sábado, 31 de julho de 2010

Dilma não é o Lula!

Ontem, em meio a tantas conversas, no encontro "arqueológico-político" da Juventude Petista, o assunto não poderia deixar de considerar as eleições presidenciais.

Um consenso: Dilma leva no primeiro turno! Passemos então as conseqüências dessa assertiva, e embora não tenhamos aprofundado análises, pelo que pude aprender junto a tantas boas conjecturas, fiquei a "ruminar" minhas pobres razões, e tracei algumas considerações, as quais compartilho com vocês:

1. O PT deve chegar a algo entre 200 e 250 deputados federais, e talvez 25 a 30 senadores. A base aliada deve contar com maioria qualificada, ou seja, mais de 350 deputados e mais de 50 senadores. Boa parte dessa condição se dá pelos seguintes fatos: O núcleo central do poder, personificado em Lula e seus assessores mais próximos, sabe que a ausência do "carisma pessoal" do presidente mais popular da História requer uma base de sustentação muitíssimo mais coesa, orgânica e forte, numérica e qualitativamente falando. Por isso, apesar de termos torcido o nariz para certos "acertos" regionais, o foco sempre foi o Parlamento, uma vez que a "fatura" presidencial estava mais ou menos encaminhada, e o principal ator dessa cena sequer havia se movimentado: Lula agora vai "tocar" a campanha pessoalmente, para desespero do oposição! Hoje, a despeito da importância tática da eleição de governadores, seu sentido estratégico foi sendo esvaziado, na medida que orçamentariamente seu peso e autonomia diminuíram em relação aos municípios e a União, o que fez com que os governos estaduais ficassem só com a parte problemática da gestão: Professores e polícias, enquanto diminuíam sua capacidade de eleger e "manobrar" bancadas federais!

Aqui um pequeno parentêse para tocar em uma questão local, como um exercício dialético: Por ter pouco peso nesse esforço nacional de reforçar nossa base parlamentar, com a pouca chance de crescer nossa representatividade, O PT do RJ e, nós de Campos dos Goytacazes, ficaremos cada vez mais à margem do centro de decisões. Mais um erro grave nosso, como sempre! Mesmo que por intuição ou acidente, pouco importa, o ex-governador acertou em cheio: O palco principal da política nesses próximos anos será o Congresso!

2. O governo Dilma é o governo que aprofundará as reformas do capitalismo brasileiro, para lançar as bases de um inédito crescimento econômico com ganho e deistribuição de renda, melhoria de índices humanos gerais, e mais independência em relação ao eixo geoeconômico central, leia-se EEUU, Europa e por que não dizer, da China também? Para isso, vai ter que tocar em pontos sensíveis, como política educacional, reforma fiscal e tributária, política de inovação tecnológia, mas principalmente, reforma do sistema político e seu financiamento!

3. A direita espumante e raivosa, representada pelos setores mais atrasados do capital, com os grupos de mídia, que foram cevados nessas escolhas que fizeram do nosso país um dos mais ricos e injustos do planeta, vai diminuir de tamanho, mas não diminuirá o barulho, muito ao contrário: Fortemente representado no Judiciário, e em outras instâncias de poder formais e informais, essa criptodireita tenderá a uma agenda que gere a sensação de que há sempre um golpe em curso, um ataque às instituições, um confronto de legalidade, que requererá da nova presidente habilidade ímpar para demarcar o terreno de sua diferença e das mudanças que virão, com a conquista dos setores mais sensíveis a essa pauta neoconservadora, mas que também não querem a insegurança de mudanças que ameacessem tudo o que foi conquistado até agora, em termos econômicos e sociais, bem com das liberdades e amadurecimento das estruturas políticas.Para quem deseja um "panorama" do que falo, dê uma olhada no movimento Tea Party estadunidense, ressalvadas, como sempre, as diferenças e peculiaridades de cada caso!

