segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Dilma, a "falha" da folha, Estado e religião: Um debate desfocado!

Não há dúvidas sobre a importância da liberdade de imprensa em sociedades regidas pelo estado democrático de Direito.
A própria presidenta Dilma já vaticinou, e sua história de resistência ao arbítrio e ao autoritarismo não deixa margem a especulações acerca dessa crença.

E se o poder se exerce através dos símbolos, e a linguagem é um dos mais importantes símbolos da atividade política, quando a presidenta diz que: "Prefiro o barulho da pior imprensa que o silêncio da ditadura", não é uma mera frase de efeito!

Mas o governo Lula, e agora o governo Dilma parecem dispostos a sinalizar, cada qual a seu jeito, que lutar pelas liberdades não significa ficar refém delas, ou de algumas de suas manifestações, nesse caso, o assédio dos grandes grupos de mídia, que há muito tempo, durante a campanha e até depois da posse, mantêm-se como um partido político de oposição.

O episódio de ontem, domingo, quando a folha de são paulo, porta-voz paraoficial da campanha serra, e dos demotucanos em SP, procurou instigar com suas manchetes o ódio religioso, a partir da constatação (falsa, diga-se de passagem)que a presidenta havia retirado de seu gabinete alguns objetos cristãos (um crucifixo e uma bíblia) revelou não só a conhecida (im)postura da nossa grande(?) mídia. Descortinou também recalques que temos que resolver no nosso campo político, sob pena de sucumbirmos a incoerência que pretendemos combater.

 O objetivo, além da informação (irrelevante), que nesse caso, se viu depois, era mentirosa (ou "mal apurada"), era indispor a presidenta com um tema incômodo, que já lhe trouxe prejuízos durante a caminhada rumo ao planalto: A religião! Assim, ao sentenciar que Dilma retirara os símbolos da fé cristã, a folha induzia seus leitores a:

1. Dilma é anti-cristã ou;
2. Dilma submete sua posição ao sabor dos ventos e necessidades de marketing, na medida que, ora assume (na campanha), ora renega (já no poder) sua fé, caso ela exista de fato.

A atuação rápida da secretária de comunicação Helena Chagas, possível apenas pela incrível rapidez e capilaridade que a internet possibilita,  tratou de colocar as coisas em seus lugares, e refez a verdade: O crucifixo saiu porque era propriedade de Lula, o antecessor, e o livro dos cristãos estava em outra sala, lá colocado antes da posse.

Na verdade, tudo acabaria por aqui, e mais uma vez (não a única, nem a última) estariam os meios de comunicação desnudados em seus interesses escusos.

Mas, infelizmente, não é só isso.

Aqui se esconde um detalhe grave, e como sabemos, aí mora o "diabo"!

Que a presidenta, quando em campanha, se esforçasse para evitar temas polêmicos, e tenha sucumbido às necessidades dos "fazedores de imagens" é compreensível, embora não seja desejável para um momento importante como é o da escolha do(a) maior mandatário(a) do país. Mas esse não é um problema só da nossa Democracia, e sabemos disso.

Mas o perigoso é a presidenta que disse em alto e bom som: "Sou a presidenta de TODOS", manter-se refém da lógica que mistura fé e Estado, religião e política!

Deveria haver o desmentido? Óbvio!

Mas por que limitar-se a desmentir, como se fosse um apressado "pedido de desculpas" aos católicos e outras denominações cristãs?

Ao se limitar a desfazer a manipulação da folha, ou a "falha da folha", a SECOM da presidência manteve uma parte do problema sob o tapete, e deixa arestas suficientes para que o tema volte a incomodar.

Ou seja: Combateram supreficialidade com mais superficialidade!

Perguntamos:
Em um Estado laico, deve a presidenta ostentar em seu gabinete símbolos relacionados ao culto de uma denominação religiosa qualquer que seja ela, ainda que majoritária?

Penso que não!

E mais:
Pouco importa qual o credo da presidenta, ou se não há nenhum.
Importa, e muito, se a presidenta é capaz de afastar a moral religiosa dos temas de Estado, única maneira possível de evitar a particularização das políticas públicas que se dirigem a todos, crentes ou não, porque afinal, independentemente da fé, são todos contribuintes.

