apenas os filhos de Lula, como a Folha insinua maldosamente - com objetivos políticos, de oposicionista hidrófoba. Outros ex-presidentes também tem esse direito, além de deputados e seus parentes.

Emissão de 360 passaportes

Segundo a reportagem, "pelo menos dois terços dos passaportes especiais solicitados pela Câmara dos Deputados ao Itamaraty, entre esta sexta-feira, 7, e fevereiro de 2009, foram para mulheres, maridos e filhos dos parlamentares. E cerca de 87% dos vistos internacionais para esses documentos tiveram motivação turística, segundo dados da Segunda Secretaria da Câmara, responsável por essa tarefa".

"Quem tem esse documento recebe privilégios em aeroportos, como filas e atendimentos especiais, prioridade em bagagens e, dependendo do país, fica até dispensado da necessidade de tirar visto... O balanço da Câmara mostra que cerca de 360 passaportes diplomáticos foram emitidos nestes últimos dois anos... De acordo com os dados, pelo menos 125 passaportes foram emitidos para filhos e 110 para cônjuges".

Guerra queimou a língua

O presidente do PSDB, Sérgio Guerra - que fugiu da disputa pela reeleição ao Senado em Pernambuco, mas adora posar de jagunço -, emitiu uma nota com duras críticas ao ex-presidente na esteira do factóide da Folha. Ele devia ser mais cuidadoso com sua língua ferina. O registro da Segunda Secretaria mostra que, no dia 21 de dezembro do ano passado, o deputado Carlos Leréia (PSDB-GO) mandou o ofício 250/2010 pedindo passaporte diplomático e visto para ele, a mulher e três filhos viajarem para Miami.

Parlamentares de vários outros partidos também gozam deste privilégio. "Em julho de 2010, a Segunda Secretaria providenciou passaportes diplomáticos para dois filhos de Ratinho Júnior (PSC-PR) viajarem a 'turismo', segundo a Câmara, para Miami". A legislação para emissão de passaporte diplomático é vinculada ao decreto 5.978/2006 e garante este direito aos membros do Congresso e seus dependentes. O benefício pode até ser impopular, mas é legal - o que confirma a baixaria da Folha.

Tratamento diferenciado e seletivo

O curioso é que esse mesmo jornal, de propriedade da Famíglia Frias, nunca foi atrás das várias denúncias envolvendo o ex-presidente FHC. Alguns dos seus colunistas, até pelas relações íntimas que mantêm com o tucano, conheciam as denúncias, mas sempre o trataram como um "princípe da Sorbonne" acima de qualquer suspeita. No seu ranço de classe, preferem criticar o peão Lula, que tira suas férias em quartéis no litoral brasileiro, do que falar mal do aristocrático FHC, que sempre viajou para a Europa.

Como observou Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania, a cobertura sobre factóide do passaporte especial - que a Folha detonou e, na dobradinha orquestrada, a TV Globo amplificou - é totalmente distorcida. Ela só engana os ingênuos, metidos a puristas. O tratamento diferenciado dados aos dois ex-presidentes só confirma a manipulação.

A mídia "jamais incomodou FHC com a história do filho ilegítimo que gerou com uma jornalista da Globo... As encrencas de outros filhos de FHC, os assumidos por ele, jamais chegaram tão rápido ao noticiário. Só em 2009, oito anos depois de o tucano deixar o poder, a mídia soltou notinhas sobre Luciana Cardoso, que recebia salários do Senado sem aparecer por lá para trabalhar", afirma, indignado, Eduardo Guimarães."

4 comentários:

Marcelo Bessa Cabral disse...

Calma aí, Douglas:
O texto que você reproduziu tenta - dado o fato de que pessoas usam o benefício de forma imoral, mas legal - minimizar a questão e tornar lícita uma conduta imoral e ilegal.
O fato de haver previsão legal para que congressistas e seus parentes tenham passaporte diplomático (não concordo em relação aos parentes) não autoriza ninguém a dizer que a concessão de passaportes do mesmo tipo para filhos (que nem são mais dependentes, dada a idade) de pessoas que NÃO SÃO MAIS autoridades seja um factóide.
Trata-se de uma clara e escrachada ilegalidade (quanto à imoralidade nem precisamos falar).
O texto tenta justificar o injustificável: onde houver erro que seja mostrado, mas um erro não justifica o outro.
O fato de este ou aquele veículo de imprensa abordar ou não tal ou qual assunto não torna irrelevante o tema mostrado (é relevante na questão da ética jornalística, mas não torna o assunto desimportante).
É o que penso.

douglas da mata disse...

