sábado, 29 de janeiro de 2011

Afinal, o que é Democracia, pr'á que e para quem serve?

Eu já disse várias vezes, esse é um mundo estranho, mas não menos instigante e desafiador.
Conceitos que tínhamos como "estáveis" se esfarelam, notícias que se publicavam como verdade absoluta estão nuas, e podemos ver suas "vergonhas".
Há uma dificuldade mundial em situar a Democracia como ferramenta indispensável ao convívio humano. De um lado, o relativismo absolutista, de outro, o maniqueísmo simplista.
E tome paradoxos:
Como vemos, a noção ocidental de Democracia favorece o surgimento de regimes que contrariam essa visão clássica, como nos países árabes, que para manterem fiéis as regras estadunidenses, sufocam suas populações sob regimes corruptos, violentos e excludentes.
Afinal, o que é ser democrata, e o que isso significa?
Vemos, em nosso país, defensores da Democracia que até bem pouco tempo, tinham enormes dificuldades em nomear o regime de 64 como uma ditadura sangüinária, e torcem o nariz para direitos humanos que pretendem que sejam respeitados do outro lado do mundo.
Agora, mais uma vez, a convulsão social toma conta de um país árabe aliado, o Egito. E nossos "faróis da Humanidade", nossos ferrenhos combatentes democratas da tradição, família e propriedade, inimigos figadais do "populismo" (muito embora tenham enorme dificuldade em contextualizar e definir o termo) não sabem bem o que dizer. Quem está do lado da democracia no Egito? O que é ser democrata no Egito? Por que o país "campeão" da democracia mundial(imposta sob tanques e toneladas de bombas)não retalia e condena o mandatário que se mantém há 30 anos no poder?

Mais uma vez, pouco importam as respostas, se não soubermos fazer as perguntas certas. Leia esse bom texto do Luiz Carlos Azenha sobre o tema:


28 de janeiro de 2011 às 21:03

Por que os Estados Unidos temem democracia no mundo árabe

por Luiz Carlos Azenha
Vamos começar deixando de lado a ideia de que o que se passa no mundo árabe é uma revolução do twitter, do facebook, da Al Jazeera ou das mídias sociais.
O Vinicius Torres Freire acertou, na Folha. “De acordo com esses correspondentes, não seria possível haver Revolução Francesa, Russa, maio de 1968, Diretas-Já ou as revoluções que derrubaram as ditaduras comunistas, dado que na maioria dessas revoluções não havia nem telefones”, escreveu ele.
Voltarei ao tema.
Vinicius acerta de novo, mais adiante, quando toca no ponto central: os milhões de jovens desempregados e sem perspectivas de vida que vivem no mundo árabe.
Não tenho muita experiência de reportagens na região, a não ser por algumas semanas trabalhando no Iraque, na Jordânia e no Marrocos.
Em todos esses lugares testemunhei a frustração dos jovens árabes (na periferia de Casablanca, no Marrocos, fui a uma favela cercada de altos muros brancos, onde a pobreza era devastadora mesmo pelos padrões africanos).
Nunca me esqueço do desabafo de um jovem palestino, morador de Amã, na Jordânia, sobre o drama pessoal que enfrentava: a falta de condições  para pagar o dote, casar e conseguir morar com a esposa em endereço próprio.
São esses dramas pessoais, multiplicados por milhões, que movem hoje o que se costuma chamar de “rua árabe”. Dramas que se desenrolam diante de governos autoritários, corruptos e completamente desligados da realidade das ruas.
Aí, sim, é preciso notar o impacto das tecnologias da informação, mas muito mais da telefonia celular e da TV via satélite do que propriamente das mídias sociais, muito embora as lanhouses fervilhem em quase todas as grandes cidades do mundo árabe.
Depois de um rápido processo de urbanização, a frustração dos jovens árabes agora se dá num cenário em que eles são expostos diariamente aos objetos de consumo e ao padrão de vida que “recebem” via satélite, especialmente nos intervalos das transmissões de futebol europeu (no norte da África há mais torcedores do Manchester United do que no Reino Unido, por exemplo).
Washington sustenta o governo egípcio à base de cerca de 5 bilhões de dólares anuais.
É muito pouco provável que o governo Obama vá além de declarações vazias a respeito do governo ditatorial de Hosni Mubarak, ou de “platitudes” em defesa da liberdade de expressão da população.
A reticência dos Estados Unidos — e de todos os governos ocidentais — em relação ao Egito tem relação com o fato de que qualquer democratização para valer dos países árabes aumentará o poder dos partidos islâmicos (a Irmandade Islâmica, por exemplo, no Egito).
Foi prometendo combater a corrupção e promovendo serviços sociais que o Hamas  e o Hizbollah ganharam legitimidade respectivamente em Gaza e no Líbano.
Notem, nas próximas horas, como os governos ocidentais vão enfatizar a necessidade de “preservar a estabilidade” e a “segurança” dos governos árabes que estão na defensiva.
Democracia nos países árabes resultaria em governos menos submissos aos Estados Unidos, mais “antenados” com as ruas e, portanto, muito mais agressivos em defesa dos direitos e dos interesses dos palestinos — para não falar em defesa de seus próprios interesses.
Será muito curioso observar, nos próximos dias, a dança hipócrita dos que defendem apaixonadamente a democracia no Irã mas se esquecem de fazer o mesmo quando se trata do Egito. Inclusive no Brasil.
PS do Viomundo: Vamos ver se o governo Obama deixa de fornecer gás lacrimogêneo e outros equipamentos de “segurança” ao governo Mubarak, por exemplo.

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