quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Estranha coincidência?

Toda a mídia nacional e internacional se esforçoram para arrancar um pouco mais de sensacionalismo do triste episódio no estado do Arizona, nos EEUU. Com a superficialidade de praxe, raros foram os veículos que vincularam o ataque, que culminou com a morte de várias pessoas, e que feriu gravemente outras tantas, a ação política da exterma-direita estadunidense, reconhecida pelo seu braço mais barulhento, o Tea Party.

Nessa busca pela diluição dos fatos, a mídia de lá e de cá tropeçaram em uma infeliz coincidência: Uma das vítimas, uma menina de 09 anos, nasceu no 11/09 e morreu, justamente, em outra tragédia da "civilização estadunidense", outrora e ainda, modelo (voluntário ou compulsório) para nós, ocidentais sulamericanos.

Os eventos, o ataque das torres gêmeas, e o atentado contra a deputada democrata que fazia um encontro político com seus eleitores em um supermercado, conhecido como Congresso na esquina, não têm nenhuma relação aparente, é óbvio. Mas se olharmos mais de perto, é impossível deixar de enxergar uma relação de causa-e-efeito entre os episódios de violência. Ao que parece, o ciclo de ódio e medo que foi instalado para combater o ódio que vinha "de fora", acabou por atingir em cheio os valores que mais eram caros a uma sociedade que, hoje, parece refém de si mesma.

Em tempos de discussão sobre a "legitimidade" dos atos terroristas em diversos contextos, vale à pena, até para conhecer e evitar sua propagação, a natureza do ódio que impregna essas ações, sua teleologia política, tudo de acordo, como dissemos, com a conjuntura na qual estão inseridos.

Para esse debate, trouxe do blog Dilema Dissonante um ótimo texto do Paulo Victor. Vamos a ele:

terça-feira, 11 de janeiro de 2011


O 11/9 revisitado

image "O tema das crenças tem sido muito comentados em alguns blogs que leio e que estão distantes do centro político. Este foi o tema de um curso que fiz na Academia Brasileira de Letras, “Mutações: A invenção das crenças, e semana passada ouvindo na internet uma destas palestras me deparei com uma leitura interessante acerca do sentido religioso do atentado contra as torres gêmeas. Esta leitura foi o tema da conferência de Jean-Pierre Dupuy que tento aqui reproduzir, com as minhas palavras.
O atentado as torres, segundo o conferencista, embora tenha atingido um símbolo do capitalismo mundial não teve efeito qualquer sobre o nosso modo de pensar racionalista e individualista. Tal modelo, já entronizado pelo senso comum, consiste em estabelecer razões para todas as ações da vida com base em desejos e crenças.
Ora, do ponto de vista das crenças toda ação é justificável, ou seja, conta com um mínimo de racionalidade. Assim, mesmo os atos insanos de terrorismo perpetrados em 11/09 podem ser explicados por meio de um processo em que se atribui crenças infactíveis aos agentes a fim de garantir a explicabilidade de suas ações. Por outras palavras, conferimos aos atos de outros motivações que não seriam capazes de nos fazer movimentar o mesmo dispêndio de força, rotulando-os como religiosos.
Isto só é possível pela criação de um estrangeirismo da cultura, ou seja, um sistema em que nós não nos reconhecemos naquelas pessoas, enquanto pessoas, e utilizamos argumentos no sentido de atribuir-lhes motivações insanas que nós mesmos não teríamos.
A explicação de Dupuy opõe-se a este sistema de alteridade invocando uma suposta identidade entre as culturas, entendendo tratar-se não de um ato de cunho religioso mas sim político. Menciona, em seu favor, a lição de Tocqueville que afirma que as maiores oposições se dão entre os iguais.
O que ele busca colocar no centro do debate é o caráter de espoliados com que os muçulmanos se reconhecem em relação ao ocidente. Afirma, para tanto, que na verdade eles não odeiam o “progresso” porém tem que lidar cotidianamente com a contradição de ser sistematicamente derrotados na luta pelo progresso. Assumem, portanto, o papel de vítimas, não pelo ódio ao ocidente, mas pelo próprio desenvolvimento do espírito competitivo no seio de sua própria cultura.
Enfim, invoca uma imagem de guerra civil dentro de uma única sociedade civilizacional compartilhada cujo motivo não é a defesa das tradições mas sua perda sem qualquer contrapartida. O ocidente não é, portanto, o seio da degeneração em si mesmo mas tão somente enquanto obstáculo ao “progresso” daquela parcela da civilização.
Tal processo de espoliação permitiu que os criminosos que fizeram o atentado contra as torres gêmeas, também por um senso anti-americano, pudessem ser vitimizados a uma pela injustiça da espoliação e também pelo autosacrifício.
Ainda assim, os teóricos continuam a se questionar sobre os objetivos e as estratégias dos terroristas sem perceber que seu objetivo não é, nem foi, derrubar as torres. As torres foram somente o alvo da inveja, do olhar atravessado, para o “progresso” do ocidente que representavam e o obstáculo ao seu próprio progresso.
Em suma, o que ocorreu não foi o ato sacrificial das vidas dos terroristas, o autosacrifício, mas o sacrifício real que agrega em si o terror e a veneração, ou seja, foi a própria sagração daquele espaço por meio da violência. Ali, o que foi sacrificado, a despeito de todo anti-americanismo, foram vidas inocentes. Tal fato só pode ser negado pelo discurso religioso que afronta o caráter político do ato realizado.
Por fim, enquanto realização do sagrado, da violência, o ato dos terroristas pode sim ser explicado mas não justificado, ou seja, ele quebra com o modelo de arrazoamento por meio de desejos e crenças."

Postado por Paulo Victor.

3 comentários:

Paulo Victor disse...

Olá!!

Muito obrigado... Nem tenho palavras...


Abraços

Anônimo disse...

como fazer uma análise séria sobre um atirador com problemas mentais? Não há como.

douglas da mata disse...

Caro comentarista,

Esse é o cerne da questão. Foi isso que o texto procurou informar.

Não dá, como querem alguns, reduzir a complexidade desse fenômeno político (que, inclusive, nos EEUU é historicamente recorrente) a um distúrbio comportamental.

Lógico que se trata de um "surtado", mas essa sociedade "doente" que produz "surtados" desse tipo, e lhes dá meios e um motivo para desferir tiros contra inocentes.

Os meios de comunicação tentam, e eu respeito essa visão, embora discorde dela, isolar o caso como se fosse apenas uma manifestação patológica.

No meu entender, não é. Pelo menos, não é só isso.

A "patologia" se estende a uma compreensão política do mundo que passa pela eliminação do outro, ainda que essa eliminação seja física.

Esse viés da morte como instrumento de "fazer poítica" é o que une fascínoras como Hitler, Stálin, Pol Pot, Sarah Palin, Mao Tsé Tung, Bush jr, Osama Bin Laden, etc, etc, etc.

Como essa ideologia da "morte" encontra, SEMPRE, seus partidários, pipocam em escala maior (torres gêmeas, atentado de Oklahoma, World TRade Center, em 1992, etc, etc), ou em escala particular como Columbine, Wacko, e esse maluco de agora, no Arizona.

Não pretendemos fazer análise sobre o "maluco".

Mas é importante analisar a "maluquice" na qual ele está inserido.

Um abraço.