Marcelo, calma peço eu. Releio o texto todo, desde a introdução que fiz.

Bom, ali você poderá ler que não concordo com os "privilégios", mas não me restrinjo a esse ou aquele "privilégio", nem muito menos a esse ou aquele beneficiário.

Esse é um blog de opinião política em sua essência, e como uma das searas mais profícuas desse debate é a mídia, destaquei um texto que descortina a hipocrisia da grande mídia, só isso.


Considerando que presidentes podem sofrer ameaças ou constrangimentos quando deixarem o mandato, estipulou-se essa possibilidade, aliás, comum na maioria dos países ocidentais. E o "benefício" se estende aos filhos (maiores ou não)penso eu porque eles não deixam de ser alvos em potencial por atingirem a maioridade.

E concorde você ou não com a ideologia ou a desenrolar do mandato desse ou daquele presidente, há uma liturgia e uma compreensão que um ex-presidente é sim, um patrimônio do país.

Creio que copiamos esse modelo dos EEUU.

E para concluir: não se trata "desse" ou "daquele" veículo, mas sim da esmagadaora maioria da mídia, replicada por outros veículos, sem o menor cuidado de checar os fatos.

Ora, ainda assim, não questionei a liberdade de estabelecer pautas e produzir conteúdos pela mídia. Eles que enfrentem a rejeição (ou aplauso) de seus leitores.

Mas o que destaquei aqui, e repito, foi o caso dos veículos que escolheram noticiar o caso dos passaportes tenham feito de forma "escrachada" (emprestando um adjetivo seu) e "esqueceram" de citar que esse é um caso que se estendeu a todos os ex-presidentes e aos parlamentares, inclusive os do partido que emitiram nota esculachando o ex-presidente Lula.

Aí está o factóide, que em sua definição é a exacerbação de um fato, publicado a partir de uma visão de mão única.

Foi essa incoerência que o texto procurou mostrar.

Mas a minha opinião sobre o assunto continua intacta: Sou contra a concessão de passaportes a filhos maiores, parentes ou outros "agregados". No máximo para mulher e os filhos menores.

Por derradeiro, não considero o comportamento da mídia (que na maioria das vezes utiliza um espaço público concedido, no caso da radiodifusão, e isenção fiscal para jornais, portanto, dinheiro público dado de forma "invertida")apenas uma "questão de ética".

É questão política, influencia e manipula opinião e como tal, deve ser discutida por nós.

A liberdade de expressão é muito maior que a liberdade de imprensa, e em nosso país isso é patente: A liberdade que as empresas de mídia gozam não significou a criação de múltiplos olhares sobre os fatos. As últimas eleições são o exemplo acabado do que digo.

Um abraço.

Marcelo Bessa Cabral disse...

A sua parte do texto eu entendi e concordei: só falei do texto que foi transcrito.
Mas acho que não há factóide: há um fato e - como cansa de acontecer ultimamente - algumas pessoas tentam minimizá-lo citando outros, para que todos se desviem do tema proposto e no fim o tal fato caia no esquecimento.
Um abraço.

douglas da mata disse...

Talvez, Marcelo, porque eu enxergue na publicação e, ou veiculção de certos fatos (ou factóides)mais interesses dos que, geralmente, a grande mpidia deixa transparecer ao pretender uma "falsa" imparcialidade, até porque, já foi provado, ela é impossível.

Temos leituras diferentes da mídia, e isso é normal no jogo democrático.

Por isso, não vejo que o texto se destina a "desmerecer" ou tentar estabelecer uma "cortina de fumaça", mas ao menos "reequilibrar" a balança dos fatos.

É simples: se queriam comentar o fato, deveriam tê-lo feito por inteiro, principalmente, por se tratar de um ex-presidente. Esse é o equilíbrio de que falamos.

Faria muito mais sentido e, penso eu, daria muito mais resultado (do ponto de vista cívio-pedagógico) se fosse feito de forma ampla, a questionar TODOS os passaportes, de TODOS os ex-presidentes, e depois, quem sabe, questionar a incoerência de um presidente que sempre criticou mordomias, mas não abriu mão delas.

Do jeito que foi publicado, desmascara a manipulação e possibilita, aí eu concordo com você, a manipulação de sinal invertido. No fim, perdemos todos ao deixarmos de enxergar o quadro todo,sob as lentes do falso moralismo ou do maniqueísmo inútil.

Um abraço.