sábado, 8 de janeiro de 2011

Contribuições ao debate!

Reproduzimos o texto de Mino Carta acerca de decisão de Lula no caso Battisti:

A injustiça dói

Reflexões sobre o último capítulo do caso Battisti. Talvez não seja o derradeiro. Por Mino Carta. Foto: Nilton Fukuda/AE
Reflexões sobre o último capítulo do caso Battisti. Talvez não seja o derradeiro
Ao negar a extradição de Cesare Battisti, Lula conseguiu reunir a direita italiana à sombra de uma única bandeira, como se deu em manifestações de protesto encenadas em Roma diante da embaixada do Brasil e em Milão em frente ao consulado. Os direitistas viviam desavenças de diversos matizes, a ponto de pôr em xeque a maioria parlamentar de Silvio Berlusconi, agora marcham juntos, contra aquela que consideram afronta à nação e à pátria.
Enredo penoso, nutrido em grande parte por ignorância, incompreensão, hipocrisia, recalques e retórica. Há “patriotas”, e ponho a palavra entre aspas de caso pensado, dos dois lados. Dar guarida a um delinquente comum em nome da soberania nacional é patético. Quanto à afronta que na Itália inflama ânimos reacionários, existe quando se pretende que Battisti, caso extraditado, sofreria perseguição política e correria risco físico. Ou seja, o Estado italiano, democrático e de Direito, não tem condições de garantir a segurança dos seus presos. Ora, em relação ao ex-terrorista só haveria uma certeza: devolvido à Itália, iria para a cadeia. Certamente, com a pena sensivelmente reduzida.
Escreve Sergio Romano, historiador e ex-diplomata de valor: “Gostaria de acreditar que Lula julga a Itália com os óculos de sua experiência brasileira”. Aprecio a definição, mas dia 31 de dezembro o presidente agiu ao sabor da sua índole e a alegada soberania de fato é a visão de um grupelho de correligionários mais ou menos milenaristas, e nem todos de boa-fé. Lula, que diz nunca ter sido de esquerda, quis agradar a um grupelho de fanáticos do Apocalipse distante da compreensão do papel que hoje cabe a um verdadeiro esquerdista em um país ainda humilhado por graves diferenças sociais e por uma lei da anistia imposta pela ditadura.
O caso nasce do erro clamoroso de Tarso Genro, à época ministro da Justiça, ao enxergar em Battisti um foragido político, com a pronta adesão de quantos, poucos felizmente, mas influentes, não percebem a diferença entre quem pega em armas para enfrentar a ditadura e quem as pega com o propósito declarado de derrubar um Estado Democrático de Direito. Sustentava então o professor Dalmo Dallari que a Itália dos anos de chumbo estava entregue a um governo de extrema-direita, para espanto até mesmo daqueles que têm conhecimento apenas superficial da história recente. Governava a península uma coligação de centro-esquerda, o presidente da República era o socialista Sandro Pertini e dois líderes do porte de Aldo Moro, democrata­ cristão, e Enrico Berlinguer, comunista, preparavam-se a selar um grande entendimento dito compromesso storico.
A este gênero de ignorância juntavam-se a manifesta intenção de pôr em julgamento as sentenças dos tribunais italianos, cominadas em três instâncias à revelia, pois Battisti estava foragido. Ouvi do próprio Genro a afirmação de que, em outras circunstâncias, o ex-terrorista teria sido absolvido. Compete ao ministro da Justiça do Brasil discutir as decisões das cortes de um Estado Democrático de Direito? Na Itália, a Justiça é até hoje um poder independente e não hesita em causar notáveis dissabores ao premier Berlusconi, este sim tão diferente dos líderes da década de 70. E foi em 1978 que Moro foi assassinado pelas Brigadas Vermelhas em um cenário de terrorismo até o último sangue em que se infiltravam os serviços secretos das potências de então, a começar pelos EUA, tão escassamente inclinados a aceitar a ideia do compromisso histórico.
Triste episódio, o caso Battisti, qualquer que venha a ser seu desfecho. A Itália mantém polpudos interesses no Brasil, onde suas multinacionais faturam alto. E o nosso país é um emergente de futuro certo, aposta de olhos fechados. Donde a previsão de que a questão se componha sem maiores sequelas é possível, se não provável. Sobraria uma inevitável ponderação: a injustiça dói.
Claudio Magris, que concorreu ao Nobel com Doris Lessing em 2007, diz em um artigo publicado pelo Corriere della Sera: “O presidente Lula, que continuaremos a admirar pela inteligência e pela coragem com que enfrentou tantos problemas cruciais do seu país, manchou o fim do seu excelente mandato com ofensas gratuitas à Itália e com a proteção oferecida ao pluriassassino Cesare Battisti”. Magris professa ideais de esquerda.

4 comentários:

Marcelo Bessa Cabral disse...

Excelente texto, Douglas.
Bom que você mostre esse bom senso, pois há muitos que não o tem: parabéns.

douglas da mata disse...

Marcelo, como sempre afirmei, o fato de apoiar e militar no partido de presidente, e o considerar um dos maiores personagens de nossa história, não me faz deixer de enxergar os problemas na sua administração ou criticar as decisões com as quais eu não concorde.

Muito ao contrário, o permanente debate democrático sobre esses temas é que possibilita que avancemos.

É o caso da revista, Carta Capital, cujo editor-chefe, Mino Carta, apóia o governo e seus avanços, mas nunca deixou de noticiar e apresentar as críticas necessárias. Algumas, mais contundentes que as críticas do restante da mídia, quem sabe, por terem rabo preso, como foi o caso daniel dantas e gilmar mendes.

Esse caso não foi o único.


Um abraço.

Roberto Torres disse...

Foi uma péssima hora para o presidente prestar homenagens à esquerda.

Isso nao lhe poupa responsabilidades, claro.

Espero que esta decisao equivocada do Lula nao atrapalhe o esforco de criar a comissao de verdade sobre a nossa ditadura.

douglas da mata disse...

Roberto,

Essa também é minha preocupação.

E o nível de "ranço" que observo nas entrelinhas das listas de discussão está mais para comissão de "vingança" do que comissão da verdade.

É lógico que esse sentimento não é hegemônico, e nem pode servir para generalizar ou diminuir a necessidade de resolvermos esse nosso entrave histórico.

Mas eu creio, e isso é um palpite, que a sociedade brasileira, nem os seus setores mais "progressistas" estão preparados para um debate sobre o tema: violação de direitos humanos e reparação!

Basta ver a reação de diversos setores sobre o complexo do alemão e temas relacionados a segurnaça pública.

Um abraço.