quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Guerra assimétrica!

Li no dia de ontem um bom texto no blog do Azenha, Viomundo, acerca do relacionamento do PT com a blogosfera e sua (in)capacidade de reagir. Depois o jornalista exemplifica como o então candidato Barak Obama se portou em relação ao fenômeno.

Como é um evento recente, ainda não foi possível diagnosticar o papel da rede nas eleições, a não ser por impressões genéricas, que teci, após a leitura do ótimo texto:

1. A blogosfera e a grande mídia entraram para o centro do debate político, enquanto deveriam replicá-lo. Podemos dizer, grosso modo, que o controle da mídia, relação com  governo, e comunicação social ocuparam toda a pauta do debate. Disso tudo restou o "avanço" de assistir a declarção pública de alguns órgãos, como FSP e Estadão, de apoio a um projeto político, apoio esse que escondiam nas linhas da hipocrisia e "imparcialidade" editoriais. Mas em uma eleição presidencial de um país com tantos problemas, reduzir tudo às questões acima citadas é muito pouco.

2. O PT, Governo e campanha não sabem como lidar com a nova realidade: Se é verdade que a mídia tradicional não consegue mobilizar a opinião pública para grandes temas, onde há razoável consenso sobre o sucesso do PT, por outro lado, resta a mídia tradicional um capital informativo residual, de natureza destrutiva e caluniosa, quando dissemina informações falsas e boatos, todos vinculados a uma agenda moral qualquer: corrupção, aborto, união civil de pessoas com mesma orientação sexual, etc.

3. Nesse sentido, a blogosfera continuou a replicar a grande mídia, e sua pauta também não foi a de propor os grandes debates, acerca dos temas que terão que ser enfrentados por um novo governo. De um lado, os blogs aliados ao governo, na tentativa desesperada de desmontar a "indústria de escândalos", de outro, os blog-trolls, ou blogs de coleira, a serviço dos conservadores, ampliando e viralizando esses escândalos.

O Governo, a campanha e o PT escolheram armas erradas e tentaram lidar com coisas diferentes com o viés clássico das assessorias de imprensa.

Foi incapaz de perceber que os boatos sobre aborto, por exemplo, chegaram ao povão via correntes de e-mails, e depois o boca-a-boca se encarregou do resto, com auxílio poderoso de uma teia de atores: como padres, taxistas, pastores, e todos que são capazes de disseminar conceitos e preconceitos de forma rápida e "confiável".

Ainda assim, na opinião do Azenha, por exemplo, Dilma ficou refém das "grandes reportagens", via jn ou dando acesso privilegiado a repórteres da veja, legitimando a fala deles, enquanto os seus "cães de guerra" da rede plantavam toda a sorte de textos odiosos e mentirosos sobre ela.

Azenha "denuncia" que o núcleo da campanha do PT foi incapaz de gerenciar o relacionamento com os blogs, como forma de alimentar a reação a esse tipo de estratégia no mesmo campo onde ela se dava, com os métodos e possibilidades disponíveis. Preferiu usar o receituário clássico das notas e desmentidos "oficiais".

Disso tudo, eu concluo que por enquanto a rede denominada blogosfera não será capaz de reagir a essa tática a tempo, a não ser que o comando da campanha adotasse algumas medidas práticas e em tempo hábil, suguestões também enumeradas pelo Luiz Carlos Azenha:

a) Identificar, através dos meios disponíveis, e articular uma rede jurídica para conter os boatos e calúnias;
b) Municiar a blogosfera progressista com informações e institucionalizar essa relação, como forma de quebrar o cativeiro na qual se encontra com a grande mídia e seus trolls.

Há um senão com o qual gostaríamos de encerrar esse pequeno texto: Lula tem uma inquestionável capacidade de mobilizar a opinião pública, mas, paradoxalmente não foi capaz de reagir a tempo em relação a essa pauta moralista, e por que será?

Em minha rasa opinião o fato se dá por que esse "moralismo" está impregnado no governo e, inclusive, no seu líder maior, o presidente. Ou seja, a campanha ficou refém da agenda vacilante moralista do governo, que todas as vezes que teve chance, varreu para baixo do tapete o enfrentamento de temas "espinhosos", como: aborto, casamento de pessoas com mesma orientação sexual e por fim, a questão dos arquivos da ditadura e o direito a verdade.

Aí está, no meu entender, o motivo de tanto sucesso dessas "correntes". Nós do PT e do governo não sabemos como lidar com esses temas, uma vez que o próprio presidente nunca deixou que avançassem em atendimento a confusão de Estado x Igreja, que ele nunca combateu de frente, pois nesse setor também está boa parte de seu capital político.

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