domingo, 12 de setembro de 2010

1964-2010, o fim de uma era!

A estipulação de períodos históricos é sempre arbitrária. Não é possível determinar, com certeza, onde começam e terminam os intervalos de tempo que, olhados como segmentos para facilitar a compreensão, guardam características próprias que os definem como tais.

Assim, o período compreendido entre 1945 e a queda do muro de Berlim, em 1989, é denominado Guerra Fria, pela oposição dos dois blocos hegemônicos de então: Socialista versus Capitalista., muito embora os elementos que caracterizavam a época estivessem presentes antes e um pouco depois dos marcos históricos, e o próprio muro só foi construído em 1961. Outros eventos, como a primavera de Praga, ou a invasão da Hungria ou a crise dos mísseis cubanos, poderiam ser incluídos como balisas temporais.

Outros fenômenos são entendidos desse mesmo jeito.

Nesse sentido, ao olharmos para o processo eleitoral desse ano, com todos os eventos que dele advêm, fica a tentação de estabelecer um novo marco épico em nosso país. Encadear os fatos, costurar acontecimentos nos permitirá enxergar a sucessão do primeiro presidente oriundo de uma classe baixa nesse país a primeira mulher como um episódio digno de demarcar a trnasição de um período a outro, ou melhor: O fim de uma era.


1964: A solução de força.

Hoje há um consenso que só é desafiado pela má-fé dos cúmplices ou dos idiotas que defendem o autoritarismo. 1964 foi um movimento de ruptura institucional que derrubou um governo constitucionalmente eleito, que por sua vez não demonstrava maturidade para enxergar a totalidade do ambiente no qual estava inserido, e que cedeu a tentação de "queimar etapas", aceitando o jogo que o empurrou para decisões dramáticas, como o Comício das Reformas na Central do Brasil, que simbolizou, em última instância, o desespero em buscar uma base social e coesão política que se esvaía totalmente. Tudo isso mergulhado em uma disputa feroz entre os blocos hegemônicos no mundo, que se estendia do sudeste da Ásia, passando pela Europa até África e América do Sul e Caribe.
Essa conclusão não "absolve" os golpistas, muito ao contrário. Diante da fragilidade institucional do governo, tomaram de assalto o que não conseguiam fazer pelas urnas, conspurcando a Democracia que diziam defender.

Nesse momento foi lançado o projeto político de poder que, hoje, no crepúsculo do melhor governo da História desse país, se esfarinha e dá os útlimos suspiros.

Um modelo de desenvolvimento nacional com larga utilização do esforço estatal para fornecer a indústria de base e bens de capital para um incipiente empresariado que buscava no máximo fornecer os substitutos de importação necessários a satuisfação ao consumo da classe média, mas que pela sua própria limitação de capacidade e alcance, foi calcado em uma enorme concentração de renda que deixava enormes faixas da população longe da possibilidade de acesso a esses e outos bens, materiais e imateriais(como serviços estatais, cultura, etc).
Para tocar esse projeto, uma enorme centralização política que dizimava a oposição, na medida que a discordância era encarada como ameaça a segurança nacional, doutrina cara aos interesses geopolíticos e geoeconômicos dos países capitalistas centrais, que financiavam esses modelos, como forma de exportar sua poupança, bem como aumentar a zona de influência das suas multinacionais, ampliando a possibilidade de negócios, sempre com um vínculo de subordinação que não permitia, como dissemos, escolhas alternativas de desenvolvimento.

Esse projeto foi implantado de forma sistêmica na América Latina e África, mas os efeitos se deram de forma distinta, de acordo com as peculiaridades de cada continente e seus aspectos de cultura política.

Para sustentar a coesão ideológica em torno desse longo período de arbítrio, e o sufocamento de qualquer dissidência, era necessária uma forte repressão, mas que também se expressava além dos limites da eliminação física(mortes, seqïestros e tortura), mas principalmente, no campo ideológico, tanto no campo oficial(escolas e repartições), como na chamada sociedade civil. Nessa esfera concentram-se os esforços em dotar esse país de um mídia gigante e concentrada, articulada em rede, que uniformizava o jeito do brasileiro enxergar a si mesmo.

É desssa época a criação de conceitos que soavam contraditórios, mas que funcionavam como forma de incentivar um patriotismo pernicioso. De um lado, o Brasil Gigante, ou Pr'á Frente Brasil, Ninguém segura esse país, desde que tutelado pelos fuzis e pelos patrões estadunidenses. De outro, um sentimento que Nélson Rodrigues diagnosticou como síndrome de vira-latas, um complexo de inferioridade que nos fazia acreditar que um país "abençoado" por deus e bonito por natureza só não dava certo pela maldição que carregava em si: seu próprio povo.

A direita e a esquerda se encarregavam de diluir esse mito, embora o fizessem de forma e por motivos distintos.

