sábado, 25 de dezembro de 2010

Contos mal contados ou: Autos de Natal!



segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Da série contos da TrOLha: Letícia...

O gosto de corrimão na boca, a cabeça que badalava como um sino de catedral, denunciavam os abusos da noite passada...A amnésia também, mas isso era até um efeito colateral "positivo", pensou ele...O seu apartamento de três quartos, duas suítes, com churrasqueira na varanda, móveis (cuidadosamente)planejados, enfim, de bom gosto, estava todo revirado...Difícil distingüir se ali duas pessoas lutaram ou fizeram sexo...Bom, em certas ocasiões, ele bem sabia, não dava para dizer bem a diferença...

Olhou para o lado, e a mocinha da qual não se recordava o nome, já não estava mais ali...Não estranhou...Afinal, essa é a principal virtude de contratar profissionais...
Enquanto retomava sua consciência do mundo, aos poucos, o ruído de batidas na sua porta, intercaladas com o soar frenético da campainha, que não sabia o porquê, se misturava com sons de sirenes vindas lá da rua, lá de baixo...

Levantou, com o desequilíbrio próprio de quem carrega duas toneladas de concreto na cabeça...Percorreu o caminho de obstáculos entre seu amplo quarto e a porta da sala, onde os despojos da "guerra" se espalhavam pelo chão...Garrafas de vinho, uísque e tequila...pratos com resto de cocaína...preservativos usados...suas roupas...e opa..!!! as roupas dela...

Bom ela então deveria estar no banheiro...Abriu a porta

-Pois não...???
-Bom dia, eu sou o delegado de polícia Ademardo Augusto, será que poderíamos entrar?
-Bom, eu acabei de acordar, dei uma festinha ontem à noite...o sr sabe como é...? Se o sr não reparar a bagunça...deixa eu vestir algo, o sr vai entrando, e deixa eu avisar a moça que está comigo...
-É essa moça aqui da foto...?

O delegado lhe mostra a foto...do corpo estatelado lá embaixo...na rua, em frente a sua portaria...

..............

Na delegacia, aquele habitat que se acostumara a ver pela TV...Repórteres ávidos por um detalhe exclusivo...ele ali sentado na sala do delegado, na companhia de seu advogado, dr Rubens...O causídico aconselhara-o a permanecer em silêncio...E diante do fato de que até agora não tinha entendido o que acontecera, parecia um ótimo conselho...

Enquanto aguardava, recolhia os cacos de sua memória, e tentava recordar dos acontecimentos anteriores àquela fatídica noitada...

Na noite anterior, quer dizer, na tarde-noite, lá por volta das 19horas, entediado, resolvera apanhar a edição de um jornal da cidade, folheou as folhas até a seção de classificados, e escolheu uma companhia...O critério de escolha foi quase-científico: dados antroprométricos:cintura, seios, cor, etc, e o teor sacana do texto...Agora se acorda do nome(nesse caso, o nome de guerra): Adrielle...
Ligou, acertou preço...

Morava só, e isso lhe permitia receber essas "visitas" em casa...no "recato" de seu lar...Estava abastecido...Sempre estava...bebida da boa, pó do bom, estimulante sexual, brinquedinhos, filmes, lençóis de algodão egípcio, sais de banho, óleos e tudo mais...

Naquele "latifúndio vertical", de 280 m², encravado no metro quadrado mais caro da cidade, ali, entre a Pelinca e o Tamandaré, comprado com o dinheiro que arrecadou junto aos seus negócios com o governo municipal, eram seus domínios, e ele reinava ali...

À medida que ia reconstituindo esssa imagens, era impossível não misturar a realidade com cenas de tantos outros filmes que vira, onde o protagonista enfrentava aquela situção..Homem rico, solitário, geralmente corrupto, punido em alguma conspiração de inimigos, ou pelo excesso de loucura e selvageria mesmo...
A principal dificuldade em montar uma história crível, mesmo diante de toda aquela "bagunça", e mesmo que fosse para si mesmo, se dava pelo fato de que não se lembrava de nada...Portanto, tudo era possível...