É preciso não ceder a tentação de "passar o rodo", e justificar os temores, todos infundados e paranóicos, de que um governo petista, com poder petista, ignore os direitos das minorias e deixe de fazer as autocríticas que ficam nubladas pelo consenso da popularidade. Por mais paradoxal que pareça, precisamos cada vez mais de uma oposição forte, que elabore e discuta os contrapontos necessários em uma Democracia!

Por outro lado, não podemos estancar por medo de angariar apoios e dialogar politicamente com os diferentes, muito menos deixar de cumprir o que nos é caro, e que foi aprovado por imensa maioria dos brasileiros, que desejam que o país siga em seu rumo de crescimento com repartição da riqueza produzida por todos. 

Dilma não é Lula. Ainda bem, porque a partir de agora, precisamos muito mais de política do que de mitos!

3 comentários:

Roberto Torres disse...

Concordo plenamente, Dilma nao é Lula.

Em sua análise eu só gostaria de acrescentar dois temas, um dos quais voce tocou no final.

1) Como poderemos ter uma oposicao forte? De onde ela virá? Aécio reorganizará o PSDB? Trará gente de outros partidos? Da base aliada talvez.

2) Qual será o papel de Lula. Pará além do mito, como o político de carne e osso vai se comportar num eventual governo Dilma. Tentará ser uma espécie de "presidente de honra" do país, acima dos partidos, buscando consensos em torno de questoes mais delicadas para o dia a dia do Congresso, como a reforma política? Buscará consensos com o PSDB?


grande abraco

douglas da mata disse...

Eu creio, caro Roberto,

que o próprio dissenso entre a base aliada junto com a renovação promovida pelo Aécio e setores do PSDB de outros cantos, igualmente sufocados pela agenda paulista, como nós do PT, se encarregarão de formular uma agenda pragmática, que entenda as reformas necessárias como questões de Estado(afinal, empresários, sociedade, etc, precisam de um ambiente "seguro" e virtuoso de crescimento, com paz institucional), e que proponha o debate e as diferenças apenas na gestão governamental desse Estado dentro do campo da disputa política.

Haverá, como em todo local(país), menos ou mais maduros, institucionalmente falando, fluxos e refluxos, é claro. Esse é o jogo. Mas acredito que estamos próximos a um período onde os "canalhas da direita e da esquerda" estarão cada vez mais isolados, e um centro-de-esquerda cada vez mais forte se consolidará.

Eu identifico nos melhores quadros da intelligentzia tucana, algumas pontas-de-lança nesse processo: temos aí o bresser pereira, o nassif, o beluzzo, dentre outros.

Prefeitos tendem a adotar esse "pragmatismo" de forma efetiva e rápida, afinal, seu capital político depende de boas relações com outros entes de poder, principalmente o federal, para acabar com gargalos como saneamento, habitação, segurança, dentre outros, que podem ser tratados com o orçamento federal e fundos como FGTS, também de gestão da União.

Quanto ao papel do Lula, eu creio que ele ficará no primeiro mandato em stand-by. Precisa de descanso e, principalmente, de "sair" da exposição.

Tudo dependerá da conjuntura. Se houver um retumbante sucesso, ele sai, aos poucos de cena. Caso contrário, se houver insucesso ou uma tentativa de desestabilização "off-política", ele retorna com a força de seu capital político e seu "carisma"!

Servirá também o Lula, caso ninguém faça esse papel no governo, para falar aquilo que não pode ser dito por ninguém, e quem sabe emprestar seu mito a discussão de temas delicados, como: aborto, reforma tributária, reforma política, etc.

Um abraço.

Anônimo disse...

Plínio de Arruda Sampaio roubou a cena no primeiro debate de candidatos à Presidência realizado pela BAND.

Absolutamente à vontade, o candidato do PSOL esbanjou coragem e inteligência, deixando transparecer que foi o único a falar o que realmente pensava durante todo o tempo.

José Serra, dizendo sempre as mesmas coisas e Dilma Rousseff, absoltamente robotizada, pouco acrescentaram ao que todos já sabiam sobre eles.

Marina Silva foi a grande decepção, demonstrando timidez e falta de coragem para discursar em público tudo o que diz pelos bastidores.