Cada lado seguia no "apadrinhamento" das "escolhas políticas do povo, muito embora, no ambiente de exceção, essas escolhas não pudessem ser consideradas como tais. A direita dizia que batia e mandava no povo, e tolhia seu direito a escolha porque o povo não sabia bem o que queria, e podia escolher o ateísmo comuminsta, como se encantado por "um feitiço ideológico diabólico". Essa era a base filosófica da ditadura, tão propalada no trinômio: deus, família e propriedade.

Já a seu termo, a esquerda dizia que a redenção desse povo dessa "canga ditatorial" não se daria pelo povo, porque ele não sabia muito o que queria, e era tutelado pelo seu opressor. Logo, o "saber revolucionário" redimiria e libertaria o povo.

Bom, sabemos no que deu.



A transição lenta e gradual para a Democracia

Militares têm vários defeitos, mas têm uma qualidade que, de certa forma, contribuiu para uma parte do esforço que transformou esse país, embora o custo "político" e humano fosse altíssimo e injustificável. Eles têm visão estratégica, e sabem visualizar o contexto. O problema que o filtro desse olhar é sempre arbitrário, pela própria natureza da atividade que são treinados a praticar: A guerra.

Cientes de que não poderiam manter um país desse tamanho sob o jugo das armas, e como o contexto internacional já revelava no horizonte os sinais de que haveria uma descompressão da luta ideológica entre os blocos, os militares previram que faltaria o capital político para sustentar o regime no campo externo, que refletiria, por óbvio, na esfera interna.

A tese da transição lenta e gradual ganhou força, mas engana-se quem acredita que a abertura se consumou com a posse de José Sarney em 1985. Ora, a sua eleição ainda era institucionalmente baseada na estrutura normativa da ditadura, o colégio eleitoral.

Mas também se enganam os que declaram 1989, com a eleição direta para presidente, o fim do regime de exceção.

É bem verdade que formalmente, tanto nas eleições como com o advento da CRFB de 1988 estavam lançadas as bases para o exercício da Democracia dentro do Estado de Direito.

Mas esse ciclo não se completou, pois ainda estavam presentes os mesmos ingredientes que alimentavam um regime de exceção, mesmo que houvesse eleições diretas e uma previsão constitucional jurídica.

Os pilares da desiguladade continuavam intactos, assim como o amplo espectro ideológico de controle social, ratificado no amplo poder de manipulação que detinham as grandes empresas de comunicação do país, mormente, o grupo dos Marinho.

Tínhamos assim, uma nova "forma de autoritarismo", disfarçada em entes jurídicos democráticos, mas onde a cidadania não se estendia a uma enorme parcela da população.

Criamos um "monstro esquizofrênico estatal", um Leviatã dotado de uma pequena cabeça(personificada na elitização brutal), braços curtos(pela pouca capacidade de realizar o bem comum), pernas curtas(pelo pouco movimento que fazia) e com um enorme "intestino grosso", uma vez que a maioria vivia na "merda".

Em suma: Havia previsão de direitos, mas não havia como gozá-los.



A liberdade da mídia e o avanço democrático: contradições perigosas!

Em 1994, com o plano de estabilização monetária bem sucedida, um novo avanço se deu na sociedade brasileira, mas, novamente, os efeitos e benefícios foram experimentados de uma forma assimétrica e desequilibrada.
Havia uma demanda internacional por enxugamento da liquidez inflacionária que ameaçava os ativos dos investidores centrais nos países periféricos, e mais uma vez, a mídia e seus sócios trataram de envernizar essa necessidade em um aparato ideológico que conferisse consenso para as medidas duras que enxergavam como inevitáveis, tanto como acreditavam no "fim da História".

O triunfalismo neoliberal trouxe a estabilidade, mas esqueceu que adotar essa premissa como um fim em si mesmo sufoca e debilita a capacidade de crescimento de outros valores caros a população. O pensamento único, Consenso de Washington, propagado pelos Chicago Boys, e recitado com mantra pelos "analistas da autorealização" da mídia "especializada" ceifaram empregos, deprimiram economias, quebraram patrimônios estatais, e no fim das contas, quase queimaram todas as caravelas da estabilidade em crises cíclicas de acumulação (e de alavancagem) de capital, haja vista a natureza volátil do tresloucado fluxo de capitais do mercado, deus-onisciente da vontade dos povos, o substituto da "segurança nacional" da direita e do "fervor revolucionário" da esquerda.

O avanço de outras possíbilidades tecnológicas, com o progresso telemático, ampliou no primeiro momento o que parecia ser impossivel de aumentar: o poder da mídia.

Além das redes nacionais de TV e rádio, controladas como feudos pessoais, em detrimento do fato de serem concessões públicas, a internet conferiu uma instantaneidade incomum, que tornava a mídia uma espécie de um novo deus. Era a sinergia liberal em si: deus-mercado com deus-comunicação. O novo deus tinha nome: deus-informação.

