segunda-feira, 26 de julho de 2010

A mexicanização do combate às drogas!

Quem quiser um panorama, ainda que consideradas as diferenças geográficas e culturais, bem como as diferenças logísticas do tráfico internacional de entorpecentes, entre a atual situação das cidades de fronteira mexicanas e as nossas capitais brasileiras pode se servir à vontade no noticiário internacional, e no jornalismo pátrio.

Lógico que para isso, deve afastar as inexoráveis simplificações e reducionismo cínicos, que a mídia nacional e internacional promovem, com o inutito, dentre outras coisas, de criar o arcabouço "teórico" e "ideológico" que fomenta as políticas públicas de exclusão e as "guerras" que lotam as agendas poítico-eleitorais, que tanto agradam ao pânico-classe-média.

Falo da permanente militarização de um conflito(sim, no México já pode ser considerado um conflito de larga escala)que tem multifaces, e que no entanto, é enfrentado de forma única, ainda que os efeitos sejam e permaneçam desastrosos.

Nos últimos vinte ou trinta anos, os cartéis responsáveis pela produção, refino e transporte de drogas ilícitas(mormente a cocaína) se mobilizaram e transferiram suas operações para a borda do território do maior mercado consumidor do mundo , os EEUU. Uma piada, se não fosse trágico. Ou seja, com sua estratégia, os EEUU trouxeram o problema para seu quintal.

É lógico que os antigos cartéis colombianos continuam a movimentar grandes quantidades de drogas, mas seu poder de "fogo" diminuiu consideravelmente, e não só pelo incremento da "operação mexicana", mas também para a migração de suas atividades para países vizinhos, como Peru, Bolíva, por exemplo.

Não seria incorreto supor que parte dos esforços desse setor sulamericano se voltou para outro mercado importante, o Brasil, que vai aos poucos, deixando a categoria de mercado de "passagem", para mercado "final".
Outra conexão considerável é a operação africana, que utiliza Brasil e América do Sul como plataforma de lançamento de seus carregamentos para a Europa e Norte da África.

Mas o que nos interessa aqui, nessa análise pobre, é demonstrar que os efeitos das "guerras às drogas", ou "war on drugs", preconizados desde Washington, e avalizados pela ONU e seus organismos internacionais, são um retumbante fracasso.

Não diminuíram a oferta, e muio menos a demanda por drogas(legais ou não), e pior, assolaram os países que aderiram a esse modo de combate de uma escalada de violência e corrupção estatal sem precendentes.

Assim temos como resultado inútil: O desmonte dos cartéis colombianos fez com que se voltassem para os mercados consumidores "menores"(mas em expansão)como Brasil e vizinhos, enquanto o "grosso" da produção se instalou mais próximo do maior mercado, os EEUU, nas cidades ao sul do Rio Bravo.

Mais uma vez, para que não restem dúvidas: Se entendermos os fatos como relacionados entre si, e toda a ação anti-drogas estadunidense com um "sistema", vamos compreender como o "endurecimento" desmedido, com ações militares espetaculares na selva amazônica só conseguiram empurrar as drogas para a vizinhança de seu próprio país, que já o ameaça, inclusive, com o transbordamento da onde de violência mexicana de Ciudad Juarez, dentre outras.

Os círculos estão fechados e se tocam em perigosas intersecções: Mais drogas, mais dinheiro, mais recursos, mais corrupção, mais violência, mais dinheiro público para o combate, compras e recursos, mais corrupção, mas violência dos narcos, mais violência policial, mais necessidade de produção de drogas, mais corrupção, etc, etc, etc.

A grande questão que subsiste é quase óbvia: O combate e controle de ações criminosos que envolvam um PIB tão grande não se faz lá na ponta, quando o produto já está pronto, embalado e muitas vezes, no "mercado". Não se interrompe essa cadeia produtiva na escala varejista, ainda que TVs e jornais publiquem que as "operações militares", as ocupações tipo "UPP" sejam a solução para a "pacificação" de comunidades e regiões!
Não são!

Se mantidas intactas as estruturas de financiamento e lavagem do dinheiro do tráfico, as operações de produção, transporte e comércio só mudam de lugar, e pior, em alguns casos, como o mexicano, partem para um confronto que o Estado está fadado e perder, e com ele toda a sociedade para a qual ele deveria funcionar como ente garantidor. Com a corrosão da percepção da sociedade da capacidade do Estado em cumprir esse papel pelos atores sociais, teremos a anomia, o vale-tudo, ou seja, o fim!

Os jornais, e meios de comunicação que festejam, quer por ignorância, quer por cinismo, ou ambos, as polítcas desastradas de combate ao tráfico de drogas, enquanto "protegem" sigilos bancários e fortunas angariadas de forma suspeita, mas que posam bem nas páginas colunáveis, são cúmplices da tragédia que assistiremos acontecer sob nossos narizes.

Para se combater o comércio de drogas é preciso acabar com o principal argumento que o justifica: O lucro! E o lucro, senhores, está menos em favelas ocupadas por "Unidades de Propaganda Pacificadora", e mais em gabinetes e escritórios luxuosos e climatizados, onde a polícia e a Justiça fariam um tremendo estrago sem dar um único tiro de fuzil sequer, sem helicópteros, nem caveirões.

Em nenhum lugar do mundo, em qualquer tempo da História a intervenção estatal nas variáveis: demanda(nesse caso, os narco-consumidores)e oferta( os narco-produtores)em qualquer mercado deu certo: Desde a tentativa de planificação econômica estatal comunista, até a produção de bens culturais não-autorizados("piratas"),a venda de fármacos(descontrole de instalação de farmácias), comida, etc, etc.

A única chance de obter alguma regulação é alterar as possibilidades de ganho, quer seja pela ação tributária(impostos), quer pela ação direta, com o oferecimento dos mesmos bens por valores subsidiados, ou alterando a composição de "preço final", com encarecimento das obrigações fiscais trabalhistas, dentre outras medidas, e ainda assim, se essas medidads forem acompanhadas de uma estrutura legal-normativa-fiscalizadora capaz de impedir a migração dessas atividades para informalização ou ilegalidade.

Como nossa sociedade não parece inclinada a permitir a legalização desse comércio de drogas, resta atingir seu "coração": O bolso!

Mas como esgoto que embaixo da terra não dá voto, atacar a violência em seu berço financeiro esplêndido também não dá, e ainda tira possibilidade de financiamento de campanhas respeitáveis!

Sai mais "barato" e dá mais voto desperdiçar vidas humanas, inocentes ou não!

Ahhhh, e é claro: vende mais jornal e notícia, por que afinal, você já imaginou a transmissão, ao vivo, de uma operação de combate à lavagem de dinheiro, com a análise monótona de milhares de documenos, cruzamento de contas, dentre outras coisas? Sem um tiro, sem sangue, lágrimas ou desfiles militares das forças policiais? Claro que não!

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