Essa sensação, e a impotência dela decorrente, eram sufocantes...claustrofóbica...naquela sala envidraçada, como um aquário...Sentia-se em exposição, mesmo por detrás das persianas fechadas da sala do delegado...É como se a curiosidade e outros sentimentos misturados ali, naquele ambiente hostil, penetrassem aquela frágil proteção...De quando em vez, ele afastava a persiana com as mãos, fazia uma pequena fresta para olhar...Como se quisesse atualizar seu sofrimento, ou verificar mudanças significativas no quadro...

O vai-e-vem de policiais, de pessoas, de presos, vítimas...

De repente, em uma dessas olhadas, pode ver um rosto conhecido...Estava claro pela dor e pelo choro que se tratava de vítima de algo...Conhecia aquela mulher...Seu nome era Susana...Ahh, Susana fora sua namorada, quando ainda era pobre...Mas já naquela época seu faro para "os negócios" já se revelava...Trabalhava, estudava à noite, cursava Administração de Empresas...Logo, logo seu talento e sua liderança realçou dentre os demais, e ele foi alçado a líder estudantil, e dali para um cargo na administração pública foi um pulo...
Diante daquele mundo de oportunidade, e da escalada rápida para montar seu "esquema" de empresas prestadoras de serviços e fornecedoras para a prefeitura, foi difícl manter o relacionamento com Susana...Queria se livrar de tudo que lhe lembrasse a pobreza...Susana era linda, mas era uma pobre convicta...Era como se não fosse possível retirar a pobreza de dentro dela, mesmo com dinheiro...E para que tentar, se já havia um "mundo de mulheres" já prontas...Com berço e com classe...

Mas naquela situação miserável na qual se encontrava, ver um rosto conhecido foi quase um alento...

Não queria sair da sala, mas a curisosidade em saber o motivo de Susana estar ali o corroía...Ele queria dizer que também era um sentimento de solidariedade, de querer saber, e talvez ajudar, mas lembrava-se de que não estava em uma situação muito confortável também...Mas esse foi o pretexto que lhe fez pedir ao seu advogado para ir até ela e, confirmado o nome, lhe perguntar o que acontecera, e oferecer ajuda, se fosse o caso...

O advogado retornou:

-Olha, essa é a mãe da menina que esteve com você, e que está morta...Ela me perguntou se você aceitaria vê-la, ela quer saber o que aconteceu, e diz que tem o direito...Isso é com você...Eu não aconselho, mas a decisão é sua...

Não sabe bem o que houve em sua cabeça...Sabia que aquela reencontro, naquelas cisrcunstâncias tinha tudo para aumentar as cores da tragédia...Não sabia como, mas sabia que sim...Mesmo certo disso, resolveu se deixar levar, e como se devesse isso a Susana, pelo abandono, pelos telefonemas que rejeitou, como se fosse uma auto-imolação, assentiu em falar com Susana...

Foi transferido para uma sala mais reservada, longe do alcance dos curiosos...

Quando Susana abriu a porta, e lhe encarou, desmaiou...Foi retirada para atendimento, o tumulto recomeçou, e todo aquele turbilhão lhe tragou...

Esperava uma reação agressiva... se preparara para isso...Mas aquele desmaio era de horror, um horror incalculável que vislumbrou em seu rosto antes que ele se apagasse...

Horas depois, que pareceram uma era, seu advogado retorna, lhe diz que responderá o inquérito em liberdade...Alívio...

Logo em seguida, dr Rubens lhe comunica sua sentença irrevogável:

-A Susana disse no Hospital que seu horror e o desmaio se deram porque você é o pai da menina...e seu nome é Letícia...




3 comentários:

fernando torres disse...

Xacal, plagiando o comentário da postagem anterior puta que pariu. E o caso das meninas de guarús.
Fernando Torres.

Hilda Helena Raymundo Dias disse...

ele é monstro...
de+++

douglas da mata disse...

Obrigado Hilda...