Mas com preconizava o bom e velho Marx, com sua adaptação da dialética hegeliana, a contradição sairia do ventre do monstro.

No Brasil, dada a sua natureza empresarial oligopolista, os meios de comunicação preferiram aderir ao projeto neoliberal, e fornecer a sustentação ideológica a concentração de poder econômico, opondo a sua liberdade de imprensa a idéia de expansão da cidadania, que permanecia sob a mesma tutela ideológica,  agora mascarada em outros conceitos.

Afastaram a liberdade de imprensa da liberdade de expressão, e abriram espaço para que novos meios e atores pudessem suprir a necessidade da população por acessar direitos que só viam de longe.

Sedados pelo "sucesso" da estabilização, e da arrogância  acadêmica típica, esqueceram de ouvir as "senzalas".

Começava o processo de desgaste e corrosão do capital "político" da mídia tradicional.



Lula: o parto a fórceps do novo anti-cristo!

É correto afirmar que o PT, as forças progressistas e seus aliados de centro, souberam adaptar sua agenda e modus operandi a conjuntura política de 2002.
Mas há um dado muito mais importante, escondido por motivos óbvios pelas forças neoliberais e seus sócios do PIG: O fracasso nacional e internacional dos modelos de gestão econômica.
 Esse fracasso trazia um aspecto duplo:
O resultado econômico em si, que não solucionou o dilema da divisão de riqueza, e dos males resulantes da concentração. Esse resultado fracassado atingia como um tsunami a esfera política, já que sua base de sustenação de consenso eram os números e as estatísticas. Ora, se falhavam no que diziam fazer melhor, por que não mudar os gestores e o modelo?

Essa escolha foi adotada pelo povo, ao contrário do que acreditavam os oráculos do deus-informação: mercado e mídia.

Como foram pegos no contrapé, tentaram uma saída óbvia, que tinha dado certo em outras ocasiões: A transição segura, lenta e gradual. Mas não tinham mais poder para exercer essa "chantagem", como ficou claro com o insucesso da fábrica de escândalos que, afinal de contas, faliu, como veremos!

Desde o início do governo Lula, bem antes da posse, passaram os súditos do deus-informação a acossar o anti-cristo, e no primeiro momento, e emparedaram o novo governo com os temas "macroeconômicos", terrorismo cambial e toda a sorte de sabotagem, que atrasou as medidas que tanto temiam: a distribuição de renda e acensão social.

Dividindo o governo Lula em dois, podemos dizer que a primeira fase foi de tentativa de cooptação, tanto pela midia, que acenava com armistício, desde que bem recompensada, e com a submissão a agenda liberal.

O que os "analistas e especialistas", os oráculos não viram, foi a aproximação do fim da História deles. A crise de 2008 precipitou a derrocada dos valores que preconizavam, e fizeram a sua base ideológica e de apoio, as elites e boa parte da classe média, engolirem os conceitos de "competitividade", "livre iniciativa" contra o "estatismo gigantista dos dinossauoros". Foi o Estado que pagou as contas, e salvou boa parte da economia e garantiu, enfim, paz social e prosperidade.

O governo Lula, capitaneado por uma intuição de seu lider, intrínseca a uma questão inexpugnável de classe e de origem, olhou e fez a opção histórica correta e se posicionou no lugar correto, no tempo exato.


2010: a morte do deus-informação.


Nesse ano, dinate de todas as escolhas que fizeram, só restou o desespero, Ao invés de reformularem seus valores, e promover a aceitação democrática da derrota, os oráculos e seus súditos, passaram a uma investida suicida que os afastou de toda e qualquer possibilidade de influenciar a população, enquanto blindou, mesmo querendo o contrário, o governo em torno de sua base social, cada vez mais forte e decidida a aprofundar o fim da miséria e da não-cidadania as quais foram expostos por 5 séculos.

É o fim de uma era, que talvez não tenha começado em 1964, mas que oxalá, demore muito a terminar.

2 comentários:

Marcelo Bessa Cabral disse...

A era começada em 1964 (ditadura) terminou em 1985 (democracia), amigo. Só isso.

douglas da mata disse...

Caro Marcelo,

Embora os fundamentos formais da Democracia estivessem lançados, ainda que consideremos o paradoxo da eleção indireta para presidente em 85, o que o texto procura mostrar é que o processo de abertura democratica apenas se "consolidou" em 2010, uma vez que houve duas sucessões, sem interrupções institucionais, e com amadurecimento da sociedade, que hoje, é muito menos influenciada pela mídia.

Some-se a isso, a gama de conquistas de direitos que reafirmou o exrecício da cidadania. Em 1895, a sombra do golpismo e a falta de meios gozar a gama de direitos institucinalizados em 1988, na CRFB(alguns deles ainda estçao pendentes) nos autoriza dizer que aquele ano foi apenas o continuar da transiçao lenta e gradual preconizada por Geisel e Golbery.

Um abraço.