Mais uma vez, assim como no caso battisti, ou no caso dos passaportes, perdemos uma ótima oportunidade de discutirmos as nossas contradições.

4 comentários:

Anônimo disse...

Penso que não tem qualquer problema a Presidente ostentar um símbolo da religião que alega ser a sua e acho que não fere a caracterísitca laica do Estado brasileiro.
Ora, como funcionário público, acho que teria direito de ostentar algum símbolo religioso, caso tivesse alguma religião.
Mas refletindo melhor, me pergunto se poderia ostentar algum símbolo de umbanda, por exemplo.
Parece que o blogueiro tem razão, se eu não devo ostentar um simbolo da umbanda ou do vudu (será que é assim que se escreve?) no meu setor de trabalho, também não devo ostentar símbolo de nenhuma outra religião, sob pena de estar discriminando a umbanda ou o vudu.
Ao começar a discorrer sobre o assunto passei a concordar plenamente com o post do blogueiro: o caso realmente deveria ter sido enfrentado pela presidência e definida uma posição sobre manifestações religiosas em prédios públicos.
Pode para todas as religiões, incluídas as menos aceitas como macumba, candoblé. vudu, etc. ou não pode para nenhuma, cabendo apenas manifestações em cordões, pulseiras ou outros adornos pessoais.
Perdeu-se uma boa oportunidade de separar Estado e religião.

douglas da mata disse...

Veja, comentarista, que esse tema é árido, e requer cuidados.

Longe de mim ferir a liberdade de expressar a fé, qualquer que seja ela, através de símbolos.

Mas a questão, que você compreendeu é a ocupação de espaço público por esses símbolos e manifestações.

Aparentemente inocente e inofensivos, na verdade, revelam a "preferência" de uns credos em detrimentos de outros.

Como fé e religião só devem ser discutidas no âmbito de suas congregações, a forma de equalizar a questão é manter o Estado equidistante dos símbolos.

Isso não quer dizer que somos ingênuos a ponto de desconhecer a influência das religiões sobre os Estados Nacionais.

Isso é um fato histórico. Mas também nos leva a refletir o quanto essa influência contribuiu para o atraso desses Estados, na mesma proporção que mantiveram religião entranhado em sus estrutura.

Um abraço.

Roberto Torres disse...

Eu to muito pessimista com essa coisa de religiao na esfera pública.

Meu palpite é que se o psdb se afastar dos religiosos fundamentalistas - que acham que podem vetar uma política pública de combate a homofobia nas escolas -eles ou vao fundar um partido ou vao se aglomerar com forca em um já existente: o PR, claro é o grande candidato.

Talvez superem até a divisao católicos x evangélicos na luta os "canhotos do mal".

Se o governo Dilma nao conquistar, com políticas públicas e econômicas, os novos emergentes, estamos na vala.

Como eu disse, isto é meu palpite. Previsao é coisa de gente mais sabida.

douglas da mata disse...

Roberto,

Desde o fim do século passado, passando pelos atentados de 11/09, até os dias de hoje, há, nos EEUU, uma aliança estratégica entre evenagélicos e católicos, que foi alimentada, não só pela intolerância, mas pela doutrina do destino manifesto, que encontra na doutrina cristã, misturada aos mitos dos fundadores, junto com a tradição de resolução dos conflitos pela força, seu apelo junto ao senso comum do estadunidense médio.

Como vemos, só o conforto econômico, ou melhores oportunidades não são suficientes para engendrar um discurso que privilegie uma esfera pública de debates que seja laica e equilibrada, ainda que reconheçamos e incluamos todas as vertentes de pensamento, até o que media a política pela religião.

Esse pessoal não enxerga ou aceita nada que vá além dos seus dogmas. E com dogmas, você sabe, não se discute. Ou se submete, ou se aniquila.

Quem imaginar que os enormes ganhos da política econômica de Lula bastam para que essa classe emergente se junte na busca por um Estado plural e, ideologicamente, mais justo, engana-se.

Eu também tenho a estranha sensação que o mundo se tornará um lugar cada vez mais estranho.

Um abraço.